Coluna da Carolina Veríssimo

Se te sufoca não é amor.

Postado em 14/03/2018, 9:54

Quando me perguntavam se nós estávamos juntos, eu nunca sabia ao certo.
Eu sabia que eu estava lá sempre que ele queria que eu estivesse.
Mas sabia também o quanto eu me sentia sozinha nos outros momentos. E também sabia o quanto me custava não desagradá-lo para seguir merecendo os poucos momentos de carinho e reconhecimento.
Era como se fosse uma corda muito esticada, como se eu tivesse que provar todo o tempo que eu era digna da companhia e atenção.
E ele sempre pedia um pouco mais. Mesmo que fosse me fazer falta. Mesmo que eu estivesse cansada ou mesmo que eu apenas não quisesse. E com o tempo eu fui esquecendo o que eu queria e achando que por mais que eu estivesse sempre dando um jeito de atendê-lo era por que eu precisava muito dele. E depois valeria a pena. Mas as exigências iam ficando maiores e as demonstrações de que eu não as atendia sempre me machucavam.
Com o tempo, a sensação era de que eu estava cansada demais para olhar pra mim, para as minhas demandas e que se ao menor chamado eu não estivesse lá eu teria que lidar com o desmoronamento daquela frágil estrutura mantida unicamente pelos meus esforços.
Mas eu já não podia mais manter também.
E eu me sentia fraca, confusa, amedrontada e desorientada pois havia me acostumado a ter sempre um par de olhos aos quais me reportar por aprovação.
Era como estar caminhando sobre cristais, qualquer mínimo deslize sería desastroso e eu perderia tudo.
E eu deslizei .
Eu o abandonei.
E com isso eu me tornei a pessoa horrível e desalmada.
E soava muito familiar a todas as histórias das ex loucas que ele me contava.
Agora a louca da vez era eu. A egoísta, a possuidora de todos os adjetivos indelicados, era eu.
Depois de alguns dias de gelo, em que eu apenas me obriguei a não pensar e fazer qualquer outra coisa. Ainda doía. Ainda dói. E doeria se eu estivesse lá. E eu ainda não saberia que não havia amor. Que nunca houve.
E eu ainda estaria paralisada na minha própria vida, num piloto automático, morta de medo.
Assim que pararam de chover mensagens dizendo o quanto eu não era boa o bastante. Que eu parei depois de muito tempo e ouvi meu silêncio. E pela primeira vez em muito tempo eu senti que estar só comigo não era tão mau e que a única voz que havia na minha cabeça era a minha foi como o silêncio após um tiroteio quando as pessoas olham aos poucos pra rua e percebem os possíveis recomeços em meio às perdas.
E os recomeços eram possíveis. Eu estava ali. E bastava. E todos os dias eu me lembraria que eu bastava. E me perdoaria e diría coisas agradáveis pra mim.
E consertaria tudo, olharia no espelho, me acalentaria quando eu ficasse agitada.
Eu seria minha própria voz maternal dizendo que tudo está bem e não preciso mais ter medo.
Até eu ficar inteira, capaz e completamente curada.




A autora Carolina Verissimo, nascida em Florianópolis em 1985, participou de sua primeira antologia poética em 2004, publicou seu primeiro livro de poemas em 2015, e participou, junto ao coletivo Lev'art, de uma antologia internacional de Língua Portuguesa em 2017. Atualmente trabalha com arte de rua em parceria com alguns estabelecimentos, entre os quais a Bodega La Khalo, onde divulga suas poesias.
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