Reportagem da Agência Pública revelou denúncias contra Samuel e Saul Klein. Ilustração: Jorge Berlin/Agência Pública.

Feminismo nosso de cada dia (3) – “… e se fosse com minha irmã ou filha?”

Postado em 25/04/2021, 13:01

Domingo, vinte e cinco de abril de dois mil e vinte e um. A cada semana que passa mais enfurecem-me os desmandos neste país largado à moléstia. Está em curso o espectro do genocídio orquestrado pela psicopatia fascista de um governante descerebrado: em uma semana atingiremos 400 mil mortos e outro tanto de famílias enlutadas. É crime contra a humanidade, mas o que esperar desse conluio de dementes que defendem um projeto de destruição??? Vivemos a necropolítica negacionista e criminosa. Vergonha.  

Não bastassem tantas dores e perdas, tramita o projeto de decreto legislativo que amplia o acesso a armas e munições que, se aprovado, será mais uma das ações torturantes que escancaram as tragédias da violência neste país. Morrem sobremaneira pobres, negros, mulheres, indígenas e crianças. O mesmo governo que zera impostos de importação para armas quer taxas livros, uma sandice. Patricida dos infernos!

Todos os dias temos notícias de violências contra mulheres e meninas: estupros, feminicídios, violência doméstica, abusos e aliciamentos, tráfico para prostituição, dentre outras formas de aviltamento contra seus corpos. Não ignoro que homens e meninos também são vítimas de exploração e abusos sexuais. 

Acompanho o abominável caso dos proprietários das Casas Bahia, divulgado exaustivamente neste ano. Essas lojas são muito conhecidas – lembram que os Mamonas Assassinas as citaram na letra de uma canção? São episódios grotescos, infelizmente não raros, cometidos por empresários e por homens que têm dinheiro e o usam para aliciar e cometer violências sexuais. Temos referências históricas, como o caso do bilionário norte-americano amigo de Donald Trump, Jeffrey Epstein, que, ao longo de décadas, usou todo o seu poder econômico e social do mesmo modo que os proprietários das Casas Bahia, no Brasil. 

A história teve início nos anos 1950, quando Samuel Klein imigrou da Polônia para o Brasil. Passou a vender produtos diversos e, nas décadas seguintes, construiu um império com lojas em todo o país. Antes mesmo de morrer, em 2014, foi considerado herói, um self-made man do mundo corporativo, que recebeu honrarias em vida, sendo, inclusive, nome de rua.

Acontece que seu filho, Saul Klein, também foi denunciado por crimes sexuais. A partir destas denúncias, em 2020, o Ministério Público passou a investigar e revelou-se um enredo dos mais perversos para com as mulheres e meninas, promovido por pai e filho durante décadas. Histórias de abusos, estupros, violências, constrangimentos e coações sobre mulheres e vulneráveis – meninas de até 14 anos.  

Consta que Samuel e Saul Klein escondiam um cenário de aliciamentos de adolescentes e crianças, tanto em seus apartamentos de luxo quanto nos escritórios da empresa e nas casas de praia. Promoviam orgias e abusos oferecendo dinheiro, presentes, produtos da loja e outros bens às suas vítimas. A vasta documentação e os depoimentos revelando o esquema de exploração sexual de menores dão ânsia de vômito. Esses empresários são verdadeiros representantes do fetiche “sugar daddy” segundo o qual homens mais velhos têm preferência por mulheres bem mais jovens. 

O filho, Saul Klein, que seguiu o esquema do pai, é investigado por redes de aliciamento, prostituição e abusos sexuais de dezenas de mulheres. Mas sabe-se que o número de mulheres era bem maior, conforme reportagem da Uol Esportes, intitulada “O harém do príncipe”. Os Klein ofereciam acordos vantajosos antes de responder à citação judicial, na tentativa de evitar denúncias. Os processos eram, portanto, arquivados em troca do silêncio e da renúncia de ações legais futuras. “A patriarcalidade familiar encontra respaldo na patriarcalidade social que, ao longo de milênios, naturalizou comportamentos violentos, principalmente se cometidos por homens brancos, héteros e ricos”. Assim, se safavam dos crimes. 

Gabriela Souza, da Advocacia Para Mulheres, que faz a defesa das denunciantes, em reportagem à Agencia Pública, disse que Saul “tem prazer em violentar mulheres”, e que ele “é a personificação do patriarcado em tudo aquilo que há de mais nocivo às mulheres. Talvez o título adequado a Saul seja ‘o predador de todos os predadores’”. Vítimas revelam que foram silenciadas, ameaçadas, e têm sequelas psicológicas, dores, marcas, traumas, muita revolta e há registros, inclusive, de casos de suicídio. 

Tenho me perguntado o que leva homens a cometerem atrocidades como estas com meninas e mulheres – e também com meninos. Numa conversa com meu irmão, ele me disse: “Tem homens que abusam porque acham que têm que usar a força para se sentir macho, dominar. Um amigo, que não é mais meu amigo, me sugeriu uma menina que, disse, era virgem, para eu me iniciar nesse ‘desvirginamento’. Eu cortei a amizade, falei um monte… e se fosse com minha irmã ou filha? Fiquei puto”. Se meu irmão me contou esse fato é porque marcou sua memória da juventude. Poder, violência, opressão de homens sobre mulheres convivem nas estruturas patriarcais e aparecem nas malhas do cotidiano. 

Num país em que o presidente se vangloria que “Meu filho namorou metade do condomínio”, e que ele próprio fala que não estupraria uma mulher se fosse feia, o que dizer??? Num país onde um professor de Direito Penal – pasmem – durante uma aula online, diz aos alunos: “O que é mais fácil estuprar? Uma freira de hábito ou aquela menininha com a cinta larga? Fala para mim. Que vítima colabora mais com a prática do crime de estupro?”, o horizonte se mostra tenebroso.  

Nos modelos vigentes de educação referenciados por violências, em que são cobradas virilidade, competição e disputa, o choro e a exposição de seus problemas são vistos como fraqueza, as masculinidades são tóxicas. Se, por um lado, há homens que sofrem com esta educação, por outro, tornam-se autores de crimes que destroem vidas de mulheres e meninas. Estes homens precisam aprender conceitos de respeito e de que ser homem é ter hombridade pautada na ética, no reconhecimento das diferenças, na inclusão e na generosidade. Aposto na educação de gênero e nesses princípios como o único caminho para dirimir estas violências. 

Segundo o Anuário Brasileiro da Violência, somente no primeiro semestre de 2020, aconteceram 25.469 estupros no Brasil e, desse total, 17.287 foram estupros de vulneráveis. Estima-se que esses números representam apenas 10% dos casos. Imaginem a extensão trágica das situações de estupros que ocorrem cotidianamente. Eu sinto dor por elas. Sinto asco por eles, os violentadores.

A socióloga Graça Gadelha, especialista em direitos infantojuvenis, mostra que “Discursos morais, preconceitos, machismo e falta de acolhimento silenciam vítimas de violência sexual, que muitas vezes são culpabilizadas enquanto seus agressores seguem impunes”. Para ela, “A pobreza e a vulnerabilidade social são os principais fatores que levam crianças e adolescentes para esquemas de exploração sexual”. 

Não há perdão para estupradores, aliciadores, abusadores. A dor, o sentimento de culpa, as cicatrizes que sangram, o abandono, o silêncio e o medo acompanham as mulheres pelo resto da vida, vítimas que em geral têm seu futuro arruinado. O Brasil tem mecanismos legais para reprimir tais crimes, todavia não dá conta porque as violências de sexo e gênero são estruturais – não pensemos que este caso dos proprietários das Casas Bahia é isolado. Acontecem todos os dias, em diversas corporações empresariais, escolas, nos parlamentos, nos clubes esportivos e até nas igrejas. Sabemos que sim. E a pandemia só fez aumentar essas violências, o que é torturante. 

As mulheres que se encorajaram e denunciaram seus patrões exerceram a cidadania, o que não significa que, perante a justiça, tiveram ou terão suas dores e tormentos reparados. Nossa justiça é machista e, muitas vezes, tenta fazer com que pareçam normais os fatos na concepção de um mundo de varões que se protegem e se beneficiam. 

“A violência é uma constante na vida das mulheres no capitalismo”.
(Silvia Frederici)

Marlene de Fáveri, 25 de abril de 2021. Florianópolis. 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri