Não basta dizer que se é contra a violência às mulheres. É preciso observar o que um governante faz quando uma mulher é violentada diante das câmeras, como trata mulheres que o confrontam, o que propõe para enfrentar o feminicídio e que educação oferece às novas gerações.

No último fim de semana, vimos uma advogada, Fernanda Klitzke, candidata a suplente ao Senado pelo PT, ser imobilizada, atingida por disparos de bala de borracha e chutada durante uma ação da Polícia Militar em Jaraguá do Sul. A própria PM informou que a ocorrência será investigada pela Corregedoria. 

Diante das imagens, o governador de Santa Catarina que tenta a reeleição, Jorginho Mello, não pediu apuração independente nem demonstrou solidariedade à mulher ferida. Preferiu transformar o episódio em confronto eleitoral, afirmando que se tratava de uma “tentativa da esquerda de montar uma armadilha contra a PM”.

Não é a primeira vez que a reação do governador diante de uma mulher que o interpela revela muito sobre sua maneira de exercer o poder. Em julho, dentro da Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ, Jorginho respondeu com agressividade e proferiu ofensas às lideranças indígenas que protestavam durante uma visita dele à barragem de José Boiteux. 

A comunidade cobrava o cumprimento de medidas de compensação relacionadas aos impactos da barragem, entre elas moradias e outras estruturas previstas para o território. Durante entrevista concedida no local, o governador chegou a afirmar que o Estado estava recuperando o que teria sido “destruído pelos indígenas”, o que provocou novas reações dos manifestantes. 

Quando a cacica Antônia Paté exigiu respeito e afirmou sua autoridade, ouviu do governador: “E eu com isso?”. O episódio levou o Conselho Nacional de Direitos Humanos a acionar a Procuradoria-Geral da República.

Esses episódios não podem ser analisados isoladamente do projeto político que Jorginho representa.

Violência contra as mulheres em Santa Catarina

Santa Catarina atravessa uma crise persistente de violência de gênero. Seu próprio governo instituiu um Plano Estadual de Combate à Violência contra as Mulheres para 2025–2035. Até 2027, o documento prevê, entre outras medidas, levar conteúdos sobre prevenção da violência de gênero a 40% das escolas estaduais, criar quatro novas delegacias especializadas e manter o monitoramento eletrônico de agressores ativo em 50 municípios prioritários. 

As propostas, no entanto, contrastam com a realidade concreta. Não há delegacia dedicada 24 horas às denúncias de violência contra as mulheres. Em maio, inspeções que motivaram uma fiscalização do Ministério Público apontaram graves deficiências estruturais e operacionais nas delegacias especializadas, incluindo falta de privacidade e acúmulo de ocorrências sem instauração de inquérito. 

Algumas das unidades criadas neste ano, por sua vez, passaram a funcionar nos mesmos prédios das delegacias existentes, com redistribuição do efetivo, sem contratação de novos policiais ou formação especializada. Além disso, Santa Catarina continua sem uma Casa da Mulher Brasileira. Prevista para o estado há mais de uma década, a unidade de Florianópolis ainda estava, em agosto, na etapa de articulação entre os órgãos responsáveis por sua implantação. 

É nesse contexto que Jorginho pede mais quatro anos de governo sem apresentar à população compromissos específicos para enfrentar o problema. Em seu plano para 2027–2030, sequer aparecem as expressões “feminicídio” e “violência contra as mulheres”.

A omissão ganha significado ainda maior quando observamos aquilo que seu grupo político escolhe enfrentar com energia: a educação capaz de questionar as estruturas que sustentam essas violências.

O ataque ao gênero nas escolas é uma escolha política

Em janeiro, Jorginho sancionou uma lei contra a chamada “doutrinação política e ideológica” nas escolas estaduais, retomando princípios associados ao Escola Sem Partido. Meses depois, sancionou outra legislação permitindo que famílias impeçam estudantes de participar de atividades pedagógicas sobre identidade de gênero, orientação sexual e igualdade de gênero.

É justamente na escola que meninas e meninos podem aprender a reconhecer desigualdades, questionar papéis rígidos de gênero, identificar relacionamentos abusivos e compreender que violência não é demonstração de amor nem atributo natural da masculinidade. Impedir ou dificultar essa educação não é neutralidade. É uma escolha política.

Existe uma profunda contradição em afirmar que se pretende combater a violência contra as mulheres enquanto se enfraquecem os espaços capazes de enfrentar culturalmente o machismo que a produz.

A própria Lei Maria da Penha reconhece a educação como espaço estratégico para prevenir a violência, ao prever a inclusão, nos currículos escolares, de conteúdos sobre direitos humanos, equidade de gênero e enfrentamento à violência doméstica. Restringir essas discussões significa caminhar na direção contrária ao que determina uma das principais legislações brasileiras de proteção às mulheres. 

Por isso, a pergunta que fazemos não é apenas o que Jorginho Mello pensa sobre as mulheres. Perguntamos que sociedade seu projeto político reserva para elas.

Uma sociedade em que uma mulher agredida por agentes públicos é imediatamente transformada em adversária política; em que uma liderança indígena que exige respeito é hostilizada pelo governador; em que o feminicídio não merece sequer aparecer entre as prioridades apresentadas para um novo mandato; e em que ensinar igualdade de gênero passa a ser tratado como ameaça.

A violência contra as mulheres não começa no feminicídio. Ela é construída muito antes: na desumanização, no silenciamento, na desigualdade e na naturalização da autoridade masculina. E é também muito antes que o Estado tem a obrigação de enfrentá-la. Mas Jorginho Mello decidiu reforçar a violência de gênero em seus discursos, atos e omissões.

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