A historiadora Marlene de Fáveri reflete sobre as vivências e sentimentos suscitados durante o isolamento social/Foto: arquivo pessoal

Crônica da incontingência da clausura (11) – das saudades e solidões

Postado em 24/05/2020, 10:50

Domingo, vinte e quatro de maio de dois mil e vinte.  Esta última semana custou para passar; mesmo assim parece que domingo passado foi ontem. A pandemia está fazendo estragos na esfera do cotidiano e na orientação do calendário e do horizonte: o que era previsível, virou do avesso, como se o movimento de rotação do planeta terra tivesse sofrido um avario, desconcertando a bússola e as certezas. Enquanto o país tupiniquim balança resvalando do andaime até chafurdar no lodo da incompetência e mediocridade de políticos nauseabundos, mais de vinte mil almas são descartadas para o lixo das estatísticas… quais histórias se contará doravante?

Na clausura, com minha mãe, vou arranjando estratégias para que ela tenha confortos. Nas manhãs, a convido para irmos nos arredores da casa capinar e limpar os mil tons de verde que ela plantou quando ainda tinha forças. Nesta semana, nos enveredamos pelo outro lado da casa, e ajeitei um monte de pedras de rio, as quais tecem minhas memórias de infância: na Vila Maria, interior de Nova Veneza, lá no fundão da vila onde nasci e morei até meus quase dez anos, havia pastagens e pedras em abundância, e as amo de paixão!

Durante a semana fez sol, chuva, vento, calor, frio, trovoada e mais folhas juntaram-se às já deitadas atapetando o chão. Uma chuvarada forte com ventania arqueou os pés de tomate que plantei faz dois meses; tive que endireitá-los e amarrar o caule com barbante numa haste de madeira para dar sustentação. Ficou bonito! Não fossem os mosquitos neuróticos por sangue eu ficaria na rua até tarde, mas tem uma hora, lá pelo final do dia, que eles entram no cio e fazem voos rasantes para meus braços, pernas, rosto e me vencem. Ainda vou fazer uma crônica sobre a saga de matar mosquitos e butucas.

Foto: arquivo pessoal

Tenho vivido de saudades, com todas as definições possíveis do sentir. Contei para a amiga Angelita das solidões que me infiltram na pele e ela me respondeu assim: “Está difícil mesmo, amiga. Me sinto privilegiada pela primeira vez em muitos anos, mas sei que muitos de meus amados estão sentindo a solidão cada vez mais forte em seus sentimentos. Depois de aprender a viver em sociedade, no amor, estamos aprendendo à força o ato contínuo de estar sós. Estamos juntas!” Ah, as amigas, sábias mulheres. É mesmo assustador o que estamos passando, é injusto para com nossas escolhas e nosso sexo, nossas vindas, idas, encontros. Bem agora que podemos fazer escolhas advindas das lutas que o Feminismo abrigou e nos oportunizou o exercício da liberdade. Dia desses era madrugada, quando me encolhia das ausências de afetos, desenhei em letras corridas um poema. Intitulei Saudade:

Palavra tão cotidiana, de espera, de dor,
De vontades – era só saudade.
Agora, grudou no medo.
Passam as águas, passam luas cheias
E você não vem; tampouco eu vou.
Cachoeira suspensa, nem à terra, nem
Ao mar – sou só saudades.
Um gosto e sal e útero ardente.

Revirada de vontades, pensei em minha filha. Tínhamos nos visto pouco antes pela telinha e procuramos estratégias possíveis que nos levasse uma à outra; não as encontramos. Choramos de longe e juntas nessa cachoeira suspensa – ah, como eu queria secar suas lágrimas com os dedos das mãos, com beijos… A saudade grudou num medo medonho e, se decidimos continuarmos longe uma da outra, é porque tememos a morte, a nossa, a de quem temos afeto. Prometemos nos cuidar muito e não dar espaço para que o oleoso invisível nojento se aloje em nossos corpos. Contamos uma à outra de como passamos os dias e, mesmo que pareçam iguais, sempre aparecem novidades.

Dentre as coisas miúdas e as mais densas, contei-lhe uma história que me comoveu. Já falei em uma crônica anterior sobre uma galinha fujona que bicou meus tenros pés de alface. Pois bem. Minha mãe cortou-lhes as pontas das asas, supondo que tivesse voado sobre o cercado do quintal. Só que a peguei dia seguinte se deliciando na horta. Ah, bandida! Então minha mãe agarrou a penosa: “Vou prender ela na caponera e matar daqui uns dez dias”, explicando que, assim, presa, seria bem alimentada e não comeria porcarias, ficaria limpa e boa para comer. Argumentei que não precisa matar a galinha, que podemos comprar carne pronta nos mercados, que podemos vender. Não tive argumento, e a penosa foi mesmo para a prisão e teve pena de morte decretada pelo delito de comer as plantinhas. Foi bem alimentada com milho, verdes, água. Até engordou.

Observei, com o passar dos dias, que suas penas brancas eriçavam enquanto andava em círculos e cacarejava, raivosa. Passaram os dez dias e nada de minha mãe falar da galinha. Apiedei-me da prisioneira e disse: “mãe, ou matamos a galinha, ou vou tirá-la dali e soltar lá no cemitério” – foi o que me veio, na hora, por ser um lugar tranquilo. Nenhuma providência. Dias depois, acordei bem cedo para um compromisso e ouvi o lamento da detida. Dei o veredicto: “mãe, vou sair e levar a galinha para o cemitério”. De um salto, ela e Rita se apressaram em acender o fogão à lenha e providenciar a fervura de um panelão de água. Quando voltei estavam as duas agarradas na ex-fujona a depená-la depois de morta e banhada em água fervente. Retalharam o corpo galináceo. “Separamos e dá para três almoços”, disse a mãe, levando três montinhos embalados para o freezer.

Esse evento me levou à infância e adolescência, quando matava galinhas com um cabo de vassoura: segurava-as pelas pernas, colocava o cabo entre a cabeça e o corpo, e puxava até romper o pescoço, da maneira que minha mãe fazia.

Também me faz admirar ainda mais a minha mãe camponesa: desde que se casou com meu pai obrigou-se a enfrentar e domar o cotidiano para dar conta de alimentar os seis filhos; era atribuição prescrita que aprendia desde menina.

Minha mãe sempre criou galinhas com as quais obtinha os ovos, a carne e as penas – com essas últimas fazia travesseiros e cobertores. Lembro de tempos de economia da escassez: sempre tínhamos essas proteínas, mais o leite que colhia na ordenha nas manhãs ainda sem a luz do sol; as verduras; o milho; as batatas; enfim, quase todo o alimento que nos proporcionou viver e estarmos aqui.

Não, isso não é trágico; são as práticas da sobrevivência apreendidas desde muito cedo: “Antes de me casar, era minha mãe que criava, colocava em choco os ovos, matava para comer e eu aprendi olhando e ajudando ela”, disse-me. De mãe para filha, eu também aprendi assim. Minha filha é vegana, e tenho certeza que ao ler, vai me ligar e dizer: “mãe, tu fazias isso? Não acredito!” Acredite, minha filha.

As mulheres camponesas tomam para si a esfera da produção bem como da reprodução.

Foram educadas para as lides da criação de animais domésticos e da produção de alimentos no entorno das suas casas, bem como acompanhar os homens nas roças, dando conta de jornadas de trabalhos exaustivas, entre partos e o cuidado com os filhos, com os bezerros, os pintos e as mães destes. Elas não têm medo.

Foto: arquivo pessoal

Mesmo nas doenças, nos dissabores, muitas convivendo com violências físicas, psicológicas, patrimoniais, se dedicaram e se dedicam aos trabalhos na esfera produtiva e reprodutiva, e sem domingos ou feriados. Elas moveram e movem o mundo reproduzindo e produzindo a vida. Minha mãe é uma dessas mulheres que, hoje já sem forças, não pestanejou em fazer o que sempre fizera com agilidade e destreza; ficou orgulhosa do feito de ter obtido carne da penosa fujona. Minha mãe era de aço; hoje é um diamante.

Estar aqui, na clausura – já disse que me é aprazível do ponto de vista do conforto – me preenche de afetos e aprendizados. Dia desses, durante o almoço, a televisão estava ligada onde se ouvia sobre as trapalhadas do presidente, grotescas e criminosas, os mortos da Covid-19, os assombros.

Decidimos desligá-la, e conversar. Foi inusitado. Terminado o almoço perguntei se queriam melancia que eu havia trazido do mercado e estava na geladeira. Lívida, Rita falou: “me peça qualquer coisa, menos mexer em melancia, por favor!”. Então contou que tem verdadeiro pânico dessa fruta, fato que atribui a sua mãe, senhora Geni que, grávida dela (isso faz bem mais que meio século, quando moravam no Ermo e eram camponeses), ia para a roça com os irmãos e comiam melancia quente. “Ela quebrava a melancia e comia inteira”, porque “era o que comiam na hora do descanso, e debaixo do sol quente”, e por isso “não suporto cheiro nem o gosto, tenho pavor”. Perguntei se tem alergia: “não sei, não consigo nem provar, passo mal”.

Dessa conversa, minha mãe lembrou que Marigênia, minha querida irmã mais nova – que nos deixou muito jovem – “se encostasse numa palha de milho, ou milho verde, já ficava toda empipocada, vermelha de alergia e com coceiras pelo corpo”. Contou que quando grávida dela, teve que colher “uma roça inteira de milho”, o que a deixou com alergias, atribuindo o fato às alergias da filha. Eu não sabia da história; só sabia que a maninha fugia de milharais. Coisas da clausura, do ouvido atento às experiências.

Por certo, se estivéssemos ouvindo o noticiário da pandemia, misturado ao genocídio corrente no Brasil, essas conversas não teriam acontecido, e eu não saberia as histórias dessas mulheres e suas detalhadas memórias. Isso me fez pensar na sabedoria popular, mas mais da experiência que a memória trás quando cutucada. Minha filha não gosta de goiabas, que eu amo… vomitei por dois dias quando grávida dela, depois de comer goiabas. O dito, o sentido, o não dito, a crença, os tabus sobre comer ou não comer tal coisa fica por conta das representações de quem me lê. Tenho certeza que as leitoras vão buscar no cone da memória alguma história parecida.

Esta é a magia da crônica: reavivar memórias e seus significados, e fazer palpitar alguma coisa dentro do peito. Que bom que pode ser assim!

Me pego a pensar: quanto tempo ainda teremos pela frente, com a saudade grudada no medo? Nesse país tupiniquim, mais de duas dezenas de milhares de homens e mulheres que já nãos sonham mais. E centenas de milhares de moribundos que esperam tratamento adequado para não entrar nas estatísticas.  Até quando? Sei que a grande maioria das pessoas tem medo de contaminar-se, se cuida e protege a si a aos outros; e uma parte segue o cloroquinado mandante de coturnos, sem noção da realidade. Canalhas!

Como podem ver, na incontingente clausura, coisas curiosas acontecem. Não fossem as saudades, que são salobras, e o medo do oleoso invisível, que é broxante, o útero ardente estaria calmo como é o silêncio da noite desse lugar que escrevo.

 

Marlene de Fáveri, 24 de maio de 2020. Turvo.

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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