O novo filme Superman, dirigido por James Gunn, e lançado em julho deste ano, talvez seja uma das abordagens mais ousadas e necessárias do personagem nas últimas décadas. Ao invés de apostar somente em cenas grandiosas ou em vilões espetaculares, o longa nos convida a olhar para algo mais íntimo e profundamente político: a escolha pela bondade.

Kal-El, o super herói que vem de Krypton, é um imigrante. E isso nunca ficou tão evidente quanto agora. O filme nos lembra que ele é alguém que perdeu tudo por um evento de dominação de seu lar, de seu povo, de sua terra, seu planeta. E, mesmo assim, escolheu proteger um mundo que não é o de sua origem e nem sempre o acolhe.

Ao fazer isso, o diretor transforma Superman em mais do que um símbolo da força: ele vira um espelho de tensões sociais, ambientais e emocionais do nosso tempo.

Um herói feito de memória, dor e escolhas

O que resta de Krypton, o planeta natal de Superman, é a kriptonita. Um pedaço do passado, mas que ainda o machuca. É aí que mora uma das metáforas mais potentes do filme: a kriptonita não é apenas seu ponto fraco. É o trauma que o paralisa. A memória que dói. A dor que não foi curada.

A beleza da construção do personagem é justamente essa: ele não é herói porque é invencível, mas porque escolhe agir com compaixão mesmo quando está frágil e vulnerável. E isso, precisamos aceitar, é revolucionário em um mundo que idolatra a ambição, a individualidade e a autoproteção.

Krypto e o afeto que não cobra

Entre as muitas surpresas do filme, uma das mais simbólicas é a presença do cachorro Krypto. Pode parecer apenas um detalhe fofo no filme, mas é uma parte poderosa da narrativa. Em um mundo dominado por guerras, armas, discursos de ódio e fake news, o cachorro representa o vínculo do afeto que sobrevive, apesar de tudo. Na alegria e na tristeza. A intimidade que resiste. O amor que não cobra. A ingenuidade que apenas entrega.

Krypto está ali, ao lado de Superman, lembrando-o de que é possível amar, cuidar, ter companhia e diversão. E essa demonstração, em uma época em que tudo parece ser transformado em utilidade ou produto, é um ato político.

A kriptonita também ganha um peso simbólico maior no novo filme. Não só porque ela representa o passado que machuca, mas porque também é usada como arma por aqueles que querem controlar Superman. O Estado, as corporações, os vilões: todos querem ter poder sobre o corpo dele. Querem domesticar a diferença que o faz singular e transformá-lo em ferramenta de guerra à serviço de interesses nada nobres.

O vilão é o sistema

Lex Luthor é um vilão à altura do nosso tempo: bilionário, influente, invejoso, egoísta e manipulador. Ele não quer derrotar Superman apenas com força. Ele quer controlar sua imagem, transformar o mito em propaganda mentirosa, reduzir a esperança que a sociedade deposita nele a um produto que parou de funcionar. E é assim que se destrói um símbolo: não com violência, mas com apropriação e difamação de sua imagem.

O diretor do filme, de forma inteligente, mostra que a verdadeira luta de Superman não é contra monstros ou extraterrestres. É contra sistemas que usam o medo das pessoas como ferramenta de poder.

E contra narrativas que nos fazem acreditar que a empatia é sinônimo de fraqueza. Quantas pessoas, afinal, não confundem bondade com burrice e educação com covardia?

Há uma cena no filme em que Superman para tudo para salvar um esquilo. É um gesto que resume a lógica do filme: toda vida importa, mesmo a que ninguém está vendo. O tempo todo, Superman escolhe cuidar. E isso, em um mundo movido pelo descaso, por interesses financeiros e pelo egoísmo, é subversivo. Na cena do esquilo, ele nos lembra que gentileza é coragem. Que proteger, mesmo quando isso não é esperado ou recompensado, é uma forma de força e resistência.

O novo filme do Superman, portanto, é um chamado ético. Um lembrete de que, mesmo diante de tantas pressões para o predomínio do ódio e da mágoa, ainda podemos escolher não ser indiferentes. Ainda dá tempo de cuidar do que é pequeno, de reconstruir laços e proteger nosso planeta como se fosse único. Porque ele é.

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  • Claudia Guadagnin

    Claudia Guadagnin é jornalista, pós-graduada em Antropologia Cultural e Mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas....

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