Imagem; Laura Elizia Haubert

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Elizza Barreto

Postado em 04/07/2020, 9:56

A chica que escreve da semana é a Elizza Barreto. A Elizza é psicóloga, especialista em psicologia da saúde pelo programa de Residência Multiprofissional em Cardiologia da UNIFESP, e claro, escritora. Ela foi indicada pela escritora Monique Malcher. Então, vamos aproveitar a dica e conhecer mais uma autora! Vamos à entrevista! 😊

Poderia nos contar um pouco de sua trajetória como escritora? Como foi que você e a literatura se encontraram? E mais, por que continuar escrevendo?
Desde criança recebi incentivos da minha mãe e irmão mais velho para ler. Gostava, inclusive, de explorar secretamente a estante de livros adultos da minha casa e lia romances espíritas ainda aos sete, oito anos. Então fui pega com um exemplar de Dona Flor e Seus Dois Maridos, alertada sobre a minha pouca idade para aquela leitura e presenteada com livros infantis (série Destemida, Querido Diário Otário, Fazendo meu Filme, por exemplo). Até aquele momento, a leitura era peça fundamental da minha vida, a mais importante, ali eu conseguia fugir da minha casa, das violências que vivenciava todos os dias, sem necessariamente passar pela porta da rua. Então, veio a escrita também. Me recordo da minha primeira produção mais longa, digitada no antigo computador de tubo, “O Segredo da Borboleta”, uma espécie de conto. Mostrei à minha mãe, mas ela não deu muito crédito, o que me fez acreditar que a minha escrita precisava, naquele momento, ser também um segredo. Eu escrevia para mim. Ganhei um laptop aos 12 anos e a minha escrita uma pasta chamada “textos”, que existe até hoje. Ali pude escrever poesias, contos, crônicas e romances sobre tudo que eu vivia ou fantasiava, em especial sobre a adolescência. Naquela época, o Orkut era também um refúgio, e eu havia passado na seleção de moderação de uma comunidade de escrita. Ganhei um espaço para publicar minhas produções e ser lida para um público de 13 mil pessoas. Alguns leitores se tornaram amigos e me acompanham até hoje nas redes sociais. Entre 2009 e 2013, eu parei de escrever dessa maneira. O Orkut morreu, os caracteres do Twitter eram bem limitados e o Wattpad, que surgiu depois como possibilidade, me dava preguiça. Consequentemente, eu passei um bom tempo alimentando a pasta do meu computador. Em 2013, entrei na faculdade de psicologia e a escrita de artigos científicos, no grupo de iniciação científica, passou a fazer mais sentido do que a literatura, mas acredito que era uma forma de negar a verbalização de alguns sentimentos e pensamentos da época. Um tempo depois, em 2016, sonhei com uma história. Ela me deixou inquieta o dia inteiro, até que eu liguei o laptop e abri uma página nova no Word. Assim nasceu Cappuccino de Chocolate com Creme, meu romance de estreia, que só veio a ser lançado em 2018, após muitos meses de insegurança, reescritas e mudanças de vida. Após o lançamento do livro, minha escrita se tornou hábito quase diário, os autores dos livros que eu devorei durante toda a vida dialogavam comigo em minha mente, eu os queria como referência. Comecei a usar, mais uma vez, as redes sociais como recurso de divulgação, em especial o Instagram. Ali nasceu um novo público e consegui alcançar o antigo. Em 2019, meu processo de escrita mudou bruscamente, no entanto. Eu não tinha mais fôlego para produzir todos os dias, além do fato de querer prezar pela minha catarse, minhas inspirações. As ideias eram ótimas, mas eu confiava nas palavras que colocava no papel, elas traziam mais sentido para mim. Por isso, dei um freio. Tanto nas referências que me guiavam, quanto no que eu produzia. Em um período de melancolia, acessei uma nova autora que nascia em mim, assim como a necessidade de colocar no mundo mais uma obra. Afetos em Ruínas ganha nome no meio desse processo, sendo composto por produções antigas, de 2008, 2009, e poemas mais do que recentes, quase crus. Acredito que fechar contrato com a editora, no ano passado, marcou também a minha nova escrita. Mais íntima, honesta, crítica. Minhas leituras mudaram também, como sempre costuradas e emaranhadas ao processo de escrita. Agora, nesse exato momento, é essa a escrita que eu bebo e escancaro: aquela construída por palavras, lapidada por técnica, ensaiada por referências e representatividades, e revisitada pelas ideias.

Acho sempre legal falar sobre as influências. Então, você poderia nos contar um pouco sobre suas principais influências literárias? Quais nomes da literatura te marcaram? Qual sua leitura de cabeceira agora?
Foram muitos os nomes que me visitaram nos diversos processos de escrita da minha vida, mas as que mais marcaram, no começo, foram Colleen Hoover, Rupi Kaur, Amanda Lovelace, Ryanne Leão e Bukowski. Eram autores que marcaram – e muito – diversos momentos em que eu precisei fugir, mais uma vez, de uma série de violências que vivia, não apenas em casa. Depois, mais precisamente após 2019, consigo ouvir as vozes de Íris Figueiredo, Vitor Martins, Taylor Jenkins Reid, Liliane Prata, Mariana Salomão Carrera. Dois nomes que sempre estiveram aqui e nunca partiram: Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector.

Estou lendo As Águas Vivas Não Sabem de Si, da Aline Valek.

Seu livro “Afetos em Ruínas” acabou de ser lançado pela Editora Penalux. Poderia contar um pouco sobre ele?
É um livro que foi construído com o tempo, a partir da minha conexão com aquilo que estava destruído em mim. Abrindo um pouco essa porta, em 2018 me mudei de Salvador, Bahia, para São Paulo, e digamos que toda a minha vida mudou. Foi um processo intenso e difícil de identificação comigo, meus sentimentos e propósitos. Inevitável a mudança da minha escrita, meses depois. Acessei produções antigas e comecei a enxergar uma linha que as conectava com a pessoa que eu estava me tornando ali. Então, vieram novos poemas, bastante fortes e honestos. Depois de um longo processo de escrita e reescrita, encontrei o propósito daquele material, o título do livro e do que eu estava colocando no mundo: Afetos em Ruínas. Nele eu traço em uma linha cronológica, através de poemas, o nascimento dos meus afetos, através do contexto familiar e a maneira como eles foram vivendo, morrendo e renascendo ao longo dos anos, se expandindo para o amor romântico, a relação com o vazio, autoimagem, relacionamentos sociais, a angústia da espera e a urgência de uma vida idealizada. O livro, no entanto, não está escrito em ordem numérica crescente, de propósito, para que o leitor consiga entender a necessidade de uma análise espiralada dos processos de nossas vidas e como nem tudo é linear, literalmente, embora esteja intimamente conectado.

Além desse você já tinha publicado também “Cappuccino de Chocolate com Creme”, certo? Do que trata e qual a diferença para você entre essa primeira publicação e a mais recente?
É um romance jovem adulto, protagonizado por Alice, estudante de psicologia, que vivencia uma crise de identidade após conhecer Bernardo, em uma viagem a São Paulo. Sua vida amorosa é colocada em análise, quando se vê apaixonada pelo novo amigo, enquanto mantém uma relação de longa data com Benjamin. No entanto, o propósito do livro não é falar sobre triângulo amoroso, mas justamente o processo de encontro de Alice consigo, construindo seu amor-próprio e assumindo decisões que a libertarão de tantas dúvidas.

Esse foi o meu romance de estreia, escrito em 2016, quando ainda tinha 20 anos. É curioso como eu leio trechos do livro e não me identifico com mais nada. A escrita, os personagens, o desfecho, a trama, nada disso fala sobre a escritora que sou hoje. Percebo, após escrever um novo romance, que ainda não foi lançado, o quanto eu não me preocupei com aspectos técnicos na construção desse livro. Eu apenas escrevi, reescrevi e mandei para revisão. Acredito que além de ser uma jovem imatura nesse aspecto, também não tinha nenhuma bagagem sobre escrita e publicação de livros. Afetos em Ruínas vem em um período muito – muito – diferente de minha vida, onde eu percebo não apenas o amadurecimento da escrita, como da minha visão de mundo interno e externo. Talvez por isso, eu tenha mais apego e orgulho dele, ainda que CCC tenha me aberto portas incríveis e me trazido até aqui.

Você também é psicóloga, certo? Qual a influência da sua formação para sua literatura?
Eu queria que a psicologia influenciasse menos a minha escrita, assim eu conseguiria me desligar completamente dela, mas é impossível. Psicologia é, também, um olhar para a vida. Por isso, prezo pela inserção desse olhar nas minhas narrativas e análises, abordando ainda temas que envolvem saúde mental, de maneira desconstruída e mais próxima possível da realidade.

Poderia nos contar um pouco de como foi sua experiência de publicação? O que te marcou?
Inicialmente, publiquei Cappuccino de Chocolate com Creme na Amazon, como e-book, através do Kindle Direct Publishing. Foi a melhor ideia que tive, pois alcancei um público inicial, recebi os primeiros feedbacks e pude lapidar alguns problemas de revisão. Quatro meses depois, fechei com uma editora, que veio a publicar a obra fisicamente.

Uma editora X publicou a edição mais antiga de CCC, e foi um fiasco. Me cobraram um valor altíssimo por 100 exemplares físicos, de qualidade baixa e sem o menor cuidado na entrega. Conheci outra editora Y, quatro meses depois, que abraçou meu livro e se mostrou mais cuidadosa na edição, diagramação e divulgação. No entanto, esta me trouxe problemas na impressão dos primeiros exemplares e na entrega, o que atrasou as vendas e me prejudicou financeiramente.

A editora que publicou Afetos em Ruínas foi a Penalux, indicação de MUITOS amigos escritores. De fato, foi a casa que abraçou meu livro de maneira mais honesta, cuidadosa e carinhosa possível. Tenho muito – muito – orgulho de dizer isso.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Leiam. Leiam muito. Então, leiam mais. Estendam suas vozes e referências, se debrucem no gênero que escrevem e prestem atenção nos macetes de outras autoras, nos processos de amadurecimento de escrita, acompanhando suas obras mais antigas, até as mais atuais. Acredito que ter amigos e parceiros nessa jornada seja fundamental, principalmente se forem escritores do mesmo gênero que vocês. Troquem ideias, palavras, leituras, estudos, links. Se encontrem para escrever e, assim, no silêncio, aprendam uns com os outros. Tenham leitores-betas de confiança, os escutem e não deixem de dar voz à própria catarse também. Não temam o amadurecer. Nossos livros crescem conosco. As casas que não nos cabem mais, também não terão mais quintal para as nossas palavras e suas potências. Mudem de lugar, saiam, viagem, se puderem, experimentem o mundo de dentro e de fora, visualizem seus personagens e paguem uma breja para eles. Por fim, leiam um pouco mais.

Além dessa entrevista deliciosa a Elizza fez a gentileza de enviar as seguintes dicas:

Um livro: Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola – Maya Angelou

Uma série: Hollywood

Um filme: Trilogia Before (Before Sunset, Before Midnight, Before Sunrise)

Gostaria de agradecer imensamente a Elizza Barreto por ter aceitado por ter aceitado meu convite para participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo online. Por hoje é só, por favor, lemb




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert