Em março de 2016, a ativista hondurenha Berta Cáceres foi morta a tiros em sua casa/Foto: reprodução

Berta Cáceres, presente! As mulheres que lutam pela vida se convertem em sementes

Postado em 02/04/2019, 10:47

As águas sentem a tua falta, de banhar tua pele, hoje banham teu espírito. Espírito que convive junto ao espírito ancestrais das meninas lencas. No fluxo contínuo destas águas sagradas, que Berta se converteu em muitas sementes.

Berta Cáceres, presente! Mulher, ativista, lenca, hondurenha, mãe, filha, defensora dos bens da natureza, dos rios, dos bosques, dos territórios indígenas, do povo lenca, das mulheres. Com sua valentia e entusiasmo compartilhou alegrias e esperanças com outras e com muitos, seu sorriso, sua voz poderosa de palavras cativantes, são cultivadas por aqueles que a conheceram e conviveram com ela. No último 3 de março, completaram três anos do assassinato da ativista ambiental.

Após dois anos e meses da execução, foram presos sete homens que participaram do crime, entre eles um ex-policial e um ex-militar do Exército hondurenho e o gerente da empresa de Desarrollos Energéticos S.A. (Desa). Entretanto, familiares e ativistas, continuam somando forças, promovendo ações (campanhas e mobilizações) para exigir a punição dos verdadeiros culpados do crime.

“Jamais vamos esquecer que o assassinato de Berta, tem como autores intelectuais os promotores do extrativismo do saqueio e da expulsão de nossos territórios”, diz trecho do comunicado emitido pelo Movimento Mesoamericano contra o Modelo extrativo Minero (M4) e divulgado pelo Conselho Cívico das Organizações Indígenas Populares (COPINH) este ano. As filhas da ativista ambiental, em diversas ocasiões tem denunciado irregularidades no processo, bem como, ocultamente de informações a família, que poderiam levar aos autores intelectuais do crime, que aponta na direção dos dirigentes da empresa hondurenha Desa.

Por que executaram a Berta? O que ela representa nesse cenário de saqueio de recursos naturais em Honduras e outros territórios da América Latina? Sem dúvida, assim como Marielle Franco, foi a voz incômoda e incessante. Opositora aos interesses do capital global e dos governos locais aliados a estes interesses. Defendeu os interesses do povo, lado a lado se manteve como a porta-voz de muitas e muitos ao denunciar as violações de direitos humanos e ambientais desse sistema econômico mundial.

Desde 1993, militou organicamente no Conselho Cívico das Organizações Indígenas Populares (COPINH), organização em que foi cofundadora e atuava como coordenadora geral. Em palavras de Berta Cáceres: “somos do povo lenca, estamos em processo de luta, de ativismo pela defesa dos direitos dos povos indígenas e viemos de um processo de resistência … bom, isso o povo indígena tem feito há mais de 500 anos e seguiremos enfrentando o colonialismo atual”.

O povo lenca é um povo indígena, antigo da região mesoamericana, que habitou o sul e centro de Honduras e grande parte de El Salvador. Os lencas têm se dedicado bastante à terra e sua cosmovisão se centra nela, “no milho, equilíbrio de salvaguardar a todos os seres”. O povo lenca são os verdadeiros guardiões ancestrais dos rios, “protegidos pelo espírito das meninas que nos ensinam que dar a vida de múltiplas formas pela defesa dos rios é dar a vida para o bem da humanidade e desse planeta”, conform as palavras pronunciadas por Berta Cáceres em seu discurso quando recebeu o Prêmio Medioambiental Goldman, em 2015, considerado mundialmente o Prêmio Nobel Verde, pois trata de visibilizar as ações dos defensores ambientais.

Este prêmio foi o resultado do reconhecimento das ações organizativas e políticas que Berta liderou contra a construção da barragem de Águas Zarca, projeto da corporação multinacional DESA. Disse Berta: “quando iniciamos a luta contra Aguá Zarca, eu sabia o difícil que seria, mas sabia que íamos triunfar, o rio me contou”.

A construção tinha sido planejada no noroeste do país, no rio Gualcarque, lugar sagrado para os lencas e vital para sua sobrevivência. A empresa obteve a concessão do Estado de forma irregular, já que não procedeu com a consulta aos povos indígenas. Há poucos meses, precisamente, em novembro do ano passado, foram cancelados os recursos públicos para o projeto e a obra foi embargada pelas autoridades competentes, além destas ações que freiam a construção da represa, no último dia 13 de março foi dado início as audiências públicas que irão apurar as fraudes e corrupção no processo da concessão pública.

“As transnacionais querem invadir nossos territórios, eles querem privatizar nossos rios, nossas águas, o bosque, através dos projetos de represas hidroelétricas para a privatização da energia” – denúncia púbica realizada muitas vezes pela ativista. “Nós pensamos que esta luta que movemos na comunidade não é isolada, é uma luta. É um problema mundial neste continente que não é só a gente que o enfrentamos. São todos os povos que lutam contra o colonialismo e que tem um sentido de justiça e de emancipação”.

Foto: divulgação

Apesar do contexto deixado pelo golpe em Honduras, sofrido em 2009 e apoiado pelos Estados Unidos, com maior repressão e criminalização de ativistas, sequestros, mortes, feminicídios, desemprego e miséria no país, não podemos diluir nossa luta, senão “estaríamos mortas em vida” – argumenta Berta.

A batalha é grande e nenhuma ameaça foi capaz de tirar Berta da luta, pelo contrário, foi nela onde contra atacou seus inimigos, um a um. A cada dia, mais um passo a frente, mais uma confrontação aos poderes locais: o comércio de madeireiros ilegais, donos de plantações e as corporações multinacionais – com seus megaprojetos de morte, além dos governantes corruptos que corroboraram para o incremento das violações de direitos humanos e ambientais nos territórios indígenas.

Nos últimos anos Honduras tem sido o país com maior número de assassinatos de ativistas vinculados a defesa dos direitos humanos e ambientais, de acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Berta inúmeras vezes criticou abertamente o governo pós-golpe hondurenho, suas denúncias advertiam sobre as consequências da militarização no campo em que se perseguiam, desapareciam, reprimiam, violavam e criminalizavam ativistas como ela.

Além do aumento expressivo do crime organizado nesse período. As taxas de feminicídios também se elevaram, em convergência com o aumento do gasto militar no país. “Somos todos responsáveis de lutar contra essa cultura patriarcal violenta e machista”, convocação pública feita por Berta na rádio comunitária, dando visibilidade às mortes das mulheres.

Diante da situação vivida pela população hondurenha, ela argumentou: “O desafio é grande, temos que recordar que Honduras pelo seu contexto histórico de ser sempre uma base militar dos EUA, país que ocupa o 2º lugar de miséria neste continente, parece impossível pensar e ter a possibilidade de pensar (…) na vida. Porque aqui o que se impõe é a morte. Morte para todos os lados. Estamos nesse limite e o poder transnacional sufoca todas as expressões de vida que surgem das comunidades, sejam urbanas ou rurais”.

Foto: divulgação

E faz a seguinte pergunta: “O que propõe uma sociedade como essa aos jovens? Propõe o narcotráfico, consumo de drogas, maras[1], miséria, desemprego. Essa é a proposta deste sistema neste país”. E para as mulheres não se apresentam propostas de vida, o que existe a elas são propostas de mortes, inumeradas por ela, em razão da violência extrema em todos os sentidos, exploração e opressão. “E para os povos indígenas, praticamente, a desaparição dos mesmos”.

Foi junto ao COPINH que ela encontrou as raízes com seus ancestrais indígenas, lencas. Um lugar de avanços importantes e de análises coletivas (local e comunitária) com um grande valor. Emergiram questões sociais enfrentadas pelo povo indígena hondurenho de longa data. O racismo estrutural que se apresenta nessa sociedade no desprezo aos povos indígenas, é uma delas.

Não foi à toa e não terá sido em vão a sua luta. A trajetória de Berta Cáceres como de Marielle Franco, se retroalimentam no simbólico e no material da luta que elas construíram junto aos seus pares durante anos, nas mais diferentes trincheiras. Recordaremos delas, como sendo as mulheres que desafiaram as alianças patriarcais que carregam consigo as cruéis fissuras coloniais deixadas em todo o continente.

Em uma homenagem feita a ambas pelo COPINH, no dia internacional de luta feminista, a organização reafirmou sua posição intransigente frente à essa disputa antagônica que enfrentam as mulheres: “queremos deixar claro que vamos seguir em pé de luta contra o patriarcado que busca atacar nosso corpo, silenciar nossa vida e amansar nosso espírito. Vamos seguir lutando contra o patriarcado das empresas extrativistas, a militarização de nossas sociedades e também contra aqueles, que fazendo chamar-se de companheiros querem reproduzir a violência legitimada pelas instituições de opressão”.

Hoje nós mulheres estamos nos dando conta das duras correntes que nos prendem, que nos detém violentamente, das quais queremos nos libertar. É sob a forma de ameaças, torturas e violências que extrapola as fronteiras entre público e privado, que tentam colonizar mais uma vez nossos corpos mestiços, nossas vidas, nossas crenças, nossos territórios, nossos saberes. É por isso que Berta, Mariele e tantas outras mulheres que ergueram batalhas em vida se convertem em sementes, se mutiplicam em força indivisível, que brota no interior de cada luta, de muitas lutas. Elas foram mulheres capazes de romper com as travas colocadas por este sistema de injustiças.

Berta Cáceres, presente! Marielle Franco, presente! Lupe Campanur, presente! Dilma Ferreira, presente!

Este material foi produzido a partir dos vídeos: La Voz Lenca No se Calla (2013), Berta Cáceres: sus propias palabras (2016) e Guardianes de los ríos (2016), disponíveis em youtube, e de reportagens e notas encontradas em websites.

 

[1]Nome dado as facções do crime organizado em países da América Central.




Nicole é feminista, latino-americana, mulher cis e migrante. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestre em Serviço Social pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Doutoranda em Sociologia, estuda teorias feministas, luchas de mulheres e feminismos na América Latina e espacilidades.
Veja a coluna da Nicole Ballesteros Albornoz