Sabrina Fernandes, socióloga, militante ecossocialista, feminista e vegana. Foto: Divulgação.

Entrevista Sabrina Fernandes: Não basta ser mulher, tem que ser feminista e anticapitalista

Postado em 27/10/2020, 10:43

2 de junho de 2013. Anúncio do aumento das tarifas de ônibus, metrô e trens em São Paulo e no Rio de Janeiro. Protestos pela redução tarifária. Criminalização pela mídia hegemônica. Polícia espanca manifestantes. Protestos ganham adesão nacional. Mídia hegemônica muda discurso e aparentemente apoia manifestantes. 19 de junho de 2013. Revogação do aumento das tarifas. Aumento da insatisfação popular contra a presidenta Dilma Rousseff (PT).

2014. Dilma reeleita. Direita não aceita. 2015. Dilma é presidenta. 02 de dezembro de 2015. Tem início o processo de impeachment. 31 de agosto de 2016. Golpe retira Dilma Rousseff (PT) do cargo. 2018. Bolsonaro vence as eleições. Vitória em massa de partidos de direita conservadores e liberais, na maioria dos estados brasileiros, com o apoio da mídia. 2019. Bolsonaro assume como presidente do Brasil. 2020. Pandemia. Eleições Municipais.

“Junho de 2013 não acabou. Assim Sabrina Fernandes, doutora em Sociologia, militante ecossocialista, feminista e vegana, inicia a fala que também analisa o cenário eleitoral de 2020. Para Sabrina, as Jornadas de Junho abriram um novo capítulo na história brasileira, uma espécie de ruptura com a lógica que vigorava entre a esquerda e a direita.

De junho de 2013 a outubro de 2020, o país polarizou-se. A morte da “velha política” foi decretada. A “nova política” deveria surgir, com inúmeros partidos e políticos já conhecidos no cenário se declarando o “novo”. De lá para cá, a relação da população com os três poderes se alterou. Frases como “meu partido é meu país”, “nem esquerda, nem direita”, “sou gestor e não político” se popularizaram. E ascensão do fascismo no Brasil voltou ao debate.

A despolitização que emergiu desse contexto foi estudada por Sabrina Fernandes e resultou no livro “Sintomas Mórbidos: A encruzilhada da esquerda brasileira”. Na obra, a socióloga explica que a despolitização pode se apresentar tanto na forma de pós-política, quanto ultrapolítica. Na pós-política, uma pretensa imparcialidade, neutralidade e o apelo à técnica são regras. O famoso “Desliguem o pensamento partidário e sejam mente aberta”. Na ultrapolítica, há uma militarização do pensamento político criada em cima de falsas polarizações. Um inimigo comum que todos devem odiar e combater, como o comunismo.

Para saber mais, leia entrevista publicada em 2019.

Na primeira reportagem da série sobre as eleições, o Portal Catarinas conversou com Sabrina Fernandes para compreender esse pensamento “nem de esquerda, nem de direita”. A ideia inicial era que a entrevista subsidiasse apenas a produção do conteúdo. Mas, no final, decidimos divulgar o material na íntegra.

Na entrevista, além de comentar sobre a pós-política e a ultrapolítica nessas eleições, Sabrina Fernandes fala um pouco sobre o sistema eleitoral brasileiro, a retomada da esquerda como única alternativa democrática e sobre o seu novo livro “Se quiser mudar o mundo” – que está sendo lançado neste mês.

Portal Catarinas: Existe uma dificuldade de entender o sistema eleitoral brasileiro, principalmente o proporcional em lista aberta, que elege o Poder Legislativo. Pode explicar para nós como funciona?
Sabrina Fernandes: No sistema proporcional, não basta ser bem votado, é necessário que o partido ou coligação também atinja um mínimo de votos. Dessa forma, temos o quociente eleitoral e o quociente partidário que serão calculados levando em conta votos válidos e cadeiras disponíveis. Por isso é um pouco confuso, já que os números dependem da eleição concreta em si. Nesse sistema, o mandato não é do candidato eleito individualmente, mas um mandato realmente do partido. Por conta disso, partidos têm o interesse em lançar e promover vários candidatos para que votos de vários segmentos sejam representados.

As eleições municipais de 2020 têm um alto índice de candidatos negros e de pessoas trans, o que aparentemente seria algo bom. Entretanto, temos visto pessoas negras, LGBTs, entre outras minorias, em partidos de direita. Como analisa isso?
Isso faz parte das contradições de politização na nossa sociedade hoje. Há um aceite do capitalismo e muitas pessoas acham que para vencerem a opressão de seus grupos é preciso se integrar mais ao capitalismo do que combatê-lo. É um problema de consciência de classe, principalmente quando envolve candidaturas que vêm da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, partidos de direita têm interesse nisso porque ficam com a aparência de mais inclusivos. Mas é isso, questão de aparência. Por isso eu defendo, por exemplo, que não basta ser candidata mulher. Tem que ser também feminista e anticapitalista.

“Não vota no candidato x, você vai perder seu voto porque ele não vai ganhar”. Essa é uma frase muito propagada. Com explicar para as eleitoras que essa fala é equivocada, principalmente se pensarmos na questão do quociente eleitoral?
Essa é a lógica do voto útil, em que seu voto não é para quem representa a política que você quer ver, mas sim sobre não desperdiçar o voto. No caso da proporcional, mesmo um voto no seu candidato a vereador que tem menos chances ainda contribui para a eleição de um candidato do mesmo partido – o que ressalta a importância de avaliar bem o partido e a política de seus candidatos, se são compatíveis. Ao mesmo tempo, se mais pessoas votarem por identificação política, é possível que candidatos menores cresçam e até mesmo sejam eleitos. O processo eleitoral também é um processo de investimento. Fale do seu candidato, converse com indecisos. Isso pode fazer toda a diferença.

No Brasil, há uma tendência à personificação. Vota-se em pessoas e não em partidos ou projetos políticos. Quais as consequências disso?
Isso é um reflexo também da pluralidade de partidos e minoria de partidos considerados “ideológicos”, ou seja, que possuem projeto político concreto. Se a maioria dos candidatos pertencem a partidos muito flexíveis quanto ao horizonte político, elas acabam representando mais a si mesmos que o coletivo. É um problema, já que cria uma lógica de heróis e vilões e distancia as pessoas da grande política, para além das eleições, do envolvido com o partido no cotidiano. Faz com que pessoas achem que participar da política é algo de candidato, e não de um projeto político coletivo que pode envolver muito mais gente.

Há uma ideia vigente de que a esquerda e a direita são iguais. O que tem enfraquecido não só os partidos políticos, como também as próprias eleições (como as campanhas nas redes na última eleição presidencial chamando ao voto nulo). A quem favorece esse tipo de pensamento amplamente propagado?
Quem mais ganha com a equalização da esquerda e da direita é quem quer se aproveitar dessa frustração para eleger mais do mesmo, só que sob um manto supostamente “não-ideológico”. São pessoas que se dizem contra o sistema, mas não qualificam o que isso representa. Falam de “novo” e administrar o Estado com responsabilidade, mas isso geralmente significa mais cortes de verbas, privatização, vantagens para grandes empresas e a manutenção da ordem atual. A solução para as frustrações com a esquerda é se posicionar e exigir uma esquerda mais forte, que não se renda ao status quo.

No seu primeiro livro, você trata da despolitização e apresenta a ideia de pós-política e ultrapolítica. Nesta eleição de 2020, estamos enfrentando novamente essas formas de despolitização?
Certamente. A pós-política se manifesta com força nos discursos de “nem esquerda, nem direita” e de empreendedorismo na política. Candidatos tentam se diferenciar falando que rejeitam a política, sendo que política faz parte de tudo isso. Já a ultrapolítica se mantém presente na demonização do outro como forma de demarcar. Em vez de discutirmos as diferenças de projeto político, trata-se de apontar o Inimigo, como um monstro excepcional, que precisa ser derrotado. E isso esconde qual o real problema do tal inimigo: a política que ele representa.

Ao que as eleitoras interessadas em contribuir para a superação das opressões (sejam de gênero, raça, classe ou outras) devem estar atentas na hora de votarem?
É importante verificar o programa defendido por cada candidatura. Não é suficiente simplesmente ir com a cara da pessoa ou votar em alguém só porque diz trazer representatividade. O que essa representatividade traz além da própria pessoa também é importante. Precisamos de representantes atentos para o combate ao encarceramento, para a valorização da educação pública, para a saúde da família, para cultura e lazer popular, para suporte para mulheres em situação de violência, para iniciativas de alimentação saudável e demais políticas públicas que contemplam quem trabalha para sobreviver.

Temos hoje a extrema-direita no poder. É preciso retomar a ideia de que a esquerda é a única alternativa hoje para sairmos do cenário antidemocrático instaurado no Brasil nos últimos anos?
É muito necessário que a esquerda seja vista novamente com a representante das liberdades democráticas e da participação popular. Há entraves no caminho, já que o discurso anti-esquerda é forte, lidamos com fake news, e a própria fragmentação da esquerda. Neste momento, há uma disputa entre a esquerda radical e o centro progressista pela posição de alternativa ao Bolsonaro. Por isso, é preciso falar não somente de democracia, mas que tipo de democracia: com retirada de direitos previdenciários? Com teto dos gastos? Ou com investimento real no setor público para contemplar a maioria?

Finalmente, você está neste momento lançando um livro novo, “Se quiser mudar o mundo”. Depois do amarelinho, “Sintomas Mórbidos: A encruzilhada da esquerda brasileira”, o roxinho. Sobre o que trata a obra?
O novo livro, Se quiser mudar o mundo, é o tipo de livro ao qual eu gostaria de ter tido acesso quando comecei a me interessar por política. O objetivo é auxiliar quem está incomodado com a situação atual do mundo e entende a necessidade de uma transformação radical, mas ainda tem dúvidas sobre como essa transformação deve acontecer. Trata-se de um guia introdutório sobre política, mas que não entrega respostas prontas. É sobre construirmos o trajeto conjuntamente. Espero que seja útil na tarefa de formação política.

*Sabrina Fernandes é bacharel em economia, mestra em economia política e doutora em Sociologia. Seu doutorado, com especialização em Economia Política, foi feito na Carleton University, no Canadá. Além de estudar e viver o contexto da esquerda brasileira há mais de uma década, é especialista em teoria marxista, estudos feministas e sociologia ambiental. Sabrina é militante ecossocialista, feminista, vegana e também luta em solidariedade à causa da Palestina. Atualmente, é pós-doutoranda pela Rosa Luxemburg Stiftung (Alemanha) em colaboração com o Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de Brasília e produz o canal de divulgação científica e política, Tese Onze. É autora dos livros Sintomas Mórbidos: a encruzilhada da esquerda brasileira (Editora Autonomia Literária, 2019) e Se quiser mudar o mundo: um guia político para quem se importa (Editora Planeta, 2020).

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