Julieta Paredes Carvajal, indígena do Povo Aymara da Bolívia. (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)

Julieta Paredes debate a força das mulheres indígenas e o feminismo comunitário

Postado em 10/12/2020, 14:19

“Nós não somos feministas, somos feministas comunitárias porque nós não somos filhas da Revolução Francesa”, Julieta Paredes. 

Desde a década de 1990, quando passa a integrar o Coletivo anarco-feminista “Mujeres Creando”, Julieta Paredes Carvajal, indígena do Povo Aymara da Bolívia, analisa diferentes aspectos que envolvem a vida das mulheres indígenas e sugere propostas de formação nos espaços em que atua. Ela considera essencial que essas mulheres se reconheçam em suas lutas para que possam se posicionar contra as opressões. Das reflexões e ações no “Mujeres Creando” surge o Feminismo Comunitário – movimento político com prática descolonizadora. 

“As irmãs perguntavam porque nós nos chamávamos feministas, uma palavra feia, colonizadora. Nós passamos a nos chamar em nosso idioma Q’amasa Warminanaka, que significa a força das mulheres, na Língua Aymara. Nós podemos entrar em um congresso de mulheres feministas assim lindas como nós somos, as mulheres indígenas, e nos posicionarmos. Nós também somos mulheres que lutamos. Não somos aprendizes de feministas”, ressalta Julieta Paredes.

Em novembro, um encontro de formação sobre o tema foi realizado de maneira online. Indicado por Pietra Dolamita Kauwá Apurinã, Conselheira Editorial do Portal Catarinas, estivemos presente aprendendo mais sobre a temática. Hoje, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, compartilhamos as reflexões trazidas pelas próprias mulheres indígenas sobre o feminismo e a luta ancestral dos povos originários. 

Formação online pela Pós-Graduação em Antropologia da UFMS. Imagem: Arquivo/Portal Catarinas.

“Não chamamos América Latina de América Latina, chamamos Abya Yala, assim como fizeram nossas lideranças, que quer dizer ‘terra em plena maturidade, continente em plena maturidade’. O Brasil tampouco se chama Brasil, se chama Pindorama. É assim que os Povos Indígenas chamavam esse território. Para nós, como Povos Originários, chamar o nosso continente, o nosso território pelo nome próprio é muito importante. Como a Bolívia que chamamos de Chuquiyapu Marka”, esclarece.

Abya Yala (de origem kuna, utilizada para localizar o espaço colonialmente chamado de América Latina e Caribe) e Q’amasa Warminanaka (a força das mulheres) – ambas palavras recuperadas por distintos movimentos indígenas e feministas. O uso de palavras indígenas é apontado por Julieta Paredes como uma ação de “descolonização epistêmica”, de ressignificação de conceitos que hoje dominam e estigmatizam os Povos Indígenas, os colocando “à disposição da Europa”. Para ela, é necessário que as epistemologias indígenas possam ser lidas.

“Para nós, feministas comunitárias, o feminismo é a luta de qualquer mulher, em qualquer parte do mundo, em qualquer tempo da história que luta contra um patriarcado que a oprime ou pretende oprimir”, Julieta Paredes.

“Nós, mulheres originárias, somos parte das mulheres do mundo e em qualquer tempo da história. Isso é muito importante porque as feministas dizem que elas nasceram na Revolução Francesa, que são filhas do iluminismo, que são filhas do Estado Moderno. Assim falaram elas. Elas nascem na luta pelo voto, pela incorporação das mulheres no sufragismo. É a primeira parte da luta das mulheres na Europa. Por isso, nós não somos feministas, somos feministas comunitárias porque nós não somos filhas da Revolução Francesa. Nós reconhecemos as nossas ancestrais Bartolina Sisa, Micaela Bastidas Puyucahua, reconhecemos muitas de nossas ancestrais lutando contra a invasão colonial nos territórios”, lembra.

A indígena analisa que no território ancestral havia melhores condições de vida para as mulheres em comparação às condições em que as mulheres europeias viviam entre 1200 ou 1300, pois as mulheres eram queimadas como bruxas por seus saberes. A partir da colonização europeia o entronque patriarcal contribuiu para mudar a realidade das mulheres indígenas.

“As condições de vida para as mulheres eram melhores em nossos territórios em comparação com a Europa. Certamente havia outras formas de dominação nos territórios, e é isso que nós chamamos de entronque patriarcal. Havia um patriarcado ancestral em 1492, em 1500, que fez um entronque patriarcal para essa situação de relações de poder antigas, não com a colonização, não foram definidas pela colonização antigamente. Temos que reconhecer que não foi tudo uma coisa maravilhosa, mas era muito melhor que na Europa. E é isso também que nós chamamos de patriarcado ancestral, entronco que se uniu com o patriarcado colonial colonizador”. 

Julieta Paredes é feminista comunitária, lésbica, poetisa, cantora, compositora, escritora, grafiteira, psicóloga mestra em Gênero, Sociedade e Políticas pela Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais da Argentina. É autora de obras como Para descolonizar el Feminismo (2020), El desafío de la despatriarcalización (2016), Hilando  fino,  desde  el  Feminismo Comunitario (2010) entre outras.  Ela esclarece que o termo “decolonial” é uma perspectiva acadêmica sobre o tema discutido aqui; “descolonial” é a ação para a descolonização, em um processo para desestruturar a prática opressora enraizada no sistema colonial, reconstruindo os termos sob a óptica dos Povos Originários.

Uma discussão de gênero a partir do olhar indígena

O encontro foi organizado por Linda Terena, doutora em Antropologia, o professor Dr. Victor Mauro Ferri e o professor Dr. Antonio Hilario Urquiza, coordenador do departamento de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Linda Terena e Victor Mauro Ferri compartilham uma disciplina de mestrado que aborda as temáticas indígenas no Brasil relacionando-as com questões de gênero. Muitos dos materiais para leituras são escritos por autoras feministas latino-americanas.

Cartaz do curso/ Imagem: Divulgação.

“Tendo em vista de que é necessário descolonizar também as instituições apresentando novas visões e atuações de intelectuais e feministas da América Latina, estendemos o convite para uma aula especial à uma de nossas autoras, Julieta Paredes, além de ser uma das fundadoras do feminismo comunitário, ela é nativa originária do Povo Aymara”, conta.

A convidada Julieta Paredes tem participado de eventos no Brasil, onde esteve por alguns meses atuando na comunidade Mbyá-Guarani, em São Paulo. Para ela, muitas mulheres de movimentos e em movimentos se identificam com sua luta, justamente pela origem étnica indígena que vai de encontro às diversas pautas que assemelham às pautas femininas indígenas do Brasil.

“No geral, somos assim como os Ayamara, os Quechua, os Guarani entre outras diversidades étnicas da América Latina, povos que foram colonizados pelos ditos europeus, e que convivemos ainda com muitas de suas heranças patriarcais, sobretudo, no que diz respeito às relações de gênero vividas entre os pares indígenas”, comenta.

Linda é do Povo Terena do Mato Grosso do Sul, mora em território indígena, é falante da língua de origem, e é doutora na ciência dos puxârara – não-indígena, onde está estudando as relações de gênero processadas desde os tempos pré-colombianos. Ela ressalta que é fundamental trazer novas abordagens, novos pensamentos a partir de uma realidade vivida enquanto povo indígena e sob a luz de uma nova epistemologia, sobretudo, a epistemologia nativa que faz diferença para as mulheres indígenas e para o movimento indígena.

Linda Terena/ Foto: Arquivo Pessoal

“As mulheres exerciam funções tão importantes quanto exerciam os homens, sem juízo de valor, onde havia um equilíbrio de poder, de voz, de participação política, sobretudo, uma relação mais igualitária e menos hierárquica.  Diante disso, o feminismo comunitário trás à luz de suas epistemologias, a esperança de nos recompormos, a esperança de um resgate do sequestro de nossa forma de viver, o sequestro da relação menos assimétrica de nossas vossé ìkene ou abuelas de perceber o mundo, o mundo melhor não somente para nós Povos Originários, mas para a humanidade planetária”, analisa.

Ela ressalta que a cosmologia nativa como trata o feminismo comunitário é indissociável ao Poké`e ou à Pachamama, em razão do cuidado com a natureza, por ela ser a mãe Terra. “É a Terra, a natureza que alimenta, que produz sobrevivência, que proporciona o ar para respirar e continuar a ter vida. Essas entre outras pautas vão ao encontro da forma de pensar e repensar a vida enquanto população indígena latinoamericana”, afirma.

Para ela, deve haver mais discussão a respeito do tema e a criação de estratégias de fortalecimento do movimento,  de tomada de consciência das mulheres indígenas sobre a importância de seus papeis dentro e fora de suas comunidades.

“Falar de mulheres indígenas engajadas na luta para reocupar seu lugar nos espaços tão importantes que nos foi retirado, não é falar de um movimento feminista indígena, é sim, de um movimento onde mulheres e não somente mulheres, mas com os homens também, buscam resgatar diversos espaços e direitos frente ao Estado brasileiro. São diversos movimentos constituídos nos últimos anos em que constituíram grandes mulheres indígenas como porta-voz de seu povo, não podemos jamais nos esquecer também daquelas que foram nossas pioneiras nas décadas de 1970 e 1980, a nível nacional, como a Maninha Xucurú”,  exemplifica.

Segundo Linda, é preciso também haver mais discussões sobre as relações que violentam corpos femininos no interior de suas comunidades, e de que forma tratar essas violações e violências, como resposta a essa nova composição do patriarcado nas culturas indígenas, levando em conta toda a especificidade e diversidade de povos.

“Por um longo período da história, em especial de nossa história indígena, as mulheres foram alocadas para um espaço considerado empobrecido, restrito, invisível onde sua voz se limitou. Quando falamos das indígenas é importante atentarmos de que mulher indígena estamos falando. Penso que, no geral, as mulheres das diversas etnias/povos vivenciaram esses espaços menos expressivos, fruto de nova relação introjetada a partir do contato com o colonizador”, esclarece.

De acordo com Linda, há povos como os amazônicos e também chaqueños, onde há a atuação feminina em espaços considerados mais visíveis e mais expressivos. Ela fala sobre o seu Povo Terena, dizendo que eles mantiveram e mantém uma das mais importantes atuações marcadas pela tradição, como a liderança espiritual. “Não são todos os povos em que há uma liderança espiritual feminina, como a composição no ‘xamanismo’, onde essa prática está mais expressiva e condicionada ao masculino.  Ser xamã é ser herdeira de uma das maiores responsabilidades dentro de uma tradição indígena é estar como o/a interlocutor/a do mundo físico para com o mundo sobrenatural, no trabalhar o equilíbrio desses dois mundos”, revela.

A presença e a atuação das mulheres indígenas nos processos de reocupação de territórios tradicionais, realizando os rituais como forma de receber o retorno às terras dos ancestrais é marcante nos dias atuais e legitima o cacicado feminino nos territórios. Outras formas de atuação das mulheres indígenas também foram se constituindo à medida que as circunstâncias foram sendo necessárias para uma nova adaptação. Um exemplo é a escolarização, formando mulheres atuantes em novos espaços.

“Compreendemos essa nova configuração feminina atuante nesse novo cenário dentro e fora do mundo aldeia como uma das retomadas dos espaços retirados das nossas mulheres. Digo retirados porque os colonos e, posteriormente, o Estado brasileiro, sempre tratou seus interesses com os homens, reforçando a subordinação feminina e hoje, o que presenciamos nesse cenário é de o Estado tratar agora não somente com os homens, mas com as mulheres também à medida que elas avançam e retomam seus lugares de atuação. Todo esse repertório nos traz a esperança de retomada de nossos lugares intra/extra território. E para concluir, deixo aqui um pensamento Xavante que retrata o ser e a essência feminina: a palavra da mulher é sagrada como a Terra”.

Proposta de Leitura: Descolonizar as lutas: a proposta do Feminismo Comunitário, de Julieta Paredes Carvajal.


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