Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé. Foto: Viviane Rocha/Artes de Pesca

Ilha Invisível: os desafios dos pescadores tradicionais da Costeira, em Florianópolis

Postado em 23/03/2021, 12:31

Escondida na urbe, Reserva Marinha do Pirajubaé guarda mangue e é subsistência para pescadores em Florianópolis

Hoje, 23 de março de 2021, Florianópolis completa 348 anos. Para celebrar o aniversário da capital catarinense que é constituída, majoritariamente, pela “Ilha da Magia”, um território de 54 km de comprimento cercado pelo Oceano Atlântico, o Portal Catarinas chama a atenção para uma população que representa a cultura de Florianópolis, mas que é frequentemente esquecida pelo poder público e, muitas vezes, pela própria população que mora na Capital: os pescadores tradicionais que tiram da água o seu sustento e tem na pesca a preservação de seus modos de vida.

Quantas vezes você já cruzou o túnel da Via Expressa (BR 282) indo para o Sul da Ilha de Florianópolis? Você sabia que, no meio dos concretos da cidade, ali, à sua direita, existe um cenário rico e belo? Se a resposta for não, saiba que você não é a única. Escondido próximo ao centro da Capital resiste um território berçário de vida invisível, a Reserva Extrativista Marinha (Resex) do Pirajubaé – uma Unidade de Conservação (UC) de uso sustentável que tem gestão compartilhada, isto é, através de um Conselho Deliberativo pescadores e extrativistas da Costeira têm o direito de decidir sobre o uso e a conservação do território junto com o Instituto Chico Mendes (ICMBio). 

Neri Manoel Martins, 65 anos, é um dos pescadores tradicionais da Ilha que tem na pesca artesanal a sua atividade econômica principal. Morador da Costeira do Pirajubaé desde os 7 meses, ele é um dos pescadores autorizados a trabalhar na Resex do Pirajubaé. Os segredos da pesca foram apreendidos ainda menino e passados pelo seu pai. 

“Com 7 anos meu pai me jogou dentro d’água. Nunca me esqueço. Saiu ele e a mãe. A mãe remando e ele tarrafeando. A família toda foi pescadora. Meus irmãos, meus sobrinhos. Tudo são pescadores. Agora que alguns já arrumaram outro servicinho, né. Aí só tem um sobrinho que é pescador. Eu, meu filho e, às vezes, meu irmão, que já é aposentado mas vai no mar também. Ele era pescador. Trabalhava na pesca”, rememora. 

Neri Manoel Martins, pescador tradicional. Foto: Viviane Rocha/Artes de Pesca

A comunidade de pescadores tradicionais da Costeira faz parte da Resex do Pirajubaé – a primeira Reserva Marinha do Brasil (uma das primeiras reservas extrativistas criadas fora da região amazônica e a única existente até o momento no sul do País). Criada em 1992, ela é fruto da luta dos pescadores que iniciaram uma mobilização para demarcação da Reserva Extrativista, uma forma de garantir a resistência da pesca artesanal e resguardar o território natural diante do avanço da urbanização. Sua criação é inspiração para luta de preservação dos territórios, dos saberes e fazeres das populações tradicionais de todo o país. 

“Tudo que eu tenho hoje é só daqui (referindo-se a Resex). Sustentei minha família toda trabalhando aqui na pesca. Se acabar, como fica? Hoje em dia não arranjo outro trabalho”, Neri  Manoel Martins, pescador tradicional.

Apesar de ser um marco para a história socioambiental do Brasil, a população tradicional de pescadores do território segue invisibilizada e vulnerabilizada com a ausência de políticas públicas, o que fragiliza  a sua existência e sua atividade tradicional. O próprio aterramento da região e a construção da Via Expressa, tal como é hoje, que data de 1995, resultou em um grande impacto para a população, como conta o Sr. Neri.

“Aqui nós tínhamos um criadouro de camarão que era coisa de louco. De outubro a março era uma fartura. Depois desse aterro que fizeram acabou muito. Acabou bastante com a pesca, tivemos que procurar outras coisas para complementar a renda, porque não tinha tanto camarão. Prejudicou muita gente. (…) Ficou muito ruim para nós. O pescador não tem valor”, lamenta. 

A Via Expressa Sul

Rodolfo Dote, 67 anos, é morador há 28 da Costeira do Pirajubaé, pescador tradicional e aposentado, ele é memória viva das transições que Florianópolis sofreu ao longo dos anos com o crescimento urbano descontrolado. “Nos fundos da minha casa era mangue, era mar. Veio a Expressa Sul e fez isso aí”, conta, referindo-se ao aterro de 1,2 milhão de metros que transformou a paisagem local e dificultou a pesca na região. “Para quem vivia da pesca foi um impacto grande inicialmente”, lembra.

Rodolfo Dote, pescador tradicional. Foto: Morgani Guzzo/Artes de Pesca

Realizada no final da década de 1990, a construção da rodovia causou grande impacto socioambiental na Resex do Pirajubaé. Para fazê-la, a orla da Costeira foi aterrada e os pescadores que tinham como quintal de suas casas e ranchos o mar tiveram seus modos de vida completamente alterados. Além disso, o espaço aterrado também era formado por baixios e croas utilizados pelos pescadores para pesca do camarão e pelos extrativistas para a “pega” do berbigão. 

O impacto da construção da Via Expressa Sul na vida dos pescadores tradicionais reflete uma situação de injustiça ambiental grave. Sobre eles, o ônus da expansão urbana impactando diretamente os recursos pesqueiros: o aterro resulta em afastamento de elementos culturais fundamentais de suas vidas, diminuiu a produção do camarão e também do berbigão – importante para o autoconsumo. 

“O mar é tudo. Eu me criei no mar, andava com o meu pai e eu não consigo ficar fora da Ilha”, Rodolfo Dote, pescador tradicional.

Inara Fonseca, coordenadora e pesquisadora do projeto “Artes de pesca: saberes e fazeres dos pescadores tradicionais da Costeira do Pirajubaé”, que visa resgatar e registrar as narrativas e modos de vida de pescadoras e pescadores da Resex, pontua que devido à degradação ambiental e a expansão urbana desenfreada em Florianópolis, os pescadores artesanais estão numa constante luta pela sobrevivência. 

“Os pescadores e pescadoras da Resex, como população tradicional, são símbolo da resistência, em contexto urbano, na proteção dos modos de vida, memórias e saberes da pesca artesanal, que asseguram o uso sustentável dos recursos naturais e a conservação do maior fragmento contínuo de manguezal aqui no sul do Brasil”, explica Fonseca.

O descaso com os pescadores segue ainda na atualidade. O número de ranchos de pesca é insuficiente e há falta de fiscalização de quem está se apropriando deles. Além disso, os quatro trapiches construídos na região não são reformados há anos – o que dificulta o cotidiano dos pescadores, visto que são fundamentais nos dias em que a maré está baixa.

Trapiche. Foto: Viviane Rocha/Artes de Pesca

De acordo com o Sr. Dote, para passar pelos trapiches “tem que ser malabarista. É coisa de circo”. Conforme conta, após ter sido feita a primeira dragagem (retirada de areia para tornar a região mais profunda), não houve manutenção. O lugar sofreu um processo de assoreamento, ou seja, acúmulo de lama fina na baía, e sem os trapiches, tornou-se impossível sair de barco quando a maré está baixa. 

“Hoje tu não consegue nem sair com o barco. Onde eles dragaram criou a lama fina por cima, que se tu sair do barco tu se afunda na lama, tu não consegue empurrar pra sair com o barco. Ou pode ser que tu tenha saído, mas se a maré baixar tu não consegue voltar, tem que esperar a maré subir pra poder chegar aqui, porque tu não pode saltar na lama que tu afunda. Eles pelo menos deveriam manter pra poder dar continuidade porque, na realidade, a população tradicional tá se acabando”, explica Dote. 

Flora Neves, comunicadora social, jornalista, guia de turismo e conselheira da Resex pelo Coletivo UC da Ilha, lembra que os pescadores também têm um peso cultural na constituição de Florianópolis. “Os pescadores da Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé são pescadores artesanais, fazem parte de uma comunidade tradicional, manter a cultura da pesca é manter a história da cidade, as nossas tradições”, afirma. 

Da mesma forma, a conselheira chama a atenção para a importância da preservação da Resex, que contempla o maior manguezal de Florianópolis, um berçário de vida marinha, onde a maior parte das espécies marinhas se reproduzem. “A Resex é vida! E dessa vida dependem muitas vidas de pescadores, pescadoras e suas famílias! São mais de 220 beneficiários hoje. Precisamos preservar essa riqueza”, defende.

Área de manguezal na Resex do Pirajubaé. Foto: Viviane Rocha/Artes de Pesca

Além de resguardar a maior área de mangue da Capital, a Resex do Pirajubaé também é rica em diversidade de fauna e flora. Nela, há presença do mangue preto, branco e vermelho. Nas áreas de transição com a restinga é banhada com juncos. Abriga grandes bandos de aves aquáticas, peixes, crustáceos e moluscos. 

Projeto resgata saberes de pescadores tradicionais da Costeira do Pirajubaé

É justamente nesse local invisibilizado que “Artes de pesca: saberes e fazeres dos pescadores tradicionais da Costeira do Pirajubaé” vai atuar visibilizando a cultura imaterial dos pescadores para que haja fortalecimento dos mestres detentores desses saberes e fazeres. O projeto foi selecionado pelo Prêmio Elisabete Anderle de Apoio à Cultura – Edição 2020 e executado com recursos do Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura.

“A pesca artesanal é a imagem da Ilha das antigas, antes do aterro, quando o manezinho vivia da pesca. Manezinho não era de trabalhar na roça, manezinho era da pesca”, Rodolfo Dote, pescador tradicional.

Morgani Guzzo, pesquisadora do projeto, explica que o trabalho pretende: 1) colaborar com a construção de uma memória coletiva da comunidade tradicional de pescadores da Resex, tanto para seus descendentes quanto para toda a população catarinense; 2) visibilizar os mestres detentores dos saberes da pesca artesanal; e valorizar e promover a diversidade cultural.

“Por meio da história oral, temos a possibilidade de registrar esses saberes e fazeres que estão se perdendo pelo avanço da urbanização e pelo desinteresse das novas gerações pela pesca artesanal. O conhecimento sobre o território, o mar, os ventos, os tipos de peixe da região foi passado de geração para geração. Mas, hoje, a maior parte dos pescadores tradicionais são idosos e é comum que seus filhos e filhas não mantenham a tradição dos pais e avós. Assim, acreditamos que esses saberes são fundamentais não só para a preservação da memória cultural de Florianópolis, mas também para a preservação ambiental da Ilha”, analisa Guzzo. 

Acompanhe o Projeto e conheça mais sobre os pescadores da Resex do Pirajubaé pelas redes sociais:

Blog: https://artesdepescaresex.wordpress.com/ 

Instagram: @artesdepesca.resex 

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