Feminicídio fim de ano
A juíza Viviane Vieira Arronenzi e a diarista Domingas Cecília da Silva Oliveira. Ambas mortas pelos ex-companheiros no meio da rua em plena luz do dia, em dezembro. (Foto: Arquivo Pessoal)

O feminicídio não escolhe

Postado em 27/12/2020, 9:51

Diaristas, desempregadas, modelos, atrizes, professoras, vendedoras, advogadas, juízas. Algumas com notas de pesar, outras com a reputação atacada. Mortas dentro de casa, na rua, na frente dos filhos, a facadas, estranguladas, violentadas, torturadas. São crimes bárbaros, mas a indignação não parece ter a mesma proporção. Vida que segue, só não para estas mulheres.

Na véspera do Natal, a juíza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi foi vítima de feminicídio, no Rio de Janeiro (RJ). O ex-marido, Paulo José Arronenzi, não aceitou o fim do relacionamento. Ela foi esfaqueada por ele na frente das três filhas pequenas, à luz do dia, em um local movimentado da Barra da Tijuca, bairro nobre da capital carioca. Uma juíza, com acesso à informação, aos canais de denúncia, às medidas protetivas, em posição privilegiada, foi assassinada pelo ex-marido, porque ele não aceitou a separação.

No dia 19 de dezembro, Domingas Cecília da Silva Oliveira foi assassinada a caminho do trabalho, em Cuiabá (MT). Ela era empregada doméstica e também foi esfaqueada pelo ex-namorado. Imagens de uma câmera de segurança mostram Alecino Anunciação de Santana em uma bicicleta, na Avenida Carmindo de Campos, perseguindo a ex, enquanto ela ia para o trabalho, a pé. Em certo momento, aproveitando a rua vazia, às 5h15, ele desce da bicicleta, a agride com socos e chutes e depois ela é esfaqueada no pescoço.

Dois casos revoltantes, chocantes, mas o Natal seguiu, com toda a estrutura patriarcal fantasiada da instituição família. Homens bebendo e conversando, mulheres na cozinha, ceia servida (pelas mulheres, é claro!). Depois, louças na pia, mulheres novamente na cozinha, homens conversando e bebendo, e no outro dia tudo recomeça.

Mas o que isso tem a ver com o feminicídio? Tem a ver com a ideia institucionalizada de que precisamos formar uma família heteronormativa, mas para isso a mulher tem que ser escolhida pelo homem e pedida em casamento. Ela tem que merecer, ela precisa aprender a cozinhar, a limpar, lavar, passar, engravidar, ser uma mãe com amor incondicional pelo filho, em alguns casos servir o marido e se dedicar integralmente ao lar. São tantos requisitos que quando nos encaixamos no padrão, não somos mais nós mesmas.

Quando a mulher não cumpre alguma dessas condições, os conflitos começam. Seja por não querer ser mãe, por não abrir mão da carreira, por ser melhor sucedida que o homem, por se posicionar, por questionar, ou apenas por exigir amor, atenção, respeito. Só que ela continua, porque ele e todos ao redor dizem que esse homem vai mudar, e que todas as violências psicológicas são, na verdade, demonstrações de proteção e de amor. Em volta, todos estão extremamente empenhados em manter a família funcionando, mesmo em meio ao caos.

Nos dois casos acima, elas decidiram colocar um fim em relacionamentos que só traziam dor, não só emocional, mas física também. Ambas já tinham registrado queixas por violência doméstica, com medidas protetivas concedidas. Ainda que a diferença de classe social entre as duas seja gritante, elas foram vítimas de uma mesma estrutura que insiste em nos violentar e matar. O machismo não é uma espécie de espírito que toma conta do corpo de um homem no momento do crime. Ele está nas pequenas coisas, todos os dias. Está nas conversas de bar, nas confraternizações de família, no ambiente de trabalho, nas piadinhas, e na educação dos filhos, principalmente.

Dizer a um menino que ele não pode chorar é um ato de repressão aos sentimentos que, lá na frente, tem efeitos extremamente perversos. Ele vai aprender a resolver as coisas de outra forma. Excluir os garotos das tarefas de casa e não ensiná-los a respeitar o espaço do outro repete todo o ciclo patriarcal que cria homens cada vez mais violentos e reativos. Do mesmo modo, ensinar a uma menina que ela deve ser boazinha, educada, comportada, obediente e delicada, reprime a capacidade de questionar e a liberdade de ser o que ela quiser.

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A responsabilidade disso tudo não recai apenas sobre os pais, mas em toda a família, essa instituição que fecha os olhos para os feminicídios, o aborto, a violência contra a mulher, a pedofilia. Crimes cometidos, em sua maioria, por homens que convivem com as vítimas dentro de casa.

O 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado no contexto da pandemia da covid-19, apontou que o Brasil registrou um estupro a cada 8 minutos em 2019, índice maior do que em 2015 quando o crime acontecia a cada 11 minutos. Foram 66.123 estupros e estupros de vulnerável no ano passado e a maioria das vítimas (85,7%) era mulheres. De acordo com a pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Cristina Neme, “o perfil do agressor é de uma pessoa muito próxima da vítima, muitas vezes seu familiar”.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou também que quase 89,9% das vítimas de feminicídio no Brasil são mortas por ex-maridos ou ex-companheiros. Em 2019 ocorreram 1.326 feminicídios no Brasil, número 7,6% maior que o registrado em 2018.

O feminicídio não escolhe. As mulheres não estão seguras em lugar nenhum, em nenhuma posição social, dentro ou fora de casa. Viviane e Domingas estavam na rua, foram assassinadas ao ar livre, à luz do dia, para quem quisesse ver. Não existe forma mais perversa de demonstrar a banalização do feminicídio. Tudo às claras, para que não reste dúvidas de que a sociedade autoriza o homem a tirar a vida de uma mulher como se arrancasse erva daninha do jardim.

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