Presidenta da Fenaj afirmou que o jornalista é um operador de direitos, fundamental para uma democracia/Foto: Rafael Schoenherr.

O jornalismo e a superação das desigualdades de gênero

Postado em 01/05/2019, 19:05

Em um contexto de retirada de direitos onde as mulheres têm sido atacadas com violência pela moralidade de um sistema de poder masculinista, podemos fazer a reflexão neste Dia do/a trabalhador/a sobre a atuação das mulheres jornalistas, os processos de tomada de decisão durante o exercício da profissão e o enquadramento em que são inseridas por conta de sua condição de mulher na esfera doméstica e pública. 

As mulheres sofrem discriminação e preconceito nas diversas categorias profissionais e, no caso do jornalismo, onde formam 64% da categoria, são as vítimas preferenciais de assédio moral e sexual, como explica a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga. “É nessa reflexão que a gente tem que se colocar absolutamente todos os dias. Nós somos mulheres empoderadas, mas há muitas mulheres que ainda estão em condição de subalternidade e isso tem que ser uma preocupação nossa”. 

Em conversa com o Catarinas, Braga falou sobre o gênero masculino que opera na profissão, defendeu o jornalismo profissional e o financiamento de outras formas de fazer jornalismo. O processo de desinformação social em sintonia com a crise no modelo de negócio do jornalismo empresarial, segundo ela precisa ser enfrentado com a instalação e manutenção de um debate público sobre a necessidade de financiamento do jornalismo pela própria sociedade.

“As pessoas devem entender que o jornalismo independente precisa ser apoiado financeira e socialmente, principalmente agora que tem papel fundamental no debate público para a democracia. Jornalista é um operador dos direitos humanos”, afirma.

Para a presidenta, profissionalização é sinônimo de remuneração. “Quando a gente fala de profissionalismo falamos de você viver do trabalho de jornalista. Este é o desafio: essas novas formas de produção jornalísticas devem ter condições de remunerar suas/seus jornalistas”. Ela deseja que o Portal Catarinas siga no caminho da profissionalização: “espero que vocês consigam rapidamente ser bem remuneradas”.

Braga considera fundamental que o debate seja incorporado pela categoria. “Temos o congresso da Fenaj neste ano, onde vamos discutir as novas formas de financiamento do jornalismo. O debate tem que ser com vistas a garantir a remuneração. Você pode ser militante do que quiser, mas você também tem que ser remunerada como jornalista” esclarece.

A discussão sobre o tema se deu no painel Relações de Gênero e lutas pela igualdade: trabalho, ciência e diversidade, no 6º Colóquio Mulher e Sociedade, realizado em abril na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG-PR), pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo e Gênero, vinculado ao Mestrado em Jornalismo. 

A representante da categoria apresentou dados sobre as relações assimétricas entre homens e mulheres nas relações de trabalho e propôs reflexões acerca da superação das desigualdades de gênero por meio da prática jornalística. Destacamos alguns trechos da fala:

Divisão sexual do trabalho
Não tem outra forma de nós mulheres e dos homens que desejam a emancipação humana trabalharmos se nós não colocarmos a nossa inflexão de ação na superação da divisão sexual do trabalho. A divisão sexual do trabalho está centrada na divisão da vida privada e da vida pública. E a vida privada é entendida como vida doméstica. Até muito tempo se dizia que na vida doméstica não haveria impacto das questões sociais. Isso é uma falácia.  

É determinante para a condição da mulher a sua responsabilização histórica pela a vida doméstica. O trabalho reprodutivo é um dos aspectos da vida doméstica. Existe outro. Na vida doméstica está intrínseco o cuidado. Inclusive o cuidado com o adulto, não é somente o cuidado com a criança. As mulheres são responsáveis pelo cuidado com os seus próprios maridos, seus companheiros. São responsáveis pelo cuidado com os idosos.

As mulheres são responsabilizadas pela vida doméstica. Claro que nessa responsabilização pela vida doméstica tem o destaque para o trabalho reprodutivo. Ou seja, somos responsáveis pela reprodução da vida humana, com os cuidados com a criança e inclusive inclui a nutrição, porque ninguém vai sobreviver sem a nutrição.

Apesar dessa responsabilização esse trabalho não é valorizado. Todos e todas já ouviram em certo momento “fulana não trabalha”. Isso é comum inclusive na classe média. Como não trabalha? A mulher que fica em casa para cuidar da casa, cuidar do marido, cuidar dos filhos, cuidar de toda a vida doméstica e não trabalha? Basta um homem ficar um dia todo dentro de casa para ver o que é o trabalho doméstico não remunerado.

Feminilidade e maternidade
Essa divisão entre vida privada e vida pública ela faz com que haja uma identificação tácita entre o feminino, o casamento e a maternidade. Na minha experiência pessoal de mulher que não tem filhos é bem singular, na minha geração já tem muitas mulheres que não têm filhos, mas as pessoas te cobram que você tenha filhos. Quando você casa eles começam a te perguntar quando você vai ter filhos e passado um tempo eles param de perguntar e deduzem que você tem problemas.

Te olham com maior piedade e te sugerem a adoção. São tão absurdos os conceitos arraigados na sociedade que de fato essa divisão faz com que as mulheres não tenham decisões próprias em suas vidas. Muitas vezes o que é colocado como escolha não foi escolha. Foi determinismo social. Foi constituição dessa educação que é machista que faz com que as mulheres desde muito pequenas sejam condicionadas ao casamento, a maternidade e ao cuidado que a maternidade implica. São coisas que nós precisamos estar atentos.

A sobrecarga para as mulheres mais pobres
Por que nós precisamos de estar atentos? Porque essa divisão ela não impacta só na vida doméstica. Durante muito tempo o homem trabalhava fora e a mulher trabalhava em casa. Para a mulher pobre isso nunca existiu, sempre teve que se virar para ajudar a complementar a renda da família. Para a mulher pobre o trabalho não significa uma satisfação pessoal, empoderamento etc, significa sobrevivência mesmo. Isso é até hoje. As mulheres mais pobres trabalham o dia inteiro fora e depois trabalham em casa e se encarregam de todo o trabalho doméstico à noite e nos finais de semana.

Esse impacto do trabalho na vida doméstica e na vida pública é constitutivo. Tem determinância do papel da mulher na sociedade, na vida pública. No trabalho e na política propriamente dita, nos locais das tomadas de decisão. Ela tem menos controle sobre sua própria vida e sobre seu próprio corpo, de ter filhos ou não ter filhos que pode ser uma imposição social para a mulher, ela tem menos tempo e com isso vai ter menos dedicação ao trabalho e com isso menor destaque na carreira e menor remuneração. Ela vai ter uma participação restrita na vida pública política propriamente dita. A gente entra no centro de tomada de decisão.

Baixa representatividade na política
No Brasil, a média no Congresso Nacional é de 10% de mulheres, de acordo com a lei que é de 30% de participação nas eleições. A cota nas eleições é meramente formal, as mulheres são colocadas como meras laranjas, e de fato, elas não estão na discussão central do poder político constituído no nosso país e isso se reproduz infelizmente na maioria dos países do mundo.

E por ter uma participação restrita na vida pública e política propriamente dita é que no Brasil nunca conseguimos avançar da discussão sobre a descriminalização do aborto. Agora por muito menos não vamos conseguir avançar porque o nosso Estado caiu por terra com a influência cada vez maior no país dos grupos neopentecostais e tem um fundamentalismo ali que realmente está causando atrasos. Tudo isso em um aspecto geral da condição da mulher e de um aspecto geral da sociedade, mas eu não poderia deixar de falar para jornalistas e estudantes de jornalismo, sem trazer a questão específica do jornalismo, das relações de trabalho no jornalismo e da produção jornalística em si.

Não precisa ser especialista para ver a situação de desigualdade da mulher no Brasil. Mais recentemente o que tem me deixado muito preocupada e perplexa é o recrudescimento da violência contra a mulher no Brasil. É algo que a gente jamais imaginava há vinte anos atrás. Sim, aumentaram as denúncias, mas há um crescimento na violência contra a mulher no Brasil e isso precisa de ser tratado como uma questão pública, merece atenção de toda a sociedade, merece atenção do Estado brasileiro.

O gênero no jornalismo
Nós, as mulheres, somos maioria na categoria, 64% da categoria é constituída por mulheres. Isso tem a ver com a requalificação da profissão e, principalmente, tem a ver com a escolarização. A partir do momento em que o acesso à profissão passou a se dar através da formação acadêmica específica em jornalismo as mulheres ascenderam e chegaram ao mercado de trabalho. Era difícil para nós o fato de o STF ter eliminado a exigência da formação acadêmica específica do jornalismo como acesso à profissão lá em 2012. Para nós não se trata de uma questão corporativa se trata de uma questão de qualificação para o exercício profissional e principalmente de democratização do acesso à profissão. Isso é muito pouco tratado.

Antes, nas empresas, eram os homens que galgaram os degraus. O office boy virava jornalista, mas a mulher nunca de copeira virava jornalista. Foi a garantia da exigência da formação de nível superior para o acesso à profissão que garantiu a oportunidade às mulheres de entrarem na profissão e hoje somos maioria. Com consequências: 65% das mulheres jornalistas recebiam até cinco salários mínimos em 2012. Essa é a pesquisa científica mais atual que nós temos. É uma pesquisa que se chama perfil do jornalista brasileiro feita a pedido da Fenaj pela Universidade Federal de Santa Catarina que nos deu um panorama geral da profissão no país e a gente não teve dinheiro ainda para atualizar. Mas acreditamos que os dados ainda estão valendo porque não houve mudanças substanciais no mercado de trabalho de 2012 para cá.

Houve um enxugamento das redações e esse enxugamento atingiu a categoria independentemente de gênero, 45% dos homens jornalistas recebiam acima de cinco salários mínimos e apenas 31,9% das mulheres jornalistas estavam nessa faixa salarial. Elas ganhando menos do que os homens. Na categoria dos Jornalistas tem uma vantagem, como a gente faz Convenção Coletiva e assina acordo há muitos anos quando se tem a mesma função, o salário é igual. Onde que se dá essa desigualdade? Os homens jornalistas ocupam mais cargos de chefia. Mesmo com redações que são majoritariamente constituídas por mulheres na hora do cargo de chefia são os homens que são os escolhidos. Do mesmo jeito as mulheres jornalistas são minorias nas colunas assinadas.

São os homens que se tornam as estrelas do jornalismo. Protagonistas no sentido de aparecerem socialmente, a darem invisibilidade a sua pessoa. Isso tem mudado um pouco nos últimos tempos, mas ao meu ver, uma mudança que não é positiva. Porque principalmente a Rede Globo tem dado visibilidade pessoal para os jornalistas, mas numa perspectiva de estrelato mesmo. Não de qualificação profissional, não de destaque profissional. O jornalista e a jornalista se tornando personalidade. Isso não é positivo para nós enquanto profissionais. Temos responsabilidade social.

Nas questões profissionais, e não é só no jornalismo, as mulheres são vítimas de discriminação, de preconceito e, no caso do jornalismo, nós somos as vítimas preferenciais do assédio moral e sexual. Creio que não seja só no caso dos Jornalistas também. Isso é um dado geral. As mulheres são as vítimas preferenciais no assédio moral e sexual nas relações de trabalho.

Uma vez quando eu era repórter eu fui cobrir um acidente e não tinha como não se emocionar naquele acidente. E ao chegar ao local me deparei com a família e eu não queria abordar a família numa situação daquela, mas fui falar com os bombeiros. E tive uma crise de choro. De sentar e chorar um tempão antes de continuar o meu trabalho. E o editor era homem. Quando cheguei na redação contei o que tinha acontecido. Para mim era a coisa mais natural do mundo se emocionar numa situação daquela. Ele virou para mim e disse assim “ está vendo porque eu não gosto de trabalhar com mulheres? Porque mulher chora”. Eu disse a ele “felizmente mulher chora. Estamos aqui para cumprir o nosso papel e para chorar quando for preciso”. Essa questão do assédio moral, do rebaixamento da mulher sem absolutamente nenhuma justificativa, eu que eu creio que se apresente em todas as profissões e nas relações de trabalho.

Jornalismo para superar as desigualdades
Agora também é um pouco nossa responsabilidade em falar, como eu já disse, da pressão das desigualdades de gênero na produção jornalística. Eu não poderia enquanto presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas deixar de abordar esses assuntos. São coisas que nós mulheres e homens jornalistas fazemos cotidianamente sem a devida reflexão. E o que nós fazemos cotidianamente sem a devida reflexão? Com exceção dos coletivos que estão surgindo e que estão fazendo um jornalismo com perspectiva de gênero. A gente procura menos mulher para entrevistar do que homem. As mulheres quase nunca são fontes. As mulheres são fontes naquelas reportagens e notícias que classificamos de interesse feminino. Como se o essencial da sociedade tivesse interesse feminino e interesse masculino.

E aí entra coisas fundamentais para a sociedade como, por exemplo, Educação. Educação é tratada como de interesse feminino. Voltando lá na divisão sexual do trabalho os homens estão sendo responsabilizados pela educação dos filhos. Mas esse interesse feminino tirando educação e saúde dos filhos é sempre associado a frivolidades. Eu como jornalista sempre me envergonho de ler uma revista dita feminina. Por mais que seja considerada qualificada. Porque não são. Porque coloca o interesse da mulher exatamente nas banalidades. Não coloca o interesse da mulher nas questões centrais da organização social, da vida social e política.

É sexo por sexo. Não é você se descobrir para ter prazer. É dar prazer para o outro. E está na moda. A indústria da moda é a financiadora dessas revistas ditas femininas e faz com que a mulher de fato quase que se escravize em função da moda e do consumo. A mulher é responsável pela ambientação dessa vida doméstica. Filhos, horóscopo, esoterismo. A identificação das mulheres com as coisas banais me irrita profundamente e me deixa muitíssimo constrangida como profissional jornalista. Assim como me deixa constrangida como profissional jornalista ler vários jornais no Brasil. É palpável. Para todo mundo ver.

As mulheres de destaque na sua área de atuação são desqualificadas na produção jornalística. E não é só na produção jornalística. Geralmente as mulheres são reconhecidas não pela sua produção, não pelo seu trabalho, mas ela é reconhecida, elogiada, por esses valores que são colocados como femininos que é a beleza, a simpatia, a meiguice. Então são coisas que a gente também acaba reproduzindo. Eu tenho amigas combativas que quando eu termino de falar me dizem “você estava bem, você estava muito bonita”. Não é esse o caso e nem esse o objetivo. O objetivo é provocar a reflexão. É fazer o debate. É estar de fato atuando na vida sindical enquanto categoria porque esse viés de gênero eu tenho na minha participação política.

As mulheres são vítimas do moralismo. Isso no jornalismo é de nos deixar, como jornalistas, envergonhadas. Desde a cobertura da condição gravíssima que é a violência contra mulher, a questão da contabilização da vítima é real e atinge as mulheres formalmente. Atinge os pobres de maneira em geral indistintamente do gênero. Muitas vezes são presos. Presos por quê? Por que é preto e está sem camisa? Desde quando isso é motivo? Nesse moralismo de repente a mulher é insinuante, usa roupa curta, usa roupa provocante, a mulher pode arrumar um amante. Desde quando a mulher estar com um amante é motivo para ela sofrer violência? São coisas que estavam no passado e a gente achava que já havia superado. Infelizmente as coisas não estão superadas. As coisas estão aí no cotidiano.

Achando que está superada para nós que estamos empoderadas, que estamos na universidade, que já estamos no mercado de trabalho, que ganhamos o nosso próprio dinheiro, fazemos o que quisermos com nosso dinheiro, casamos quando queremos se achamos que queremos casar, temos filhos ou não. Esse nosso empoderamento infelizmente não é a condição da imensa maioria das mulheres no Brasil. Isso nós temos que ter para nós. Porque nós jornalistas temos uma responsabilidade muito grande. Eu sempre defendo o jornalismo como a profissão mais fascinante que pode existir. É a profissão que pode sim dar condição para que o cidadão e a cidadã em seu juízo exerçam a sua cidadania. E cobrem todos os demais direitos e façam o debate político.

Isso é fundamental e nós temos que ter orgulho dessa nossa profissão e dessa condição que nos é dada. Nós temos que ter orgulho e honrar essa condição que nos é dada em qualquer tipo de reportagem, em qualquer tipo de notícia. Nós mulheres que já somos a maioria na categoria temos que assumir e não reproduzir como está sendo feito pelos homens. Infelizmente é isso que ainda está sendo feito. É nessa reflexão que a gente tem que se colocar absolutamente todos os dias. Nós somos mulheres empoderadas, mas há muitas mulheres que ainda estão em condição de subalternidade e isso tem que ser uma preocupação nossa.

Eu vou falar de uma imagem da ex-presidenta Dilma na capa da revista IstoÉ que coloca ela em uma expressão de raiva e o título é “as expressões nervosas da presidente”. Essa capa quer dizer que as mulheres empoderadas também são vítimas. Temos de estar vigilantes o tempo todo nas mais diversas situações. Das afetivas as mais políticas possíveis. A Dilma foi uma mulher empoderada presidenta do país e vítima do machismo e do preconceito brasileiro. Como não está na natureza da mulher escolher o serviço doméstico ou reprodutivo. Nós temos que ser levadas em conta. Produzindo conhecimento temos que agir. Opressões cruzadas precisam de atenção. Pretas e pobres no Brasil estão em uma condição muitíssimo desigual e às vezes com a contribuição de outras mulheres que estão na base das desigualdades.

No painel “Relações de Gênero e lutas pela igualdade: trabalho, ciência e diversidade” estavam presentes Maria José Braga, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj, Nadia Veronique Jourda Kovaleski da Universidade Tecnológica Federal do Paraná e Ananda Puchta do Coletivo Cássia e da OAB/PR, mediado pela mestranda em jornalismo Paula Silveira Barbosa. O evento propôs a discussão sobre o tema “Mulheres e Redes: perspectivas de pesquisa e intervenção em gênero”. Trata-se de uma abordagem voltada ao desafio de articulação entre saberes e práticas que, em distintas áreas, promovem impactos sociais no que se refere às demandas de gênero.




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