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Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Gisele Mirabai

Postado em 02/05/2021, 11:51

Gisele Mirabai venceu o 1º Prêmio Kindle de Literatura com o livro ‘Machamba’, em 2017. 

Chicas que escrevem: Você poderia começar se apresentando para o público? Quem é Gisele Mirabai?
Gisele Mirabai é uma escritora e roteirista brasileira, antes de tudo, uma criadora. Minha formação é em Artes Cênicas e Cinema, mas acabei encontrando nas palavras uma forma plena, completa e acessível de expressão criativa e artística.

Bom, agora vamos falar sobre sua trajetória como escritora. Por que começar a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Escrever é acessível e completo, basta um papel, um lápis (quase sempre um teclado) e uma poesia no coração. Se você tiver a disciplina para trabalhar e praticar, assim como um músico com seu instrumento, poderá atingir tons até então inimagináveis de sua expressão literária e poética, de como vê, vive e experimenta o mundo. Escrever para expressar a indignação diante da realidade, para se curar de tantas dores, para organizar o passado e vislumbrar o futuro, para ressignificar a existência, escrever para existir e saber que existe.

Agora, enquanto leitora. Quais foram suas influências? Poderia nos contar um livro que te marcou? Qual foi sua última leitura?
Quando adolescente em Belo Horizonte, descobri a biblioteca pública Luís de Bessa, na Praça da Liberdade, uma região linda da cidade. Depois da escola, à tarde, eu caminhava até lá, para passear pelo bairro Savassi, e também para buscar um livro. Comecei com a Clarice Lispector, e li todos os livros dela, inclusive sua coleção de crônicas do Jornal do Brasil. Daí fui para a literatura francesa, Jean Paul Sartre, Camus, outras autoras brasileiras, como Adélia Prado, e daí para os poetas mineiros, como Carlos Drummond de Andrade, para autores e romancistas de Minas, como Fernando Sabino e Humberto Werneck. E aí a literatura russa, Dostoievski, Tolstoi, peças de teatro russas, peças em geral… e não parei mais. O livro que mais me marcou para toda vida foi Grande Sertão: Veredas. Minha última leitura foi Sobre os ossos dos mortos, da Olga Tokarczuk.

Seu livro “Machamba” foi vencedor do 1° Prêmio Kindle. Poderia nos contar um pouco sobre a construção da obra, o assunto e também como foi a experiência de ganhar esse prêmio tão importante?
Machamba conta a história de uma mulher que cresceu numa fazenda em Minas Gerais, no que chamamos no livro de Tempo Grande, conectada ao entorno natural, os pés de fruta, o rio que ali passava, e ao filho do caseiro, seu único amigo. Agora ela mora em Londres, no Tempo Pequeno, numa vida de imigrante, sem coragem de olhar para o passado. Quando ela sai para uma viagem pela Europa, por países como Grécia, Turquia, Egito, vai se lembrando das enciclopédias sobre essas antigas civilizações, que seu pai lia para ela na fazenda, e criando coragem de olhar para o próprio passado e o episódio traumático que mudou para sempre o rumo da sua vida.

Machamba é o meu primeiro romance. Tinha um e outro capítulo quando entrei na oficina literária do Marcelino Freire e me coloquei a disciplina de levar um capítulo por semana para os colegas oficineiros lerem. Nessa época, o livro também ganhou A Bolsa Funarte de Literatura, e pude me dedicar por seis meses exclusivamente para finalizar o romance. O livro tem uma narrativa circular, não cronológica, em que o passado – Tempo Grande – e o presente – Tempo Pequeno, se misturam e se atravessam o tempo todo, para se encontrarem no final.

Ganhar o 1º Prêmio Kindle foi uma emoção. Era um prêmio de internet, mas que olhava com seriedade para a literatura contemporânea. Eu não sabia o que viria pela frente, o contato com os leitores, as entrevistas, a indicação ao Prêmio Jabuti, e foi muito bom ver a história da Machamba tocando poeticamente as pessoas.

Durante a pandemia você publicou “Ana de Corona”, poderia nos contar sobre essa experiência pandêmica?
Ana de Corona surgiu como aqueles livros que te atravessam, te escolhem, e a única coisa que você pode fazer é sentar-se lá e escrevê-lo.

Eu venho pesquisando bastante sobre meio ambiente há muitos anos (as pesquisas começaram com a publicação do meu primeiro livro, o juvenil Guerreiras de Gaia). E logo no início da pandemia, quando veio a notícia de que o novo coronavírus vinha supostamente de um morcego de áreas desmatadas, tudo fez sentido e eu comecei a escrever sobre essa compreensão sistêmica da realidade em que vivemos hoje. De como o domínio do homem sobre a natureza determina tudo, desde a pandemia que vivemos agora, e também as futuras que viveremos, se não fizermos já a diferença para pararmos o aquecimento global.

Eu me sentei para escrever um blog, mas o assunto estava tão claro na minha cabeça, que acabei escrevendo pequenos capítulos de um romance. A história me atravessou de tal forma, que em nove dias eu tinha escrito a primeira versão. Em quinze dias, o livro já tinha sido lido por doze leitores beta e, com vinte e um dias, lancei o livro em sua versão online. Foi o primeiro romance sobre o tema da pandemia do Brasil.

Agora, falando de futuro, você está trabalhando em algum projeto atualmente? Se sim, poderia nos contar um pouco sobre esse livro?
Sim, meu próximo romance se chama Nova Maria. É a história de uma astrônoma amadora do sertão de Minas, que aprendeu a ler as estrelas do céu com seu avô. Quando ele morre, levada pela situação caótica do entorno, com o rio contaminado pela lama de mineração, sem emprego, e com duas crianças que adotou devido `a situação extrema de abandono que assola a região, ela decide seguir os passos de muitas pessoas do leste de Minas e imigrar sem documento para os Estados Unidos. Seu objetivo mais secreto e ir à Casa Branca e contar sobre uma estrela nova que ela descobriu no céu. A travessia, no entanto, não sai como esperado.

Em geral como foram suas experiências de publicação? O que mais te marcou no processo?
Já experimentei vários tipos de publicação, de editoras grandes, a editoras pequenas independentes, à publicação digital e autopublicação. O que mais me marca nesse processo é a democratização. Hoje não é mais necessário esperar ser aceito por uma grande casa editorial e ter seu livro publicado e lido pelos leitores. No entanto, é preciso ter muito cuidado com a revisão, editoração, ter leitores betas antes de publicar e, sobretudo, sempre trabalhar o público do seu livro. E isso vale dos autores de grandes editoras a autores independentes.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Algum conselho, ou, alguma mensagem final?
Escrevam, escrevam, escrevam. Um pouco por dia, mas não deixem de escrever. Sobretudo as mães autoras, que são imensamente atarefadas (eu sou mãe e sei), lutem pelo seu tempo de escrita. E procurem outras escritoras, páginas que fomentam autoras, vamos juntas.

Por favor, indique um livro para os leitores e também um filme ou série.
Vou indicar aqui quatro autoras de literatura contemporânea com livros incríveis:
Coração Madeira – Marly Walker
Suíte Toquio – Giovana Madalosso
No fundo do oceano, os animais invisíveis – Anita Deak
Meu corpo ainda quente – Sheyla Smanioto
Filme, eu indico o lindo “Los Silencios” da diretora brasileira Beatriz Seigner.

 




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert