Fundadora do movimento Mujeres Creando analisa a situação no país/Foto: Agência EFE

Bolívia: a noite dos cristais quebrados

Postado em 12/11/2019, 17:13

Por María Galindo.

Tradução de Nicole Ballesteros Albornoz.

Queimar as whiphala (bandeira que tem representado os povos indígenas em todo o continente) de todas as instituições públicas é um ato fascista, mas igualmente fascista é utilizar tudo: as ideias, os corpos e os espaços como bandeira política.

Entrar no Palácio do Governo com uma Bíblia e uma carta na mão para se ajoelhar diante de câmeras sem nenhum mandato popular de legitimidade é um ato fascista e golpista.

Queimar as casas dos membros do governo Evo Morales é fascismo.

Queimar a casa do reitor da Universidade Pública, Waldo Albarracín, que tem sido sempre defensor dos direitos humanos, é um ato fascista de intimidação social contra aquele/a que se atreve a falar. Assumir uma posição dissidente contra Evo Morales e inclusive questionar a fraude eleitoral.

Estes são alguns dos exemplos que estão inundando as telas das televisões e dos celulares no mundo inteiro.

Escrevo sob uma chuva torrencial na noite que a batizei a Noite dos Cristais Quebrados, porque essa noite foi destinada a semear medo, a abrir todas as feridas de uma sociedade colonial racista, misógina e homofóbica. O revanchismo tomou as ruas em busca de sangue, em busca de inimigos.

Hoje, na Bolívia, o mais subversivo é ter esperanças, o mais subversivo é o humor e a desobediência, o mais subversivo é não ter um lado e é isso que nós mulheres estamos apostando mais uma vez.

O que está acontecendo?

Não é fácil explicar por que esse conflito ainda não acabou. Ele foi crescendo e se metamorfoseou por horas. O conflito esvaziou os olhos, paralisou três corações e golpeou muitas pernas e cabeças fazer das ruas da cidade de La Paz em um cenário de guerra, que se acalmou por poucas horas com um motim generalizado de polícias.

Evo denunciou à comunidade internacional que se trata de um golpe de Estado promovido pela CIA e pela oligarquia fascista de Santa Cruz, e isso é parcialmente verdade, mas é apenas metade do conflito.

Em dia 20 de outubro, fomos às eleições gerais para votar com docilidade (próprias destas terras), porém tanto as urnas como as cédulas estavam molhadas e vazias. Vazias de alternativas concretas e molhadas pela fraude, cuja magnitude já foi denunciada pela Comissão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos e pela Comissão de Observação Eleitoral da União Europeia.

Por isso, que o ato eleitoral representou a abertura de um conflito latente na sociedade boliviana e na região: a profunda crise da democracia liberal representativa e da forma “partido” como a forma exclusiva e oficial de fazer política.

Falsa disputa entre esquerda e direita

Estou cansada de repetir que o Movimento para o Socialismo (MAS) está transmitindo para o mundo a ideia de que o que está acontecendo na Bolívia é a polarização entre um bloco progressista popular contra uma extrema direita fundamentalista. O governo de Evo Morales foi por muitos anos o instrumento de desmantelamento das organizações populares, dividindo-as, transformando-as em lideranças corruptas e clientelistas, fazendo pactos parciais de poder com os setores mais conservadores da sociedade, incluindo as seitas cristãs fundamentalistas às quais ele deu de presente a candidatura ilegal fascista de um pastor evangélico coreano, que foi aprovado com o consentimento do MAS.

Enquanto isso, Evo Morales foi se construindo em torno da sua figura, um caudilhismo. Que tem acurralado um país inteiro e ao próprio projeto do MAS a um beco sem saída.

Ele é uma figura única, convertida de forma delirante em símbolo e sua concentração de poder insubstituível. Na figura que carrega o mito do “presidente indígena”, cujo único poder simbólico é a cor da pele, já que ele exerce um governo habitado por um círculo de intelectuais corruptos e de dirigentes políticos que o reverenciam, pois precisam dessa máscara (personagem).

Como Frantz Fanon titulou seu livro Pele negra, máscaras brancas. Evo é o caudilho e a máscara, nada mais. Todo o seu conteúdo popular é meramente retórico e isso levou ao fato de que hoje esteja liderando um projeto político exaurido e vazio, cuja única possibilidade de continuidade foi a destruição de todas as formas de dissidência, crítica, debate, produção cultural e econômica. Seu modelo é neoliberal, consumista, extrativista, ecocida e clientelar.

É por esse motivo que, diante da fraude eleitoral foi surgindo rapidamente o repúdio concentrando-se na geração sub-25, muito jovem e urbana, que foi protagonista dessa resistência de quase 20 dias.

A fascistização do processo: entre dois caudilhos delirantes

Nesses dias, a palavra democracia foi esvaziada lentamente de conteúdo e convertida num slogan de grupos fascistas e fundamentalistas.

Evo Morales decidiu exaltar as manifestações racistas para tornar-se vítima e usá-las de maneira perversa, a ponto de os atos de racismo cometidos na paralisação se tornassem parte da propaganda do governo, ampliando seu discurso e transformando o racismo em um ato eficiente para o próprio governo. Como o movimento de crítica foi e é exclusivamente urbano, o governo também exaltou as contradições urbano-rurais, como se o conflito estivesse entre uns e outros. A intenção foi usar ambas as contradições para desacreditar as críticas e ganhar tempo. Portanto, o custo social não lhe importou.

Diante do caudilhismo de Evo, o projeto de Santa Cruz enfrentou outro caudilho aparentemente antagônico, mas ao mesmo tempo complementar. Um homem branco, empresário, presidente de uma organização “cívica”, que usou o fanatismo religioso e um discurso abertamente misógino e que promete entre linhas aos homens da sociedade recuperar o controle sobre as mulheres. A tal ponto que seu braço direito, advogado e consultor, é o defensor do que na Bolívia foi chamado de La Manada boliviana, foram aqueles que estupraram sua própria amiga em uma noite de festa.

O fundamentalismo religioso do cívico de Santa Cruz, chamado Camacho, vendeu a ideia de recuperação da família, da nação e da perseguição ao “mal”, disfarçou seu racismo como interesse nacional e sua misoginia como interesse da família. O aparente antagonismo exacerbou os ânimos, polarizou o conflito, substituiu as narrativas pela democracia e colocou no cenário o enaltecimento machista. Os/as jovens começaram a desfilar com escudos e, quando a polícia se amotinou, eles imediatamente se converteram de força repressiva a heróis armados e protetores do conflito.

Foto: Mujeres Creando

Hoje, com muitos milhões de dólares envolvidos, a lealdade do exército está sendo garantida em uma das duas frentes de conflito Evo Morales ou Camacho.

Nos dois casos, a saída é conservadora. A fascistização do processo silenciou a sociedade civil e concentrou a decisão nas cúpulas mais sangrentas de Morales ou de Camacho.

Parlamento de mulheres

Isso que eu conto a vocês aconteceu em poucas horas, num processo confuso de guerra intensa de notícias falsas, que exacerbou todos os medos: medo de falar, medo de tomar uma posição, medo de não ter lado.

A capacidade da população de processar o que está acontecendo tem sido mutilada. Não há espaços para análise ou discussão. A discussão da saída está novamente longe do povo e é muito confusa. Ninguém que não tenha uma arma parece ter o direito de falar.

É por isso que, como parte de uma série infinita de ações realizadas por Mujeres Creando (Mulheres Criando) nestes dias, decidimos abrir um espaço deliberativo de mulheres, chamando-o de “Parlamento das mulheres”, onde podemos dar voz às nossas esperanças, onde se instale um clima de diálogo e argumentação, que é o que essa fascistização nos está extraindo.

Fazer isso, no meio de um clima que se tornou a luta entre dois golpes de Estado, entre dois fascismos, representa um esforço para retornar ao debate original sobre democracia. Precisamos pensar, discutir e contribuir para soluções concretas: essa é a tarefa do Parlamento das Mulheres, que retoma em uma situação de emergência a proposta nascida na Grécia de Sypras e proposta por Paul Preciado.

Contra a privatização da política: a crise regional

Estou convencida de que os conflitos na Bolívia, Peru, Equador e Chile mostram, com diferentes facetas e sob contextos diferentes, a crise da democracia liberal representativa e a privatização da política.

Todo o processo neoliberal tem reduzido o conteúdo da democracia a uma espécie de ato burocrático e aparato eleitoral, e nada mais. Esse processo tem situado as eleições como atos legitimadores da exclusão massiva dos interesses da sociedade, dos interesses de setores específicos, das vozes complexas que compõem uma sociedade de espectadores legalmente excluídxs do direito de falar, pensar e decidir.

É isso que chamo de privatização da política. Evo Morales, na sua renuncia afirmou ter nacionalizado os recursos naturais na Bolívia, referindo-se à exploração de gás natural. Embora essa nacionalização seja parcial, uma coisa que foi feita é privatizar a política a ponto de que se você não pertencesse a um partido político, não tinha o direito de dizer nada, mas se fosse do partido também não. Uma vez que as decisões foram e são debatidas por uma cúpula fechada. Isso tem criado em seu em torno um gigantesco vazio democrático que é o espaço que o fascismo tem utilizado para instalar um contra-modelo caudilhista, que põem as frustrações num plano de uma polarização intransponível que só pode ser resolvida pelo uso do terror, da mentira, pela lógica do mais forte.

Essa mesma crise no Chile, Peru ou Equador tem características diferentes, mas basicamente a sociedade e as lutas sociais se moveram para fora da “política” (institucional), afastando de nós a ideia de que as soluções são “políticas”, são deliberativas ou em base de acordos. Dessa maneira, se instala a fascistização generalizada, o terror, para converter soluções legítimas e questões sociais em cenários de contraposição de forças violentas. A isso é o que tenho chamado de fase fascista do neoliberalismo.

A religião, portanto, em todos os casos, adquire uma preponderância porque ao negar a política, o espaço do discurso ganha abertura para os fanatismos, alimentados por visões “religiosas”, na qual a captura das liberdades sexuais e das liberdades das mulheres é a recompensa que esses processos prometem.

O invisível

O cenário também se está movendo com forças invisíveis não explicitas, que colocam o dinheiro, as armas e projetam estratégias de cenas de dor e narrativas. Atrás disso, estão os interesses dos projetos chineses, russos e norte-americanos, não somente no território boliviano, mas em toda a região. Além da disputa pelo maior depósito de lítio do mundo, que ainda não foi explorado, o salar de Uyuni, em Potosí.

Na Bolívia se está disputando o controle do país, da Venezuela, de Cuba e de Nicarágua, para citar alguns. Por isso, as manifestações tem se convertido e um cenário de manipulação das forças que estão sendo infiltradas.

Encerramento no lugar de soluções

No caso boliviano, parece não haver solução: as pessoas são pressionadas a assumir um lado de acordo com os processos identitários fanáticos, inseridos em narrativas que nada têm a ver com os fatos, narrativas messiânicas e caudilhistas.

É por isso que nós mulheres estamos concentrando nossos esforços na discussão mais básica, não desperdiçando energia tentando convencer nenhum círculo fascistas que constroem seus respectivos relatos. Estamos fortalecendo os espaços sociais que levamos décadas abrindo.

Retomar o espaço de nossos próprios corpos. É por isso que a palavra democracia, que desperta ilusões, pode ser um chamado para preservar o que temos, o lugar que ocupamos, as liberdades que de fato e sem autorização já exercemos.

Não unicamente ativados desde ideias, mas ativados pelos afetos, das emoções. Por isso o humor, por mais irônico que possa parecer o humor social junto a capacidade de fazer piada com os discursos fascistas tem emergido enorme força espontânea a cada esquina.

Tem se convertido em nossa indignação a pergunta: qual é o mais macho ou qual é o mais forte? Pedimos um ringue, onde estes atores em conflito se agarrem em um duelo até a morte e deixem nós, mulheres, em paz.

Nós não somos bucha de canhão.

*Texto originalmente publicado em espanhol em Lavaca.org. María Galindo é anarcofeminista e psicóloga boliviana. Fundou Mujeres Creando, movimento político e artístico- cultural constituído como espaço de luta contra o sistema patriarcal, colonizador e neoliberal em Bolívia.




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