Mosaico Catarinas

Coluna da Elisabetta Mazocoli

Cinco livros de mulheres para ler em 2021

Postado em 21/04/2021, 8:59

Nossa colunista Elisabetta Mazocoli indica obras que se destacaram entre suas leituras neste ano. 

Aqui vão cinco livros que eu recomendaria muito para leitura este ano. Todos não só foram escritos por mulheres, mas tematizam as vidas e as relações mais profundas que estabelecemos entre nós.

Falam assim dos poderosos e perturbadores laços tecidos entre irmãs, entre babás e crianças, entre mães e babás, entre mães e filhas, entre amigas e rivais. E se passam nas mais diferentes épocas e lugares, escritas por autoras vindas de lugares tão diversos quanto Antígua e Barbuda, Inglaterra, Nigéria, Coréia do Sul, Guadalupe, Brasil. Um giro pelo mundo através de outros olhos – tão distantes, tão próximos, tão delas, tão nossos.

“A autobiografia da minha mãe” de Jamaica Kincaid

Um romance que fala de forma potente e intensa sobre a história de Xuela Claudette Richardson, cuja mãe morreu logo no seu parto. A garota tenta encontrar seu lugar no mundo, numa busca da própria identidade através da tentativa de conhecer um passado distante e de origens híbridas, sendo filha de mãe caribenha e pai meio escocês e meio africano, na Ilha de Dominica.

Passando pela infância de Xuela, pelo início da sua vida adulta e seus desdobrares até a velhice, somos guiados pela percepção única e ativa da protagonista sobre o seu redor. Sem se ajustar às expectativas alheias, mas sem também se encontrar por completo, acompanhamos de perto uma jornada fascinante através de uma escrita muito poética e envolvente.

Além de falar sobre identidade, solidão e vivências de opressão feminina, o romance de Jamaica Kincaid é também uma homenagem linda e emocionante à paixão pela escrita – e ao papel crucial que esta pode ter na vida de alguém.

 “Garota, mulher, outras” de Bernardine Evaristo

Vencedor do Booker Prize 2019 e considerado pelo The Guardian como o romance da década, Evaristo consegue de forma genial criar uma obra que tenta desvendar o sentido de ser mulher – de forma plural, diversa e explorando todas as camadas possíveis do feminino na sociedade.

A escrita do livro, por si só, já se apresenta na obra como algo que nos tira da zona de conforto: com uma linguagem livre, cheia de versos e sem pontos finais, temos a impressão de estar ouvindo histórias de mulheres através delas mesmas contando uma para outra até chegar em nós. A estrutura da obra, nesse sentido, é especialmente fascinante. Com o livro dividido em 5 partes, somos apresentadas a diversas mulheres que possuem relação entre si, começando por um núcleo relacionado ao teatro feminista em Londres.  Tecendo os fios de forma única e imprevista, a autora cria uma obra extremamente original com muitas personagens marcantes entrelaçadas.

Também por isso, é impossível acabar esse livro sem nos identificarmos com ao menos uma dessas personagens ou nos lembrarmos das mulheres que conhecemos ao longo da vida. É um livro profundo, enfim, que mergulha com força na vida das personagens e mostra com clareza que, em alguma medida, todas as mulheres têm suas vivências fortemente pautadas pelo próprio fato de serem mulheres.

“Suíte Tóquio” de Giovana Maladosso 

Uma obra eletrizante que narra a história de uma mãe que tem a filha sequestrada e da babá que a levou. Longe de reforçar estereótipos, a autora leva as personagens aos seus limites de culpa, razão e sensibilidade perante a situação, e expõe, assim, também as questões de classe e as feridas causadas por elas no nosso país.

Maju é a babá, membro desse chamado “exército branco” de mulheres que se sentam uniformizadas em parquinhos com as crianças enquanto mulheres mais ricas como a personagem Fernanda criam ou mantêm seus trabalhos fora de casa e têm uma vida supostamente bem sucedida. Os laços traçados pelas duas com Cora, a criança, são permeados justamente por essas duas posições e pela proximidade perturbadora que é gerada nesse contexto. Na verdade, como vemos na obra, essa relação tão naturalizada de trabalho diário vai não só pautando os afetos da criança, mas também fixando limites duros à vida própria que Maju poderia ter.

O livro é cheio de detalhes e delicadezas, a começar pelo título que aponta uma sacada genial: Fernanda chama o quarto que decorou para Maju de “Suíte Tóquio”, na tentativa de dar uma expressão socialmente aceitável ao espaço exíguo que constitui o tradicional “quarto de empregada” no Brasil. A obra também é excelente em apresentar os dois pontos de vista sem simplificar ou demonizar nenhuma das personagens principais mesmo nos momentos mais falhos e mesquinhos de cada uma.

 “Herdeiras do Mar” de Mary Lynn Bracht 

Herdeiras do Mar”, de Mary Lynn Bracht, conta a história terrível e pouco conhecida de várias mulheres coreanas durante a ocupação japonesa. A história é contada através da perspectiva de Hana e Emi, em diferentes momentos da vida, e vai nos revelando o que separou – ao menos fisicamente – essas duas irmãs que permaneceram para sempre conectadas.

Hana, a mais velha, é uma haenyeo, ou seja, uma “mulher do mar” na Ilha de Jeju. Ela tem independência e coragem, é forte e leva essas características herdadas da mãe pra sempre, mesmo nos momentos mais difíceis e dolorosos do vida. Disposta a arriscar seu destino pela irmã, é a partir dela que conhecemos a dor das mulheres coreanas ao terem seus direitos negados e viverem uma espécie de sub-vida durante aquele período da segunda guerra mundial.

O livro, ao alternar as vozes das duas, cria uma narrativa delicada e ao mesmo tempo muito impactante sobre seus destinos. A aliança entre as duas mulheres, e também a força que tiveram, desafiam qualquer lógica racional, mas convencem pelo sentimento inabalável que pareciam nutrir uma pela outra. 

“Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem” de Maryse Condé 

O romance fala sobre a vida de Tituba, uma personagem que existiu de verdade e que foi condenada por bruxaria nos Estados Unidos do século XVII. Adentrando a vida dela, a autora toma liberdade para criar a partir dos rastros factuais, fazendo uma história emocionante, forte e reveladora.

O livro narra muito do tratamento recebido pelas mulheres negras durante a escravidão, já começando com a tragédia que acontece com os pais de Tituba. Mesmo abordando um tema tão doloroso, o livro encontra espaço para leveza e beleza ao longo da narrativa. Tituba, além de tudo, é uma personagem muito carismática, com uma inteligência muito viva. O livro também joga genialmente com as fronteiras entre bruxaria e ciência, sem nunca deixar respostas totalmente claras, produzindo assim uma outra camada de entendimento e envolvimento com a história.

Longe de ser um livro didático ou que se prende fielmente à “verdade”, a obra revive o passado com um tom muito diferente e único, envolvendo o leitor desde a primeira página – e, mesmo com o desfecho sendo triste, até o último minuto estamos ao lado de Tituba e de sua longa jornada em direção ao seu destino.

 

 




Elisabetta Mazocoli é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pesquisa tensões e confluências entre imprensa feminina e feminista. Seu principal interesse é o jornalismo cultural e a crítica cinematográfica. Mantém um perfil chamado @travessia.literaria no instagram. E-mail: [email protected]
Veja a coluna da Elisabetta Mazocoli