Foto: AFP Photo/Sia Kambou

Coluna da Maimouna Diallo

A despigmentação da identidade

Postado em 10/04/2020, 9:18

A despigmentação voluntária da pele surgiu nos anos 60 e 70 nos Estados Unidos e ganhou território na África nas décadas seguintes, se expandindo rapidamente, sobretudo nos países subsaarianos. O fenômeno tornou-se a coqueluche das mulheres (praticamente, uma a cada três mulheres fazem a despigmentação da pele) em diversas nações do continente e, de modo especial, na Costa do Marfim, Camarão, Benim, Mali e Senegal. Em alguns países, é mais frequente observarmos a adesão de mulheres casadas, embora tenha conquistado todas as faixas etárias e também classes sociais.

Entretanto, há que se reconhecer, os homens passaram igualmente à prática e isso já é bastante notório tanto na República Democrática do Congo (Congo-Kinshasa) quanto na República do Congo (Congo-Brazavile), onde existe uma competição com as mulheres para ver quem consegue obter a pele mais clara. Homens e mulheres compartilham do imaginário de que a pele clara é sinônimo de elegância e se esforçam para entrar no padrão estético ocidental.

Notadamente, a pele negra tem um leque de tonalidades diferentes, variando do mais claro ao muito escuro. Mas é comum encontrarmos casos de pessoas que já têm um tom de pele intermediário e, mesmo assim, utilizam os produtos para obter uma pigmentação ainda mais clara. A motivação por trás disso é multiforme.

Para as mulheres, as justificativas vão desde a imposição dos maridos até as questões de autoestima. A ideia de que o tom claro da pele é mais atraente e que, assim, poderão conquistar o homem ideal é uma constante. Há mulheres que não se sentem felizes por serem negras e fazem de tudo para ficarem mais parecidas com as mulheres brancas ocidentais. Nesses casos, também, além de clarear a pele, elas costumam adotar o mesmo estilo de se vestir e de se comportar, acreditando que os homens irão se interessar mais por elas.

Entre as casadas, algumas alegam que seus companheiros preferem a pele mais clara e, temendo perder o marido, se submeterem ao processo de clareamento da pele. Em um casamento poligâmico, por exemplo, a esposa pode usar isso como um trunfo em relação às demais mulheres do grupo, se sobressaindo como a favorita.

Os produtos utilizados para a despigmentação da pele são de natureza diversa: gel, cremes, soluções líquidas e, inclusive, há relatos de pessoas que chegam a usar água sanitária e outras misturas preparadas sem nenhum critério, podendo comprometer sua saúde. Produtos de boa qualidade são facilmente encontrados nas farmácias por preços exorbitantes, mas as pessoas com baixa renda acabam procurando alternativas populares, sem procedência comprovada, nem garantida. Às vezes, inclusive, elas inventam sua própria formula, misturando diferentes químicas, sob o risco de causarem graves ferimentos na pele.

Muitas pessoas se arrependem de terem iniciado o processo, mas temem parar com o procedimento por medo de não voltarem à mesma cor de antes. Algumas, ao contrário, não querem interromper o uso justamente por vergonha de voltarem à cor original ou de ficarem mais escuras do que eram. Além disso, é comum que fiquem manchas na pele, principalmente no rosto, e também que se perceba a diferença de tonalidade no corpo da pessoa, isto é, pés, pernas e braços mais escuros que o rosto.

Ao constatarem manchas em decorrência da despigmentação, as pessoas acabam buscando novos produtos, em geral mais fortes, provocando uma série de doenças. A incidência de câncer de pele como consequência é comum. Fato é que, depois de algum tempo, essa prática pode causar problemas dermatológicos crônicos. A pele fica tão fina que qualquer sinal se sobressai e o processo de cicatrização fica comprometido.

Este fenômeno tornou-se uma questão de saúde pública e em alguns países, como aconteceu em Ruanda, Costa do Marfim, Quênia, África do Sul e Gana, a venda dos produtos clareadores foi proibida. Entretanto, esta política não foi suficiente para reduzir os casos, pois os produtos continuam sendo vendidos no mercado paralelo.

O que motiva as pessoas a se submeterem à padrões de estética que lhes complicam a saúde e as colocam em situações de maior vulnerabilidade psicoemocional? Tanto sacrifício para quê ou para quem? São perguntas que nos cabem, a todos e todas. Em que nível e de que maneira colaboramos para alimentar uma sociedade com tamanha dificuldade de aceitar e conviver com a diversidade, em todos os sentidos?

* Versão em português elaborada por Andrea Silveira, autora da biografia da Maimouna Diallo sob o título: “Guinée Fagni: a trajetória de uma mulher africana – a história de todas nós”, que pode ser baixada gratuitamente em PDF e/ou E-Pub.




Nascida na Guiné, África, vem realizando um intenso trabalho em favor das pessoas vivendo com o HIV/AIDS, como coordenadora da equipe comunitária do projeto do Médicos Sem Fronteiras, em Conakry. Já esteve à frente da Fundação Esperança Guiné (Fondation Espoir Guinée) e da Rede Guineana das Associações de Pessoas Vivendo com o HIV (Réseau Guinéen des Associations des Personnes Vivant avec le VIH) e atualmente é considerada uma das referências em termos de luta para a formulação de políticas públicas da área do controle do HIV em seu país.
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