Coluna da Ana Lucia Fernandez

Esse nosso mundo cambaleante precisa de gente nova. Não seria bom se essa gente nova fôssemos nós mesmos?

Postado em 06/12/2016, 20:10

Renovação celular acontece, de tempos em tempos, sem que precisemos nos esforçar. Deve ser justamente pra podermos nos concentrar em dar corpo às transformações que o mundo lá fora vai precisando, de tempos em tempos.

Dia desses uma amiga me respondendo a um “Tudo bem?” me disse:
– Estou meio esquisita, me sentindo como rio que corre para o mar.

Como acho que esta metáfora pode ser interpretada de várias maneiras, fiquei quieta aguardando um complemento. Ele veio em seguida:
– Arrastando comigo todos os troncos das margens.

Os tempos, os tempos, como estão, né?

Quem neste momento não está sentindo que sua vida é corredeira caudalosa transformando suas margens, arrastando suas raízes, e que os troncos já não funcionam mais como possibilidade de segurança, de apego, de salvação?

Eu ouço tanta gente reclamando.

A política, a economia, as relações, o trabalho, o trânsito, as pessoas, tudo está de pernas pro ar, que coisa chata, que triste, que difícil, que inadequado!

Vivemos, segundo a ONU declarou esta semana, a maior crise humanitária desde a 2ª guerra mundial. Mais de 128 milhões de pessoas precisando de ajuda e solidariedade para sobreviver. Alguma coisa não está dando muito certo, não é mesmo?

E o rio vai passando e você só reclamando, como se isso fosse dar conta de alguma coisa. O que era já foi. Aquilo que você reconhecia como seguro e sólido já não se apresenta mais assim. O rio, o rio levando tudo.

Seu trabalho? O que você sempre soube fazer pode não estar mais te trazendo as mesmas respostas, sejam elas de realização pessoal ou financeira.

Sua cidade? Cada vez mais caótica e você não reconhece gestores competentes de verdade que apresentem alguma solução possível.

Política? Onde está tudo aquilo que você ajudou a construir com tanto orgulho?

Escola? Suas crianças já não mais se contêm dentro delas (que bom!) pedindo por novas formas de educação. Claro, são crianças do século XXI ainda sendo encaixotadas em contêineres vindos nos navios do século passado.

Seu país? Hahahahahahahahahahahaha, esse então…! Ok, ok, não é nada engraçado isso, mas enfiar a cabeça entre as mãos e chorar, não vai mudar nada.

E chove sem parar uma chuva que só faz transbordar mais esse rio. E ele pede transformações. Um novo jeito de fazer as coisas. De olhar pras coisas.

A fábrica de máquinas de escrever começou a fabricar computadores. Já a Kodak, que inventou a máquina digital em 1975 e não achou grande coisa, continuou obstinadamente produzindo filmes e quando percebeu outras companhias já estavam “a mil” na produção de máquinas digitais. Faliu. Tinha gente lá que não queria saber de ver as coisas sob outra perspectiva. Esqueceram-se por lá que a vida é rio.

As mudanças, ou a necessidade delas, estão postas diariamente e cada vez mais. Só reclamar não me parece que vai adiantar. Reclamar é uma reação natural, é certo, mas não adianta parar aí.
Você percebe que algo não vai bem, instintivamente reclama e aí como não há nenhuma resposta imediata do cosmos só pela sua reclamação, é claro que você precisa fazer alguma coisa.

Mas não parece ter saída… Olha, não mesmo, se você quiser continuar fazendo tudo do mesmo jeito. Tenho um sentimento que as pessoas estão lutando pra que tudo volte a ser como antes. Mas como? O sentido da humanidade é de evolução. Pense bem, historicamente as evoluções vêm acontecendo de forma gradual e demorada, mas neste momento vivemos um ponto decisivo. As informações brotam de todos os cantos acelerando tudo. Não há mais como não se entregar a este fluxo.

Este é um momento que pede reinventamentos! (Inventar novas palavras, também, por que não?) E não há magica para reinventamentos. É preciso ir tentando, lapidando, flexibilizando, cedendo um pouco, relaxando e agindo com firmeza quando for preciso.

É preciso procurar e reconhecer novos jeitos de fazer, de viver, de sobreviver. E sem colocar a culpa dessa necessidade nos outros, por favor! Isso seria como (acho hilário) reclamar do trânsito sem lembrar que você também é o trânsito com seu carro ocupado por uma pessoa só.

A partir do ponto em que você está, o que você vê? Você pensa em tentar algo novo com a bagagem que já tem? Como ela pode ser readaptada para seguir viagem? Você anda se fazendo estas perguntas?

É importante que faça, minha amiga/meu amigo. Bem importante. Talvez as respostas não sejam imediatas, ou talvez você tenha que admitir a hipótese de que elas não sejam exatamente as que você queria, mas de qualquer maneira, este é o tempo de fazê-las.

Pra que mar está correndo o seu rio e o que ele está arrastando junto?

Vem, mergulha nesse rio que pede mudança de olhar. Vem sentir quais são as possibilidades dessa correnteza, vem se banhar com gente que também tá procurando. Troncos pelas margens? Água que corre com força e vontade leva junto o que precisar levar. Os troncos que forem arrastados rio abaixo é porque já não cumpriam mais nenhum papel seguro.

Deixa o frio na barriga vir junto porque eu sei, ele tá aí, mas vem!

Esse nosso mundo cambaleante precisa de gente nova. Não seria bom se essa gente nova fôssemos nós mesmos?




É graduada em Administração e especialista em Psicologia Transpessoal. Fã incondicional do ser humano, (tanto que gerou quatro!) principalmente daqueles que trazem na alma um olhar carinhoso para os outros seres humanos e suas pluralidades infinitas. Terapeuta, professora e gestora de projetos culturais (mas só daqueles que têm coração).
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