Uma das maiores mobilizações de mulheres da América Latina é referência para agricultoras de todo o mundo/ Foto: Paula Guimarães.

O poder popular no Brasil que queremos é agroecológico e ecofeminista

Postado em 14/08/2019, 10:14

A abertura oficial da 6ª Marcha das Margaridas iniciou com uma mística que valorizou os quatro elementos: água, fogo, terra e ar. O lema das Margaridas está na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência. Buscam promover a agroecologia feminista e o ecofeminismo, a conservação do meio ambiente e a valorização dos modos de vida reproduzidos no campo, na floresta e nas águas. Acreditam na democracia, na soberania popular, com justiça social e na defesa dos territórios. Ocupam Brasília para construir uma sociedade livre de violência de gênero e racial, por um país sem homofobia e sem intolerância religiosa. Para somar a este projeto mulheres de mais de 20 países da América do Sul, América Central, África, Europa e Ásia estão presentes na marcha.

Durante o dia (13) foram 15 atividades simultâneas em Brasília, entre painéis, oficinas e o tribunal das mulheres, no Pavilhão Parque da Cidade. A saída das Margaridas para a marcha com mais de 100 mil mulheres aconteceu hoje (14) por volta das 7h, em direção à Esplanada dos Ministérios onde, no caminho, encontraram-se com a Marcha das Mulheres Indígenas para o ato em frente ao Congresso Nacional. Há 36 anos a sindicalista paraibana Margarida Alves foi assassinada por fazendeiros e desde lá é lembrada por outras mulheres na marcha que leva seu nome.

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Elas reafirmam sua identidade cultural como parte da diversidade das mulheres rurais, agricultoras familiares, camponesas, sem-terra, acampadas, assentadas, assalariadas, trabalhadoras rurais, artesãs, extrativistas, quebradeiras de coco, seringueiras, pescadoras, ribeirinhas, quilombolas, indígenas e outras identidades construídas no País.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO/Brasil “a agricultura familiar produz mais de 80% da comida mundial e ao mesmo tempo aumenta a sustentabilidade ambiental da agricultura, preserva e restaura a biodiversidade e os ecossistemas, fornece alimentos tradicionais e nutritivos e contribui para possibilitar dietas equilibradas e manter o patrimônio cultural nas áreas rurais”. A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu a Década da Agricultura Familiar  (2019-2028). Acesse o documento https://undocs.org/en/A/RES/72/239

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Uma das  representantes das Margaridas Noeli Taborda do Movimento de Mulheres Camponesas, fez seu testemunho contra a reforma da previdência social no Tribunal Popular das Margaridas pela previdência pública, universal e solidária. “Hoje em nossos municípios as camponesas têm dificuldade no acesso à saúde e essa reforma da previdência vai causar muita doença porque as pessoas não terão acesso aos direitos à saúde para poderem se tratar. A questão da pensão por morte e a questão do acúmulo de benefícios irá também atingir as mulheres trabalhadoras do campo. O que nós camponesas que moramos neste interior do Brasil viemos aqui denunciar é o que essa reforma da previdência vai causar na economia local, onde o fundo da previdência é maior do que o fundo municipal. Vai ser uma grande dificuldade”, analisa Noeli. 

Ela citou a PEC 06 que modifica o sistema de previdência social, estabelece regras de transição e disposições transitórias e está em tramitação no congresso.Ela lembrou da camponesa Loiva Rubenich que lutou na década de 1980 pelo direito à previdência social e à aposentadoria das agricultoras.

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Sandra Andrade, da comunidade quilombola Carrapatos da Tabatinga, município de Bom Despacho (MG) diz “estou aqui representando a Comissão Nacional dos Quilombos e a CONAG. Pela primeira vez participo da organização da marcha juntamente com o sindicato e a CONTAG e estamos trazendo as mulheres quilombolas para somar à luta de tantas mulheres de outros movimentos. Isso vai fortalecer muito a nossa luta que reivindicamos pelos nossos territórios e a retirada dos nossos direitos pelo atual governo. Ultimamente estamos sofrendo muitas ameaças de despejo, ameaças de grandes empreendimentos por mineração, como já aconteceu lá em Brumadinho (MG)”, denuncia Sandra.

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A deputada Talíria Petrone Soares (PSOL/RJ) da bancada feminista antirracista que participou da mesa de abertura falou que o encontro “no meio de tanta dor é a certeza que esse inverno será derrotado. É preciso portanto garantir que possamos lutar para enfrentar esse grave retrocesso democrático. Estamos vivendo um avanço predatório sob quem vive de seus territórios, sob quem tem relação ancestral com seus territórios, quilombolas, ribeirinhas, indígenas. É tempo de denúncia de um feminicídio que cresce, de denúncia da negação da existência daqueles que vivem do que plantam”, analisa. 

Para Talíria esse é um tempo de denunciar as violências para que as mulheres possam organizar a seu modo o poder popular. “É tempo de denúncia porque é preciso denunciar esse que talvez seja um dos maiores tempos de retrocessos que vivemos, mas é também, e talvez especialmente, tempo de anúncio de um novo tempo que será construído por mulheres, por mulheres do campo, mulheres ribeirinhas, por pretas, LGBTs, mulheres trabalhadoras, indígenas e quilombolas que sabem o que é uma vida em tragédia, que sabem o que é uma vida de dor e que para existirem sempre tiveram que viver em resistência. Essa marcha é o momento para buscar esse novo tempo. O novo vem do povo. O novo vem do poder popular. O novo vem desse povo que é mulher”, enfatiza. A frente feminista antirracista coordenada pela deputada será lançada amanhã (15) às 9h no Congresso Nacional.

Entidades que estão participando 6ª Marcha das Margaridas: Fórum Rural Mundial – FRM, Confederação de Organizações de Produtores Familiares do MERCOSUL – COPROFAM, International Land Coalition– ILC, Asian Farmers Association – AFA, Plateforme Regionale des Organisations Paysannes d’Afrique – PROPAC, National Land Rights Forum – NLRF, Réseau des Organisations Paysannes et de Producteurs de l’Afrique de l’Ouest – ROPPA, FNT-CGTP-ABA, Sindicato Industrial de Trabajadores Gastronómicos, Hoteles, Comercios y Afines – SITGHCA, Federacion Nacional De Mujeres Trabajadoras – FENAMUTRA, Unión Internacional de Trabajadores de la Alimentación, Agrícolas, Hoteles, Restaurantes, Tabaco y Afines (Rel –UITA e UITA Genebra), Confederação Nacional da Alimentação – CONTAC, Sindicato Nacional de Trabajadores de la Industria Agropecuaria – SINTRAINAGRO, Sindicato de Trabajadores del Instituto Nacional de Aprendizaje – SITRAINA,  Unión del Personal Auxiliar de Casas Particulares (UPACP), Sindicato Nacional de Trabajadores de la Industria de las Bebidas, Alimentos, Sistema Agroalimentario, Afines y Similares en Colombia (Sinaltrainbec) e Programa Diálogo Regional Rural (PDRR).

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