A colunista escreve sobre as saudades da filha, da casa, da rotina, em tempos de confinamento. Foto: arquivo pessoal.

Crônica da incontingência da clausura (3) – ou, das saudades e dos medos

Postado em 03/04/2020, 17:32

Terça-feira, 31 de março de dois mil e vinte.  Minha mãe abre a janela que dá para a área externa da casa, e me encontra absorta instalada numa espreguiçadeira – daquelas antigas que catei dia desses entre os entulhos do paiol onde ela guarda de tudo; limpei, acertei os desvarios do uso até o descarte, e ficou perfeita – e, me diz: “Marlene, tu ainda está aí? Vai dormir que é tarde. Vai pegar um resfriado aí”. Me apercebi das horas: zero e vinte. Disse-lhe que ia me recolher logo; que sempre escrevi e escrevo à noite. Eu a conduzo de volta para seu quarto, asseguro seu conforto na cama, cuido até que durma. Volto para a cadeira e me dou conta que é a primeira vez que escrevo deste lugar, tendo à frente um jardim de árvores robustas, de um verde que clareia as ideias e os olhos. Enfim, a sós com uma caneta deslizando num papel em branco – sempre escrevo à tinta para não perder frases que sempre voam; e só assim as alcanço.

Ouço um alerta de mensagem, e é uma amiga me contando que conhecera um homem por esses dias, e se apaixonaram; isso em tempos de pandemia, que sorte a dela! Abro sua imagem; me pego olhando com vontade de abraçá-la; lembro de outras pessoas e me ponho a olhar seus rostos, e desejo de apertar numa braçada, rir junto… Então, às zero e quarenta, minha filha me escreve assim: “Oi mami. Li sua crônica (a de n. 2, neste Portal Catarinas) e é linda! Chorei, de verdade. Comentei também.” Meus olhos orvalham, e abraço-me como se fosse seu cheiro me enroscando. Observo a nova tatuagem, uma flor no ombro, e o sorriso de pessoa independente e dona de suas escolhas; me enterneço. Me vem uma pontada debaixo dos seios, uma dor miúda e grande que não defino, mas eu sei que é saudade, essa palavra que só tem na língua portuguesa, ou intraduzível em outros idiomas. Olhei seu comentário na publicação do Catarinas, e dizia assim: “Juntei os sentidos e senti o cheiro das folhagens verdes e saudáveis que vejo nas fotos. Chorei sorrisos por vê-las bem e toquei saudades concretas em minha frente. Te amo, mãe! Obrigada por mais um primor. Saudades da nossa família, mas logo estaremos todos bem.” É isso,  preciso escrever sobre a saudade… Então, respondo (as vantagens do whatsapp) que se cuide bem, que se proteja, que fique isolada – sentidos tanto expressos nesses tempos, requeridos, doloridos, necessários – e reafirmo, como sempre o faço, que a amo, Tashi!

Da saudade, escreveram poetas, cantaram em versos, e cada qual a define de um jeito; ou não define, mas sente – “Saudade é um sentimento que, quando não cabe no coração, escorre pelos olhos”, disse Bob Marley. Fico com esta definição, a transbordar.

Me revolve a memória, e faz pouco tempo que tocamo-nos de pertinho; temos nos visto pela telinha digital em conversas de mãe e filha quase diariamente. Falamos sobre seus sentidos na dura experiência de estar com o pai em estado de cuidados paliativos; pergunto do namorado, e de como estão se cuidado e se virando no cotidiano do isolamento social; do trabalho em casa; do gato, assim – ela, no Bairro Portão, em Curitiba; eu, do bairro Vila Manenti, em Turvo. Conhecemos nossos cantinhos e imaginamo-nos ali, nos falando. Conto-lhe dos dias e noites aqui, no sul profundo, com sua avó; dos cuidados com ela e comigo; da família, de mim.

Hoje lamentamos de que viríamos juntas para junto da vó Therezinha no feriado de páscoa, e seu namorado viria pela primeira vez; das muitas coisas que faríamos juntas e não será mais possível, já que os abraços estão impedidos, viajar é arriscado, e precisamos nos proteger e cuidar de sua avó. Suspiramos, desoladas. Será a primeira vez em minha vida sem a família reunida por ocasião do feriado de páscoa. Me lembro que quando você sumia pelo mundo trabalhando numa ONG (a AIESEC) e a mais de dez mil quilômetros de mim, nos víamos duas e, quando muito, três vezes ao ano; eu tinha muita saudade, mas não a sentia como agora. É uma saudade diferente, misturada com preocupação, com receio do invisível, porém, real; absoluto, em números que se avolumam. É uma saudade que dá medo; uma saudade com medo; uma saudade como cuidado.

Foto: arquivo pessoal.

Sentir medo não é necessariamente algo ruim; mas este nos pega desprevenidos, desprevenidas; é de precaver-se da dor, da doença, da morte possível. Vem, nas mais triviais situações cotidianas, agregando afetos, silêncios, espantos, vida e morte; ódio e poder. Marilena Chauí refletiu sobre os medos dos homens: temem a traição, a tortura, a perda, o inferno, a desonra, a fome, a dor, o escuro, o outro; sobretudo, o maior medo dos homens, que é o medo da morte. Então eu sinto medo de ter saudade do que não quero que aconteça; do que ainda não aconteceu. Sinto, logo existo, buscando uma paráfrase conhecida. E, mesmo havendo quem queira que feministas socialistas não existam mais, eu continuo existindo; nós existimos; minha filha existe, e tenho saudades agora…

As mulheres foram educadas para o cuidado dos outros, das outras; uma educação de gênero que a elas prescreveu que fossem dóceis, resignadas, dedicadas para servir. Perceba, nas suas relações, quem são as pessoas da família que estão acompanhando dos idosos e idosas: na grande maioria são as mulheres que assumem a responsabilidade do cuidado, assim como a de proteger as crianças, as pessoas doentes.

Assistimos o número crescente de óbitos pelo mundo infestado; e nos estarrecemos com a quantidade de médicos, médicas e profissionais de enfermagem que, na linha de frente, se contaminam. Lembro que a enfermagem está ligada a história das mulheres, da produção de sujeitos dóceis e cuidadores; porém, antes de serem enfermeiras, são mães, mulheres, em constante risco do contágio. Então, são as mulheres que mais enfrentam o adverso cotidiano do medo; que mais estão expostas ao contágio e a solidão, a melancolia, a saudades, ao estresse mental e psicológico. Infelizmente, também sofrem mais com a violência doméstica por esses dias e semanas de quarentena.

As mulheres temem e receiam – os corpos dos recém nascidos e dos mortos pertencem às mulheres, observou Georges Duby, num estudo sobre a produção dos sentidos lá pelo século XII; são elas que parem, agasalham, cuidam; elas sofrem muito quando perdem um filho, uma filha. E a elas foi dito que cuidassem de seus mortos, os vestissem, embrulhassem, assegurassem os rituais de despedida, velassem por suas memórias. Nestes últimos meses, e outros que ainda virão, para milhares de pessoas, velar e despedir-se de um dos seus, só com a sorte deste ter-se ido por uma fatalidade, um acidente…

Ouvi ontem, numa fala sobre o vírus corona, que “quando os coveiros começarem a morrer, você sabe que está perto do caos absoluto”. Esperemos que não aconteça, minha filha. Hoje, o medo da morte não é só o de morrer – há quem não creia finitude; é um medo que carrega silêncios, margens, saudades de corpos; porém, mais saudades pela não despedida – milhares de pessoas idosas e muitas de outras idades somem, embrulhadas e levadas para um não lugar, um limbo, uma câmara de gás crematório. Um adeus sem adeus.

A saudade tem vários sentidos, mas, para nós que tememos o contágio do vírus medonho – por que há quem não o tema, e prefira seguir o despótico presidente nas suas absurdas declarações de desinteligência, arrogância e burrice –, vem em significados largos. Como é cruel ter sua mãe num asilo e não poder visitá-la; como é dolorida a pontada no peito das mães apartadas dos filhos por semanas de quarentena; como é comovente não abraçar os seus sabendo-os na solidão de um espaço vazio de rumores e vozes; como é triste saber de um amigo, amiga, parente que segue internado aguardando um diagnóstico inclemente; como é angustiante estar longe de casa e não poder voltar; como é doído deixar o alimento à porta da casa da avó que deseja uma carícia; como é desolador reprimir-se dos abraços de amigos, amigas, da boa conversa, daquele jantar… de um encontro amoroso.

Sinto falta das coisas mais triviais, dos afagos soltos compartilhados em família. Meu irmão costuma me enlaçar e inventar passos de dança sempre que nos encontramos; se não tiver música, ele mesmo canta (além de entender tudo de elétrica de carros, toca guitarra e canta em bailes, no conjunto musical Canto do Sul), e agora nos afastamos, prudentes e ressabiados…

Tenho saudades que do que ainda não fiz – guardo há algum tempo caixinhas dessas de remédios e outras para ensinar minha sobrinha edificar casas, recortar e construir móveis, brincadeira que eu amava quando menina: na casa da nona guardava-se no sótão uma cesto de vime repleto dessas caixas, folguedo absoluto na minha memória! Já temos caixinhas suficientes para iniciar as obras, Laura; logo teremos liberdade e seremos engenheiras, te prometo!

Hoje faz três semanas que saí de casa, e treze dias de clausura. Percebo que o ato de conversar sem a presença física (as tecnologias dão esse benefício) está ficando mais necessário, diria que mais afetivo e urgente. Todas as conversas têm o prazer do encontro, e o inominável receio do que está por vir; se antes marcávamos festas, cinema, encontros, milongas, agora falamos de medo, da doença, dos cuidados com familiares, de nossas clausuras e das estratégias de conviver com a solidão em nossos restritos espaços, e da falta que fazem os abraços. Somos seres gregários, e estamos nos sentindo desabrigados do calor que nos entorna, mas não se achega; sentimos saudades de nós, juntos, juntas.

Desse juntar-se, já sinto saudades – dos eventos que vinham sendo planejados, como o Seminário Internacional Fazendo Gênero que seria em julho, e foi adiado por um ano; o Mundo de Mulheres em Moçambique, tão necessário nesses tempos de perseguição e queima de direitos, adiado – para citar alguns. Reencontraríamos pessoas engajadas nas pautas feministas, da cidadania e democracia; produziríamos e compartilharíamos conhecimentos, abraçaríamos nossas amigas e parceiras de trabalho; colocaríamos em dia a saudade, e frutificaríamos para outras tantas. Dos prazeres da alma e da carne, como os encontros Milonga na Praça, cancelados; o evento Tangos&Vinhos&Poesias, sabe-se lá quando será… Dançaríamos de rosto colado, em passos cadenciados e calesitas – ah, quantos infortúnios esse vírus invisível trará, de quantos prazeres nos tolherá, que outras memórias produzirá…

Nestas semanas, como disse na crônica anterior, estou com minha mãe, e o que me era habitual, não é mais. Acordo bem mais cedo que de costume, e numa casa que, se é também minha, não é a minha casa. Sinto falta de meus livros, dos cadernos de poesia, de minha cozinha, e minhas plantinhas por certo murcharam sem água. Uma saudade das amigas tantas e tão amadas, dos amigos, de dançar tangos, da companhia da Liziane, Angelita, Regina, Urda, Onice…

Quando puder voltar, vou cheirar muito minha casa, folhear meus livros como se fosse a primeira vez; caminhar pelo parque linear; visitar amigas e amigos; voltar a nadar; ir ao cinema, à feira, andar pelo mercado público… Saudades tenho de braços nas minhas costas, do prelúdio do que vem depois e da potência revolucionária dos orgasmos, do prazer e entrega absoluta. Eu volto, Orfeu! Vai passar. Tudo passa.

Que medo é esse que nos isola e nos cerceia dos abraços? Nossas mãos querem tocar, acariciar; nossos corpos querem liberdade; e não esse sentimento melancólico da ausência, da solidão, da saudade. Não somos feitos para as incertezas do devir; e temos que nos reinventar nos afetos, nas buscas, na força da solidariedade. E, se “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará”, Lulu Santos nos ensina que retornar ao que era a realidade, ou que achávamos ser a normalidade, é uma incógnita; ainda um labirinto.

Então, se nos vemos na incontingência (ainda explicarei porque uso este conceito) da solidão e dos não abraços, temos que atenuar os medos e provocar a esperança, minha filha. De tudo tenho saudades, de tudo sinto vontade, mais vontade é de abraçar minha filha, longa e demoradamente, meu mais perfeito poema que, num dia quente de janeiro, é já se vão duas décadas, berrou ao mundo seu grito de liberdade; mulher, como eu.

“Saudade de não ter medo”, resumiu a amiga Rejane, no mais perfeito sentido do que estamos vivendo por esse mês de março. Ah, a saudade, que é amarga, ou doce, ou que desmonta; a de ontem, de hoje, a que virá a mover os sentidos humanos. Vem das memórias, das marcas – o que seria do mundo das relações sem a memória? Haverá poesia depois dessa pandemia? Sim, minha filha, haverá; sobrará calor humano porque, se não aprendermos com a penúria e as adversidades, não merecemos este mundo.

Os afetos continuam a fazer diferença. Traduzir as angústias e temores em narrativas é também uma forma de dar esperanças; é procurarmos meios de estar juntos, juntas. Se cuidar bem agora é ficar longe, para depois da tortura ficarmos mais perto; prometo que irei ver você mais vezes; a ouvirei mais; falarei mais de meus poemas, dos livros que li, filmes que vi, e farei polenta e minestra mais vezes. Cuide-se bem, minha filha!

Marlene de Fáveri, Turvo, SC. 31 março de 2020.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri