A crise climática tem sido apresentada ao mundo como uma disputa entre metas de carbono, tecnologias verdes e números globais de mitigação. Mas, no cotidiano das comunidades que enfrentam secas, enchentes e ondas de calor, a crise assume outra forma: ela entra pela porta da casa, altera rotinas, adoece corpos, afeta a alimentação, desorganiza vínculos e amplia o trabalho de quem cuida. 

É nesse espaço íntimo, invisibilizado e essencial que a crise do clima revela sua natureza mais profunda. A mudança climática é, antes de qualquer coisa, uma crise do cuidado. E é por isso que as respostas precisam passar por quem cuida. 

Um estudo inédito sobre o tema lançado durante a COP30, “Centralizando o Cuidado no Financiamento Climático”, elaborado pela economista feminista jamaicana Mariama Williams com apoio do International Development Research Centre (IDRC), resume com precisão o que especialistas dessa agenda vêm dizendo há décadas: cuidado é infraestrutura. 

Não se trata apenas de serviços como saúde, educação ou apoio social, mas de todo um ecossistema de trabalho material e emocional que sustenta a vida e permite que sociedades atravessem períodos de crise. Esse trabalho, no entanto, é desproporcionalmente realizado por mulheres, especialmente negras, indígenas, periféricas e ribeirinhas, que carregam nos ombros a base da resiliência social sem reconhecimento, sem remuneração adequada e sem que seus esforços apareçam nas contas nacionais ou nas políticas climáticas. 

A economia feminista já demonstrou que o trabalho de cuidado não remunerado representa uma parcela significativa da riqueza de regiões inteiras, mas segue sendo empurrado para a esfera privada e tratado como inevitável, ilimitado e sempre disponível. 

E o estudo mostra que, mesmo em um cenário de emergência climática, apenas uma fração mínima do financiamento internacional é direcionada a serviços que fortalecem esse tipo de trabalho. Menos de 5% dos recursos de adaptação vão para saúde e apenas 2% para educação. 

Ao mesmo tempo, pesquisas citadas no relatório revelam que grande parte da resposta comunitária no pós-desastre é realizada por meio desse trabalho invisível, gratuito e indispensável que mantém pessoas vivas enquanto a infraestrutura formal se recompõe.

Quando analisamos os impactos concretos da crise climática, o vínculo entre clima e cuidado se torna ainda mais evidente. Chuvas intensas aumentam o risco de doenças e exigem mais horas de atenção a crianças e idosos. A escassez de água obriga mulheres e meninas a caminharem distâncias maiores para garanti-la. 

Ondas de calor ampliam quadros de desnutrição, estresse térmico e infecções, multiplicando a carga física e emocional de quem cuida. Deslocamentos forçados exigem reorganização completa da vida doméstica e comunitária. Nessas situações, não são turbinas eólicas ou sistemas de monitoramento que garantem a sobrevivência imediata. É o cuidado. E são as mulheres que o realizam.

Essas práticas e saberes estiveram no centro das conversas na COP30, que abrigou o primeiro Pavilhão dos Cuidados da história das COPs, convocado pela Aliança Global pelos Cuidados, e levou o tema a diversos espaços da Zona Azul. Ao reconhecê-lo  como parte das discussões sobre transição justa, adaptação e políticas de gênero, a conferência criou um ambiente politicamente significativo para que essa agenda ganhasse visibilidade e coerência programática. 

Essa abertura não é trivial. Trata-se da primeira vez em que o regime do clima incorpora a linguagem do cuidado não apenas como consequência social da crise, mas como um elemento estrutural das soluções. Não se trata de detalhar tecnicamente como esses marcos foram inscritos, mas de reconhecer que, politicamente, algo mudou. 

Se o clima sempre foi tratado como um tema de engenharia, a COP30 mostrou que ele também é um tema de organização social, de distribuição de poder e de justiça reprodutiva.

E essa mudança foi impulsionada pelo trabalho de pesquisadoras feministas, organizações comunitárias e lideranças do Sul Global que há anos sustentam a vida em condições adversas.

O estudo lançado na conferência ajuda a traduzir esse movimento em diretrizes políticas. Seus três pilares sintetizam uma agenda feminista para o clima. O primeiro afirma que o cuidado é infraestrutura climática e precisa ser tratado como tal, com investimento, planejamento e proteção. O segundo reivindica uma lógica reparadora, reconhecendo que a crise climática se apoia em desigualdades coloniais, raciais e patriarcais que moldam quem assume o trabalho de cuidar e quem dele se beneficia. Enquanto o  terceiro defende governança inclusiva, apontando que não há transição justa possível sem a participação direta de cuidadoras, mulheres e povos do Sul Global na formulação de políticas públicas.

É a partir dessa perspectiva que o cuidado se revela como chave política para a ação climática. Ele ilumina o que a contabilidade global não enxerga e o que as estratégias tradicionais não alcançam. Mostra que a adaptação não começa em grandes obras, mas em redes de apoio, práticas comunitárias, casas organizadas, cozinhas coletivas e vínculos que permitem absorver o impacto da crise enquanto soluções estruturais são implementadas. E, sobretudo, expõe quem tem carregado o peso dessa transição de forma silenciosa, contínua e desigual.

Se a crise climática exige imaginação, coragem e compromisso com a vida, então o feminismo tem muito a dizer sobre o futuro. Ele nos lembra que não existirá justiça climática enquanto milhares de mulheres continuarem sustentando sozinhas o trabalho que mantém comunidades inteiras de pé.

E nos lembra que cuidar não é gesto privado, mas projeto político, capaz de reorganizar economias, transformar relações e reconstruir territórios. Ao colocar o tema no centro da ação climática, não estamos apenas ampliando o escopo do debate. Estamos reposicionando aquilo que realmente importa.

Falar de clima a partir do cuidado não suaviza a urgência da crise. Pelo contrário, torna mais evidente o que sempre esteve diante dos nossos olhos: o que sustenta o mundo são mãos, corpos, tempo e vínculos, e não apenas tecnologias. Se quisermos atravessar este século com dignidade, a transição precisa ser feminista. E isso significa, de forma muito concreta, reconhecer que cuidar é ação climática, e que as mulheres que cuidam estão oferecendo ao mundo um caminho que não pode mais ser ignorado.

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  • Especialista de Programas do Centro Internacional de Pesquisa para o Desenvolvimento (IDRC).

  • Diretora do Instituto Procomum.

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