Álbum Retrato Falado traz doze composições próprias/Foto: Guilherme Meneghelli

A voz do feminismo negro no primeiro álbum de Dandara Manoela

Postado em 02/09/2018, 19:14

“Essa música é um pouco da história da minha bisavó, um pouco da história da minha vó, um pouco da história da minha mãe, um pouco da minha história, e infelizmente história de tantas e tantas mulheres, se chama Retrato Falado”. A faixa que dá nome ao álbum afirma o caráter político das composições que Dandara Manoela traz ao mundo em seu primeiro trabalho solo. Com doze obras que transitam entre o samba e a MPB, Retrato Falado foi financiado coletivamente por meio da plataforma Catarse. O lançamento ocorre na próxima terça-feira, 4 de setembro, às 20h, no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis.

“Estou realizada por ter concluído o financiamento coletivo e por ter dado tudo certo. O lançamento é um momento de celebração, porque a maioria das pessoas já conhece as músicas. Um momento que quero estar com as pessoas que eu amo. Espero e estou confiante que elas estarão comigo. É a materialização do trabalho, reúne tudo de um ano pra cá, quando comecei a colocar minhas músicas na roda”, conta a cantora que começou a compor há três anos.

O álbum completo está disponível em plataformas como Youtube e Spotify.

Uma das vozes potentes do movimento afro-feminista Cores de Aidê, Dandara tem no nome*, na cor e na poesia, a resistência frente ao machismo e ao racismo da sociedade. A visibilidade das mulheres negras e suas questões mais urgentes são parte central de sua obra.

“Esse álbum tem muito engajamento. Eu uso a música como ferramenta de transformação, um instrumento para fazer política. Mas tem muito sobre amor e afeto, que é isso que me alimenta, que me deixa em pé. É um balanço de todos esses sentimentos, muito pessoal, um retrato mesmo, um espelho, mas sinto cotidianamente que também acaba tocando e encontrando outras pessoas”, diz. 

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Todas as doze faixas do CD são de composição própria. Pelo menos três canções contam histórias de mulheres fortes como Mulher de Luta, Dona Georgina e Retrato Falado. Em Retrato Falado, Dandara traça a linha de sua história de vida perpassada pela trajetória das suas antepassadas. Temas como violência doméstica, agressão policial e aborto são marcas presentes na memória de uma “geração de mulheres que sofrem o abuso da solidão”, como diz parte da letra.

“Quando tive acesso às histórias achei que seria perfeito para o nome do álbum, porque é um misto de sentimentos e sensações. É um pouco de mim, mas espelha essa coisa do retrato do que acontece com mulheres em geral, mulheres negras ou com a população pobre, enfim com várias pessoas que acabo representando neste ser que sou”, revela.

Foto: Guilherme Meneghelli

Dandara Manoela é cantora, compositora e percussionista.  Promotora de manifestações culturais afro-brasileiras, ela se afirma como mulher negra e lésbica no campo artístico. Campineira de nascimento, atualmente mora em Florianópolis, onde divide seu tempo entre a música e o curso de serviço social na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Em 2017, a compositora venceu o Prêmio da Música Catarinense nas categorias melhor cantora e artista revelação com a Orquestra Manancial.

“Esse status de melhor cantora não significa nada da forma literal. Mas significa muito pra mim ter esse reconhecimento de forma simbólica, pensando em uma mulher negra em Florianópolis, Santa Catarina, esse estado super racista. E isso vai além de mim. É um prêmio coletivo mesmo”, afirma a cantora.

A artista conquistou visibilidade na internet com músicas como “Mulher de Luta”, gravada pelo canal REC’n’Play, e “Dona Georgina”, registrada pelo projeto Playing For Change. Além das composições autorais, faz interpretações de samba, MPB e brasilidades em parceria com musicistas locais. Vocalista da banda e do bloco de samba reggae Cores de Aidê, integra também a Orquestra Manancial da Alvorada, onde explora instrumentos percussivos, junto com a voz. Em 2015 e 2016, estudou canto e teoria musical na ELM (Escola Livre de Música). Nos últimos anos, dividiu o palco com nomes importantes da música brasileira, como Larissa Luz, Russo Passapusso, Francisco, el hombre e Dona Onete.

O CD estará à venda no dia do show. O lançamento terá na banda base Ubrother (percussão), Jeff Nefferkturu (violão), Mateus Romero (baixo), Rafael Oliveira (violão), Dri Zampieri (bateria), Anis de Flor e Mércia Maruk (vocal), além de participações especiais.

*Dandara dos Palmares foi uma das lideranças do Quilombo dos Palmares, onde negras e negros que fugiam da escravidão podiam encontrar refúgio e organização política. Foi esposa de Zumbi e, como ele, lutou com armas pela libertação total das negras e negros no Brasil.

 




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