Imagem: print de mensagens do professor. Fonte: Resistência Popular Estudantil.

Misoginia e racismo: organizações se manifestam contra permanência de professor na UFSC

Postado em 04/12/2020, 15:51

Em junho do ano passado, o reitor Ubaldo Balthazar recebeu um grupo de mulheres que fez a denúncia institucional, mas até agora o processo administrativo não teve nenhum resultado.

ATUALIZAÇÃO: No final da tarde desta sexta-feira (04/12), a assessoria de imprensa da UFSC nos informou que ocorreu uma sessão extraordinária do Conselho Universitário, na qual o reitor afirmou que recebeu a carta e que a Reitoria a encaminhou à Corregedoria-Geral da Universidade, com o pedido que seu conteúdo fosse analisado.

“Convenhamos que há uma relação entre mulheres e energia solar. Mulheres bem produzidas são usuárias de energia solar e de protetores solares. Espero que em tal evento haja uma exposição de mulheres bonitas, com os clássicos biquínis a absorver energia solar para nosso deleite (…) Espero que nosso laboratório seja visitado pelas participantes, preferivelmente bonitas e/ou simpáticas”, afirmou Sérgio Colle, em ocasião do 1º Encontro de Mulheres na Energia Solar, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em junho de 2019.

Posicionamentos como esse levaram o professor Sérgio Colle, vinculado ao Departamento de Engenharia Mecânica (EMC/CTC) da UFSC, a responder um processo administrativo. Mais de 30 organizações, entre estudantis e ligadas ao campo da Engenharia Mecânica, publicaram na quinta-feira (03/12) a carta “Até quando a UFSC e o CTC serão coniventes com misoginia e racismo?”, em que se manifestam contra o retorno dele à Universidade.

Recentemente, Colle foi aposentado por idade. Nesta sexta-feira (04/12), uma reunião do Departamento de Engenharia Mecânica do Centro Tecnológico (EMC-CTC-UFSC) votará o pedido de serviço voluntário de professor aposentado. O objetivo da carta é opor-se à aprovação do pedido.  Segundo informam na carta, Colle é conhecido na Universidade por posicionamentos de extrema-direita, misóginos e racistas.

“Ele gosta de chamar feministas de mulheres hienas, porque as hienas fêmeas têm pênis. A postura desmerece o nosso trabalho, enquanto mulheres numa carreira predominantemente masculina. Ele também desmerece cotistas, pessoas negras e pobres. Não é só o ponto de vista dele, uma piada de mau gosto, ele se coloca contra o ingresso de pessoas que não sejam homens e brancos, como ele, nos ambientes da Engenharia. Ele é uma pessoa que quer excluir grupos minoritários de um ambiente universitário que pertence a toda a sociedade e não apenas a homens brancos e velhos como ele”, afirmam integrantes do Mulheres na Engenharia UFSC em entrevista ao Portal Catarinas. 

O coletivo identificou por meio de levantamento exclusivo na UFSC que as mulheres não são minorias numéricas em todas as Engenharias. Há mais paridade nas Engenharias Civil e Química, enquanto há maioria feminina na Engenharia de Alimentos. Já nas Engenharias ditas mais duras, como Mecânica, Elétrica e Controle de Automação a predominância é masculina, com 15% de estudantes mulheres. “Colle é justamente da Engenharia Mecânica que é a mais lida como masculina […]. O coletivo surgiu em 2017 dessa percepção de que estavam tratando a gente de forma diferente e não era algo individual, mas sim uma postura discriminatória que acontecia tanto na Academia quanto no mercado de trabalho. Nós percebemos que somos frequentemente vítimas de machismo”, afirmam. 

De acordo com o coletivo, quando os primeiros prints vazaram, em junho do ano passado, o reitor Ubaldo Balthazar recebeu um grupo de mulheres que fez a denúncia institucional, mas até agora o processo administrativo não teve nenhum resultado. “Na época a UFSC publicou uma carta escrita pelas mesmas mulheres, mas não citou o professor nominalmente”, afirmam.

À época, as mensagens causaram indignação da comunidade universitária e mais de 30 professores, alunos, técnicos-administrativos e representantes de entidades ligadas à instituição, elaboraram documento a fim de tomar medidas de prevenção e denúncia, bem como de punição pelas instâncias competentes daqueles que ferem o código de ética, as leis e os regulamentos acadêmicos.

Misoginia e machismo

Na carta, as signatárias citam trechos de mensagens enviadas pelo professor na lista de discussão do Centro Tecnológico no e-mail institucional da UFSC. As mensagens foram divulgadas em 2019 pela Coletiva Resistência Popular Estudantil. O próprio Colle ratificou a veracidade das mesmas em uma reportagem publicada pelo Jornal da Cidade.

Fonte: Resistência Popular Estudantil

O professor manifestou sua visão de que mulheres e cotistas têm participação excessiva na política universitária ao criticar o programa Mulheres na Ciência. “Mas quem promove uma ideia bestialoide dessa é um espertalhão. Ora, ainda estamos numa fase primitiva de caos que é a eleição para reitor e as mulheres constituem uma boa fração do eleitorado, a exemplo dos cotistas (…)”.

Ele reiterou sua posição contra as eleições na matéria do jornal da cidade: “Urge uma ação de caráter executivo do Governo Federal, a fim de intervir nas universidades no bojo de novas leis, que venham suprimir de pronto a perniciosa eleição direta para reitor (…)”⁵. 

Nos e-mails divulgados pela Resistência Popular Estudantil também há falas homofóbicas, xingamentos a feministas e elogios a ditaduras. Colle é seguidor de Olavo de Carvalho, já defendeu a ditadura de Pinochet e se opôs contra a criminalização da homofobia. 

Fonte: Resistência Popular Estudantil

Os discursos racistas

Segundo relatam, o professor já assumiu publicamente seu posicionamento racista ao chamar cotista de imbecis e macacos:

“A lógica da falsidade e inutilidade tem por objetivo cooptar a enormidade de imbecis do coletivo brasileiro (sobretudo os cotistas das universidades), de que o subdesenvolvimento científico deve-se a tal dominação. Ora, a patuleia simiesca, e por conseguinte, deseducada, absorverá este tresloucado discurso, até porque eles têm preguiça de pensar (…)”⁴, disse o professor.

O xingamento a cotistas foi repetido em uma nova série de e-mails da mesma lista de e-mails, que continua sendo um canal institucional para professores abertamente exibirem seus preconceitos. Num debate sobre cotas na pós-graduação, Colle chama cotistas de “medíocres” e diz que seu ingresso será responsável pelo fechamento de cursos de pós-graduação.

Para as organizações que assinam o documento, as citações não são exemplos da livre circulação de ideias e liberdade de expressão, que também são valores da UFSC. “As citações são sim exemplos de discurso de ódio, que têm por objetivo manter pessoas negras, mulheres e LGBTs longe da UFSC e da Engenharia. Não há liberdade de expressão quando grupos historicamente silenciados continuam sendo excluídos”.

Afirmam ainda que ao posicionar-se contra a inclusão, o professor mostra-se incapaz de cumprir alguns dos deveres exigidos pela normativa do Conselho Universitário. Referem-se à Resolução normativa nº 67/2015/CUn, que regulamenta os servidores voluntários: Seção I – Dos deveres: “VI – tratar com urbanidade os servidores, alunos, prestadores de serviço e demais pessoas que tenham acesso à universidade”; “IX – Manter conduta compatível com a moralidade administrativa”.

No documento, ponderam que enquanto pesquisador, Colle “possui um currículo excelente, sendo referência internacional na área de energia solar e membro da Academia Nacional de Engenharia”. Informam, entretanto, que a missão e os valores da UFSC não incluem apenas resultados de pesquisa científica. Pelo contrário: a missão tem como perspectiva a “construção de uma sociedade justa e democrática e na defesa da qualidade da vida”³.

Afirmam que durante seus mais de 40 anos de atuação como professor da UFSC, o professor Colle opôs-se a esses valores. Dentre os valores, pode-se destacar que a UFSC se diz “Uma Universidade inclusiva, capaz de olhar para os mais diversos grupos sociais e compor um ambiente em que impera o respeito e a interação para com todas as diversidades, nacionalidades, classes, etnias e pessoas com deficiência, comprometendo-se com a democratização do acesso ao ensino superior público, gratuito e de qualidade para todos, de forma a superar qualquer desigualdade, preconceito, exclusão ou discriminação, construindo uma sociedade mais justa e harmônica para as gerações vindouras”.

“Todos aqueles que votarem a favor do aceite do professor Colle como professor voluntário estarão sendo coniventes com suas posturas discriminatórias, dizendo que tais atitudes são aceitáveis. Assim, nos posicionamos contrárias e contrários à permanência de Colle como docente desta universidade, para que suas ideias excludentes, assim como ele e aqueles que com ele concordam, sejam enfim aposentados”, declaram.

Assinam a Carta a Associação Brasileira de Energia Solar (ABENS);  Centro Acadêmico de Engenharia de Materiais (CAMAT);  Fotovoltaica – UFSC;  Centro Acadêmico de Engenharia Mecânica (CAME); Coletivo Feminista Mulheres na Engenharia UFSC (MnE – UFSC); Centro Acadêmico Livre de Antropologia (CALANT); Centro Acadêmico de Design e Design de Produto (CADe); Centro Acadêmico Livre de Engenharia de Produção (CALIPRO); Centro Acadêmico Livre da Computação (CALICO); Diretório Central dos Estudantes Luís Travassos (DCE UFSC); Sindicato dos Trabalhadores da UFSC (SINTUFSC); Centro Acadêmico Livre de História (CALH); Centro Acadêmico Livre de Química (CALQ); Centro Acadêmico Livre de Pedagogia (CALPE); Federação de Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB) Florianópolis; Centro Acadêmico de Engenharia de Controle e Automação (CAECA); Centro Acadêmico das Engenharias Elétrica e Eletrônica (CAEEL); Centro Acadêmico Livre de Engenharia Sanitária e Ambiental (CALESA); Centro Acadêmico Livre de Engenharia Química e de Alimentos (CALEQA); Centro Acadêmico de Sistemas de Informação (CASIN); Centro Acadêmico Livre de Engenharia Civil (CALEC); Centro Acadêmico Livre de Serviço Social (CALISS); Movimento Negro Unificado (MNU); Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar (Rede MESol); Coletivo Feminista da UFRGS Litoral; Centro Acadêmico Pirajá da Silva (CAPS) – Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) – UNESP;  Associação de Pós-graduandas e Pós-graduandos da UFSC (APG); Centro Acadêmico Livre de Arquitetura (CALA);   Coletivo Urbanas; Centro Acadêmico Livre de Letras (CALL); Centro Acadêmico Livre de Física (CALF).

A posição da UFSC

Entramos em contato com Agência de Comunicação da UFSC, a qual nos informou que enviou nossa solicitação de posicionamento à reitoria da UFSC. “Nós averiguamos o que foi possível. No caso do professor Sergio Colle, há um processo administrativo a ser seguido. O assunto também está sendo lidado pelo Centro Tecnológico e pelo Departamento de Engenharia Mecânica. Ademais, salientamos que os processos administrativos têm seu rito e fases, e nem sempre é possível ter acesso ao andamento dos processos. Na UFSC as denúncias são recebidas formalmente pela Ouvidoria e Corregedoria, que dão andamento às demandas de acordo com os ritos legais”.

Tentamos conversar com a coordenação do Centro Tecnológico por e-mail e telefone, mas não conseguimos retorno. Enviamos e-mail ao professor Sérgio Colle, mas até o fechamento da matéria não tivemos resposta. 




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