Na última terça-feira (28), o governador Cláudio Castro comandou mais um massacre no Rio de Janeiro, uma chacina promovida pelo próprio Estado. Foi a terceira desde sua entrada no governo e a maior da história recente do Brasil, superando os números oficiais da chacina do Carandiru (111), em São Paulo. Foram cerca de 130 mortos, muitos com claros sinais de execução e tortura, nos Complexos do Alemão e da Penha. Castro tenta vender como justificativa o discurso de “combate ao crime organizado”, o que é, na verdade, extermínio institucionalizado.

O que move um governador que não tem nenhum projeto relevante em qualquer outra área, que abandonou o Estado do Rio às traças, a promover consequentes chacinas nas favelas cariocas? A resposta é simples: marketing eleitoral com sangue de preto, pobre e favelado.

De olho em sua candidatura ao Senado, Cláudio Castro escolheu fazer campanha sobre cadáveres, aterrorizando e destruindo centenas de vidas, tentando enganar a opinião pública com uma encenação de força que só revela sua covardia.

Com a ascensão do bolsonarismo, a política da morte tornou-se  estratégia de governo. O sensacionalismo da violência passou a ser usado como marketing político, especialmente entre o eleitorado masculino que confunde autoridade com brutalidade. Desde então, um governador posar com fuzil na mão e uma criança no colo virou símbolo de poder, e não de barbárie. “Mirar na cabecinha”, como disse Wilson Witzel, ex-governador e antecessor de Castro, foi o aviso do que viria: o Estado assumindo o papel de assassino.

Ironicamente, Cláudio Castro, que foi vice de Witzel e só parou no Governo do Estado porque seu companheiro de chapa foi preso por corrupção, tem um lastro de bandidos de estimação. É o caso do ex-deputado TH Jóias, com quem Castro tem diversas fotos abraçado, e que está preso desde setembro por negociar armas com o Comando Vermelho. Vejam só que ironia do destino! Eis a verdadeira aliança do governador: não com o povo, mas com o crime que ele finge combater.

Mas como uma política que não desarticula facções, não reduz a violência e não melhora a vida da população pode ser tão popular? Porque a guerra às drogas é o espetáculo que alimenta o racismo estrutural e a cultura do medo. 

Que tipo de sociedade está respaldando massacres como esse, mesmo sabendo que o Rio de Janeiro não está mais seguro? Muito pelo contrário, a retaliação imediata do Comando Vermelho causou terror em diversos bairros, mostrando a força e o poderio do crime. Enquanto o governador finge atacar o crime, a elite aplaude da varanda, e o povo negro e favelado segue morrendo. O Rio não está mais seguro, está mais militarizado, mais traumatizado e mais injusto.

Horas depois do massacre, a mídia reproduziu o discurso oficial, divulgando os números de mortos e afirmando que eram todos bandidos, além de quatro policiais. Nenhum corpo identificado, nenhuma investigação concluída, apenas a sentença coletiva de quem nasceu na favela. Não só a emissora reconhecidamente sensacionalista Rede Record, mas também o Grupo Globo se apressaram em repetir a versão do governo, sem questionar a origem dos dados ou ouvir familiares das vítimas. Se, por um lado, falta muito letramento de favela para entender o que significa esse tipo de condenação, por outro, sobra cumplicidade com a barbárie.

O motivo real nunca foi o combate ao crime. A operação, que o governador tenta chamar de “sucesso”, é um fracasso sob qualquer critério sério. Dos mais de 100 mandados de prisão, menos de 20% foram cumpridos, nenhuma liderança relevante do Comando Vermelho foi presa, e a operação mais letal da história do Rio matou uma série de pessoas que poderiam ajudar nas investigações. O saldo: centenas de mortos, investigações prejudicadas e uma favela em luto. É a política da chacina disfarçada de ação de segurança.

O valor do que foi apreendido é irrisório diante de operações que realmente atingem o poder econômico do crime, como a Operação Carbono Oculto, que atacou as fintechs do PCC e causou um rombo na organização criminosa. Quem realmente está preocupado em desmantelar o crime ataca seus braços financeiros, tem propostas concretas para combater desvios de armas e munições e para aumentar o controle sobre os CACs.

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Crédito: Lafa.

A verdade mais dolorida dentro de todo esse terror é que o Estado se apoia em uma sociedade profundamente racista, que acredita que o favelado deve provar sua inocência até depois de morto. Uma sociedade que, mesmo diante da barbárie, aplaude o sangue que corre se o corpo for preto. É o sadismo de uma elite que se diz cristã, mas celebra o extermínio como se fosse justiça divina.

Esse racismo estrutural é a base do Brasil e o combustível de governadores como Cláudio Castro. Enquanto o país se recusar a encarar suas chagas, os corpos das favelas continuarão sendo o altar onde se faz política.

Não é sobre o crime, nunca foi. Não é sobre drogas, é sobre controle, sobre silenciamento e sobre o desejo de extermínio. 

Na manifestação do último dia 31 de outubro, quando o povo indignado foi para as ruas clamar por justiça, as vozes revoltadas, com o choro entalado na garganta, gritavam: “A caneta de Cláudio Castro mata mais do que fuzil”. E quem aplaude esse tipo de governo precisa saber que um Estado que normaliza o assassinato de seus cidadãos está em guerra contra a própria democracia.

Tira de quadrinhos em preto e branco com duas crianças conversando. No primeiro quadro, o menino diz: “Se matarmos todos os bandidos, ficariam só os bons, né?”. No segundo, a menina responde: “Não! Ficariam só os assassinos!”.
Crédito: reprodução.

Paz em todas as favelas. Justiça por todas as vidas interrompidas. E que a barbárie de Cláudio Castro não seja esquecida — nem perdoada.

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