As mulheres são protagonistas na continuidade da identidade do grupo

As guardiãs do saber culinário do grupo Mbyá-Guarani

Postado em 20/08/2017, 12:02

Os ensinamentos sobre a culinária do grupo Mbyá-Guarani começam na infância por meio de brincadeiras, e seguem até a vida adulta através de observação e experimentação compartilhada. Toda influência que vem de fora da aldeia não foi suficiente para mudar radicalmente os elementos da tradição deste povo. À frente dessa resistência estão as mulheres: guardiãs da língua, dos saberes sobre alimentos, plantas medicinais e modos de fazer. O documentário Orérembiú Eteí (nossa própria comida), retrata a rotina de preparo da alimentação pelas moradoras da aldeia vy’a, em Major Gercino, na Grande Florianópolis, e reflete sobre a importância desse ritual na preservação da identidade do grupo.

“O vínculo do grupo Mbyá-Guarani com a alimentação está diretamente relacionado ao território, à cosmologia, aos rituais e às práticas relacionadas à saúde. A continuidade da agricultura Guarani é essencial para a permanência da agrobiodiversidade e da segurança alimentar do grupo”, afirma a diretora Vandreza Amante.

Vandreza explica que as imagens foram captadas livremente de acordo com a narrativa proposta pelo grupo. Em entrevista, a jornalista e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da FURB contou sobre a experiência na aldeia e as dificuldades encontradas pelo grupo para assegurar sua continuidade. O curta foi exibido na mostra audiovisual do Seminário Fazendo Gênero e em escolas de ensino fundamental e médio de Brusque, Guabiruba e Blumenau.

O grupo Mbyá-Guarani habita desde tempos imemoriais as terras que se estendem entre o Uruguai, Argentina, Paraguai, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

A jornalista atuou na captação de imagens, entrevistas e edição/Foto: Daniela Matthes

Catarinas: Como surgiu a ideia do projeto?
Vandreza
: Surgiu da experiência de campo para a pesquisa de mestrado. O documentário pretendeu descrever e analisar como se dá a atual alimentação na reserva indígena Mbyá-Guarani tekoá vy’a. O foco é a alimentação e identidade do grupo, os conflitos que este vem vivendo em consequência dos impactos que o contato com a sociedade envolvente tem promovido, desde a perda dos seus territórios imemoriais com a colonização do sul do Brasil pelos portugueses. Sua resistência tem sido silenciada pelo governo e por grupos políticos interessados em seus territórios para fins puramente econômicos. O propósito foi identificar como esse grupo vem se organizando em torno das mudanças alimentares promovidas por conta dessa situação, permitindo entender como afetaram a sua subsistência e alimentação, os prejuízos advindos para a sua saúde e identidade, até a situação atual, onde o grupo, reencontrando uma terra favorável à produção da sua dieta está buscando se reorganizar na sua tradição. O objetivo é colaborar com reflexões sobre a importância do território para a continuidade da tradição alimentar dos grupos indígenas e da sua identidade, já que a comida faz parte da construção desta identidade.  Com as informações em mãos decidimos em conjunto produzir o vídeo sob orientação da Profª. Drª. Marilda Checcucci.

O audiovisual permite um questionamento sobre paradigmas e modelos de desenvolvimento aplicados indistintamente em todo o território local e nacional, desconsiderando as especificidades culturais de suas populações, incluindo as alimentares.

Como foi o acesso, a troca com as pessoas que habitam a comunidade?
Conheci parte do grupo em 2006 quando estava morando em Florianópolis. Mudei-me para Brusque em 2010 e novamente entrei em contato com os Mbyá-Guarani por conta de uma atividade em um projeto em que trabalhava. Marcelo Benite “karaí xondaro”, Cláudia Benite “pará mirim” e Augustinho Moreira “werá tukumbó” fizeram uma palestra para crianças e foi muito positivo porque elas fizeram muitas perguntas. Em seguida, conheci o responsável pela aldeia Artur Benite “werá mirim” por conta do início de uma pesquisa de mestrado intitulada “Mbyá-Guarani, alimentação e identidade no território: a aldeia vy’a – Major Gercino (SC)”.

A experiência está sendo transformadora. Os Mbyá-Guarani veem o mundo de uma maneira muito particular, com um profundo respeito pela natureza e pelas pessoas. Vejo que temos muito a aprender com eles.

Quais línguas as moradoras e moradores falam? Como foi a comunicação durante as gravações?Todos falam Guarani. Que dizer, eu não. Aprendi algumas palavras. Os moradores e moradoras da aldeia falam diversas línguas como o português e o espanhol, inclusive outras línguas de outros povos originários. Mas para a gravação do vídeo eles falaram em português. Algumas ideias são expressadas em Guarani, primeiro pelo sentido de pertencimento ao grupo e segundo pela não tradução literal para a Língua Portuguesa. Já concretizamos outras parcerias, algumas em Guarani, que estão disponíveis pelo youtube no canal orérembiú eteí.

Assista ao documentário completo

De alguma forma as questões relacionadas às mulheres e gênero foram abordadas no doc?
Percebi que as influências da sociedade envolvente não foram suficientes para mudar radicalmente todos os elementos da tradição do grupo Mbyá-Guarani, em especial das mulheres que permanecem em busca de soluções para dar continuidade ao seu modo de ser. Essas mulheres resguardam a língua, os saberes sobre alimentos e plantas medicinais, os modos de fazer as comidas, a responsabilidade sobre a gestação, o parto e a educação dos filhos. Elas são protagonistas em diversos cenários. São determinadas no dia a dia da aldeia e contribuem decisivamente para discussão sobre identidade e gênero no grupo. Dentro e fora da aldeia.

As mulheres falam pouco no vídeo. O que isso revela?
O silenciamento das mulheres no vídeo indica as posturas cotidianas na aldeia e as interferências nas relações entre os indígenas e a sociedade envolvente onde os homens (nesse primeiro vídeo gravado nessa aldeia) são os protagonistas da voz para fora da aldeia e as mulheres com suas vozes dentro da aldeia para a família extensa. Ela é protagonista na educação e na postura do ser e devir.

As mulheres atuam em busca de soluções para dar continuidade ao modo de ser do povo/Foto: Paula Sofia

O que a troca com essas pessoas te trouxe? Você mantêm contato com as mulheres e homens desta comunidade?
O contato é permanente e me trouxe muitas reflexões que contribuíram para minha formação. Sou jornalista e acredito na crescente democratização que a internet vem promovendo com os diferentes canais de acesso à informação e às diferentes verdades. Principalmente no contexto atual de incertezas e instabilidades. A experiência colaborou para que eu conseguisse encontrar estratégias de ação frente às batalhas frequentes que nos deparamos nas relações de opressão.

Quais as principais barreiras encontradas para o exercício do direito à saúde (e outros direitos) desses povos?
Pelo que vejo são inúmeras. O que o grupo tem acesso hoje ainda não é o suficiente. O governo está mais uma vez virando as costas. A discussão do que é mais adequado sempre deve partir do grupo em foco, mas acredito um caminho seria que programas de saúde fossem voltados às especificidades dos grupos populacionais com a utilização de medicamentos industrializados e naturais que respeitem a cosmologia de cada grupo. A adequação, por exemplo, de políticas alimentares que contribuam para a identidade da aldeia. A capacitação de agentes locais para o atendimento efetivo nas aldeias com médico, enfermeiro, dentista, uma equipe multidisciplinar. A demarcação de terras também é saúde. Há uma relação assimétrica entre as prioridades das comunidades e dos grupos de poder.

Que outras questões foram suscitadas com a vivência?
As terras da aldeia foram adquiridas por iniciativa do grupo em 2007 com recursos advindos do convênio entre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes/DNIT e a Fundação Nacional do Índio/FUNAI pela duplicação da BR-101 trecho Palhoça – Osório. Nesse projeto governamental em média trinta aldeias de diferentes grupos foram impactadas. Atualmente os Mbyá-Guarani, assim como outros povos originários, lutam principalmente pela demarcação de terras para assegurar a continuidade do grupo, da tradição e do sistema alimentar, já que há um crescente número de nascimentos de crianças nas aldeias. O grupo estabelece diariamente o modo de ser Mbyá com pensamentos coletivos, ações e estratégias que assegurem a vida de suas famílias e a preservação do meio ambiente para as futuras gerações. Até os dias atuais o grupo Mbyá-Guarani habita um grande território demarcado em pequenas áreas. Visitam constantemente seus parentes em busca de sementes naturais para o fortalecimento de referências identitárias nas conversas com os xeramõi, os mais sábios. A demarcação de terras é fundamental. O grupo Mbyá-Guarani tem uma relação imemorial com o seu território. Sua cosmologia está diretamente relacionada com a língua, mitos, cantos, artesanato, dança, plantas medicinais, animais, alimentação entre outros elementos. Habitam o território entre o Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Alimentavam-se antes do contato a partir da colonização com o que estava disponível principalmente na Mata Atlântica como tubérculos locais, animais como porcos do mato, patos selvagens, aves, peixes, frutas pertencentes à floresta. Atualmente na aldeia vy’a o grupo possui criação de animais como algumas espécies de galinhas, plantam milho, batata-doce, mandioca, cana-de-açúcar, melancia, abacaxi, amora, banana, mamão, amendoim, maracujá, plantas medicinais, além de uma horta com alimentos incorporados mais recentemente à sua tradição alimentar como alface, cebolinha e salsinha. Praticam a pesca no Rio Tijucas. Recorrem à compra de alimentos e eventuais doações.

Você tem projetos para dar continuidade a esse trabalho?
Continuamos a aprofundar a pesquisa com o enfoque nas relações que permeiam a alimentação da criança Mbyá-Guarani. Para que consigamos perceber essa realidade abordaremos a escola indígena e a merenda escolar como uma política pública já consolidada na aldeia. Trazemos essa reflexão sobre a alteração do sistema alimentar do grupo para que se possa perceber as referências identitárias que integram a cosmologia do modo de ser Mbyá-Guarani e a negligência do Estado que desconsidera essa realidade. As mulheres do grupo chamam atenção para o desafio que representa para mulheres e homens Guarani assegurar sua alimentação. Uma outra discussão é o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) que incluiu a comercialização da produção rural indígena para a merenda escolar adquirida pelo Selo da Identificação da Participação da Agricultura Familiar (Sipaf). O alimento principal da dieta Guarani é o milho dito por eles como avaxí que pode ser consumido na escola assado, cozido, como farinha ou transformado em pamonha, canjica, sucos e pães, com o grupo de crianças da mesma comunidade.  Esse é um passo inicial para o reconhecimento da diversidade alimentar e cultural do território, que precisa ser discutida e ancorada nos preceitos éticos do grupo. A proposta é refletir sobre a alimentação de diferentes organizações sociais e identificar processos que contribuam com o reconhecimento dos grupos, populações tradicionais e povos originários nas políticas públicas de desenvolvimento regional e territorial.

Orérembiú eteí foi financiado pelo Edital Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura, de 2014.




Jornalista, cofundadora e diretora executiva do Portal Catarinas.
Veja a coluna da Paula Guimarães