O hall de entrada da Eletrosul em Florianópolis foi ocupado durante toda a manhã. Foto: Sílvia Medeiros / Portal Catarinas

Movimentos ocupam Eletrosul no dia mundial da água

Postado em 22/03/2018, 22:49

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e Movimentos Campesinos dos três estados do sul do país ocuparam a sede da Eletrosul na manhã dessa quinta-feira (22). A data em que se celebra mundialmente o dia das águas foi escolhida para realizar atos e ocupações em todo o país em protesto ao Projeto de Lei 9.463, de autoria do Governo Temer (PMDB), que prevê regras para a privatização da Eletrobrás e tramita na Câmara dos Deputados e que tem previsão de votação ao final do mês de abril.

No hall de entrada da Eletrosul em Florianópolis, uma das 13 subsidiárias da Eletrobrás, manifestantes reivindicaram a retirada imediata do projeto. O movimento alega que, com a aprovação da lei, o controle de um setor estratégico como o de energia poderá ser concedido a empresas privadas, comprometendo a soberania nacional. “No país, a produção de energia está 80% vinculada ao setor das águas através das hidrelétricas. Privatizar os serviços de energia é entregar o controle dos nossos rios para empresas estrangeiras”, destaca Grasiele Berticelli, dirigente do MAB.

Para Grasiele, a questão de gênero, evocada diversas vezes durante a ocupação em Florianópolis, é pertinente quando o assunto é a luta contra a privatização da energia e da água.”Nós mulheres somos sempre as mais prejudicadas, porque sofremos a opressão de gênero e de classe. No caso das atingidas e ameaçadas por barragens, somos muito mais afetadas do que os homens. Estudos do MAB revelam que numa construção de barragem são violados 16 direitos humanos. E nos locais em que se concentram as barragens temos vários relatórios que indicam o aumento de casos de estupro, de violência sexual contra mulheres e feminicídio”.

A atividade contou com a presença de cerca de 200 manifestantes do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul | Foto: Sílvia Medeiros/Portal Catarinas

Cecy Marimon Gonçalves, dirigente do Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis e Região (Sinergia), afirma que os trabalhadores da Eletrosul estão resistindo contra o projeto de privatização com ações de pressão no Congresso Nacional e procurando dialogar com a população brasileira sobre os prejuízos da privatização da Eletrobrás. Cecy ainda destaca que o reflexo mais imediato da venda da estatal é o aumento nos valores da conta de luz. “Temos Portugal como exemplo. Depois da privatização dos serviços de energia, houve um aumento de quase 200% na conta de luz. Na Argentina,  a mesma ação resultou no aumento de quase 500%”.

Uma comissão formada por representantes dos movimentos entregou à direção da Eletrosul uma série de reivindicações que tratam de questões imediatas e cobranças de acordos não cumpridos dos atingidos e ameaçados por barragens. Como resultado da mobilização, os manifestantes conseguiram agendar para início de abril uma audiência com a direção da estatal para falar sobre o PL da privatização da estatal.

A Eletrosul, que atende os estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, tem sete usinas hidrelétricas e 44 subestações. Cobiçada pelo capital internacional há mais de 20 anos, em 1997, no governo de Fernando Henrique Cardoso, a central elétrica entrou no pacote de empresas que foram desestatizadas e metade de suas ações foi comprada pela multinacional franco-belga Tractebel.

Alguns trabalhadores da Eletrosul questionaram a mobilização, embora a pauta na visão deles, seja uma luta justa | Foto: Sílvia Medeiros / Portal Catarinas

As manifestações seguiram durante a tarde com ocupação em diversos locais da cidade. Depois da audiência na Eletrosul, os manifestantes foram para a região central de Florianópolis, em frente à empresa Engevix, responsável pela construção da hidrelétrica de São Roque (SC), que está com as obras paradas há dois anos e vem descumprindo o pagamento dos direitos aos atingidos pela barragem. Em seguida, os manifestantes foram para a região nobre da capital, na Beira Mar protestar em frente à empresa Engie que adquiriu as usinas que estavam sob o comando da Eletrosul e, de acordo com o MAB, desde 1997 tem transferido para a empresa francesa cerca de 1 bilhão de dólares anuais, só com os lucros da exploração de energia no Brasil.




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