Mosaico: Catarinas

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: cinco romances sobre aborto

Postado em 25/09/2020, 15:07

Às vésperas do 28 de setembro, Dia Latino-Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto, fizemos uma seleção especial sobre o tema. Ainda que muitos países tenham passado pelo processo de descriminalização, infelizmente na América Latina essa não é a realidade da maioria dos países, e um extenso caminho a ser percorrido mostra-se a frente como bem relata Nuria Varela em seu livro “Feminismo para principiantes”.

Na pesquisa em busca de romances que lidassem com o aborto fui surpreendida pela ausência do tema nas histórias literárias. Essa ausência, contudo, não está presente somente na literatura como mostrou Fonseca (2020), que ao realizar uma análise acadêmica no Brasil sobre aborto apontou a escassez de material. Não há registros oficiais para acompanhar, de modo que a literatura acadêmica também é limitada.

Em ambos os casos me parece necessário começar a dar voz, seja no âmbito literário, seja no âmbito acadêmico, para que possamos abordar cada vez melhor a questão despindo-o da aura de tabu que ainda o envolve para muitas pessoas.

Assim, acredito que a literatura é uma importante ferramenta em qualquer nível para ajudar a criar empatia e fornecer um espaço de diálogo e escuta, onde podemos entender melhor o outro ao entendermos suas vivências, ao viver, ao menos no papel, em sua pele. De tal modo, mais do que nunca se faz necessário que também se toque no aborto na literatura.

Por isso, separei algumas obras abaixo que valem a leitura e a reflexão.

1. As Mães – Brit Bennett

O aborto é um dos delicados temas que perpassa toda a história do livro, além do racismo e também do moralismo religioso. No livro acompanhamos a jornada de Nadia e Luke desde o final da adolescência até a vida adulta. Nadia fica grávida ainda adolescente e decide passar por um aborto. O livro expõe sem medo a hipocrisia da sociedade, e sobretudo, dos meios religiosos.

2. Manual da Faxineira – Lucia Berlin

No último conto dessa coletânea intitulado “Mordidas de Tigre” o tema do aborto, que está presente também em outros contos, aparece com mais clareza aqui. O conto é bastante forte, nele acompanhamos uma jovem que com a ajuda de um primo vai a uma clínica ilegal para fazer um aborto, porém acaba desistindo de realizá-lo.

3. Tua – Claudia Piñeiro

A escritora argentina Claudia Piñeiro é uma das vozes da literatura que traz o aborto constantemente para a literatura, e também a discussão, já que não perde oportunidade de falar a respeito do problema em entrevistas e prêmios. Nessa obra, o aborto aparece quando uma personagem adolescente avalia a alternativa.

4. As Meninas – Lygia Fagundes Telles

A escritora paulistana Lygia Fagundes Telles trata nesse livro uma série de tabus como drogas, masturbação e também aborto. Esses temas aparecem presentes na vida das protagonistas Lorena, Lia e Ana Clara.

Além disso há uma série de menções que valeriam a pena citar como o conto que toca o tema do aborto no livro “Pássaros na Boca” da argentina Samanta Schweblin ou ainda o clássico “Palmeiras Selvagens” de William Faulkner. Também vale a menção ao romance esquecido de Figueiredo Pimentel intitulado “O Aborto” publicado no ano de 1893 que toca no tema de forma naturalista e recebeu duras críticas entre seus contemporâneos.

Para pensar a questão do aborto também parece interessante o romance autobiográfico “L’événement” da escritora francesa Annie Ernaux que relata seu aborto clandestino vivido em 1964, na França, no qual ela repensa esse evento traumático de sua vida.

Por fim, gostaria também de deixar o convite para os leitores e leitoras de comentarem livros com essa temática e assim enriquecer a troca de conhecimento e experiências, dando maior amplitude ao tema, e tentando desmistificar o tabu ainda presente que continua a custar vida de mulheres em toda a América Latina.

5. A Hora do Angelus – Fátima Oliveira

“Uma jovem estudante de medicina envolve-se com um padre e vai descortinando o submundo da Igreja Católica: amores, abortos e abandonos praticados sob os olhos do clero romano. Esse é o fio que conduz o romance A hora de Angelus, Editora: Mazza Edições, 2005 da médica Fátima de Oliveira, 54, secretária-executiva da Rede Feminista de Saúde(…) Em suas 135 páginas, o romance apresenta uma narrativa crua de como os padres se desvencilham das gravidezes de mulheres com as quais se envolvem e de como a Igreja Católica permite que os filhos indesejados sejam renegados e abandonados.” Informações retiradas dessa crítica.

Bibliografia
FONSECA, Sandra Costa et al. Aborto legal no Brasil: revisão sistemática da produção científica, 2008-2018. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 36, supl. 1, 2020. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2020001302001&lng=en&nrm=iso>.

VARELA, Nuria. Feminismo para Principiantes. Barcelona: Ediciones B.S.A., 2005.

 




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
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