A jornalista, escritora e feminista Maria Amélia de Almeida Teles, conhecida como Amelinha Teles, morreu nesta terça-feira (15), aos 81 anos. Uma das grandes referências do feminismo brasileiro e da luta por memória, verdade e justiça, ela enfrentou a ditadura militar, sobreviveu à prisão e à tortura e dedicou as décadas seguintes a transformar as violências que atravessaram sua história em luta coletiva por democracia e pelos direitos das mulheres.

Nascida em Contagem (MG), em 6 de outubro de 1944, Amelinha começou a militância política ainda jovem. Participou da resistência à ditadura militar, integrou o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e atuou na imprensa clandestina, produzindo materiais que denunciavam os crimes do regime. Da resistência à organização feminista, sua trajetória se estende por décadas de lutas sociais no Brasil.

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Crédito: Alesp.

Por Memória, Verdade e Justiça

Em 28 de dezembro de 1972, Amelinha foi presa junto ao então marido, César Augusto Teles, e ao dirigente do PCdoB Carlos Nicolau Danielli. Levados para as instalações da Operação Bandeirantes (Oban), em São Paulo, Amelinha e César foram submetidos a torturas. Carlos foi assassinado pelos agentes da repressão.

Amelinha denunciou que as torturas foram praticadas sob o comando de Carlos Alberto Brilhante Ustra, então comandante do DOI-Codi de São Paulo. Seus filhos, Janaína e Edson, que tinham 5 e 4 anos, também foram sequestrados pelos agentes da ditadura e levados ao local onde os pais eram torturados.

Durante décadas, Amelinha testemunhou sobre os crimes cometidos pelo Estado e reivindicou a responsabilização de seus autores. A persistência da família Teles resultou em uma decisão histórica: em ação declaratória apresentada em 2005, pediu à Justiça o reconhecimento da responsabilidade de Ustra pelas torturas. Em 2008, ele se tornou o primeiro agente da ditadura brasileira reconhecido judicialmente como torturador. A decisão foi mantida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2014.

A ditadura mirou as mulheres

Amelinha também dedicou parte de sua trajetória a revelar uma dimensão das violências da ditadura que permaneceu por muito tempo silenciada: a forma como o aparato repressivo utilizou as violências de gênero para torturar e humilhar mulheres.

Em 2019, ela escreveu para o Portal Catarinas o artigo “Estupros praticados por agentes de estado: crimes contra a humanidade”, em que denunciou o uso da violência sexual como método de tortura e repressão política.

No texto, Amelinha mostrou como estupros, desnudamento forçado, choques nos órgãos genitais, abortos provocados, separação dos filhos e ameaças contra crianças fizeram parte das práticas empregadas pelo aparato repressivo brasileiro. 

As violências da ditadura atingiram mulheres, homens e crianças, mas, contra elas, a crueldade era atravessada também pelo machismo e pela tentativa de puni-las por romperem com os lugares que lhes eram socialmente impostos.

“As mulheres que lutavam contra a ditadura fugiam do seu papel tradicional, de mãe, esposa, do lar. Elas, mesmo que estivessem proibidas, iam às ruas para mobilizar a opinião pública em favor das liberdades democráticas, enfrentavam os policiais, faziam panfletagens, pichações, escreviam e traduziam textos, organizavam passeatas, distribuíam material de propaganda das ideias democráticas. Fugiam ao estereótipo imposto a elas e criavam condições subjetivas e objetivas para que as gerações futuras não mais fossem submetidas ao patriarcado, ao machismo e à misoginia”, escreveu.

Ao recuperar os testemunhos das sobreviventes, Amelinha também denunciou a permanência da impunidade. Para ela, reconhecer esses crimes como crimes contra a humanidade era parte da luta por verdade e justiça para as mulheres que resistiram ao regime. “Oxalá, chegue logo este dia!”, finalizou.

Legado feminista de Amelinha Teles

Amelinha fez da defesa dos direitos das mulheres uma luta para toda a vida.

Participou do jornal Brasil Mulher, uma das publicações pioneiras da imprensa feminista no país durante a década de 1970. Mais tarde, esteve entre as fundadoras da União de Mulheres de São Paulo e se tornou uma das principais articuladoras das Promotoras Legais Populares (PLPs), iniciativa de educação popular feminista que forma mulheres para conhecer, reivindicar e multiplicar direitos em suas comunidades.

Também integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e atuou junto à Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva e à Comissão da Memória e da Verdade da Prefeitura de São Paulo.

Como escritora, registrou parte da história das lutas feministas brasileiras em livros como Breve história do feminismo no Brasil e O que é violência contra a mulher, escrito com Mônica de Melo. 

Ainda em março deste ano, aos 81 anos, denunciava o crescimento da violência contra as mulheres e a insuficiência das políticas de proteção. Em audiência pública sobre violência doméstica e familiar, em São Paulo, cobrou serviços públicos qualificados, fiscalização das medidas protetivas e participação dos movimentos feministas na construção das políticas públicas.

“Nós estamos perdendo o direito de ir e vir, esse direito fundamental que está lá na Constituição”, afirmou. 

O Catarinas agradece a Amelinha Teles por uma vida inteira de luta. Pela coragem de enfrentar a ditadura e o silêncio, pela insistência na memória, na verdade e na justiça e por fazer do feminismo uma prática cotidiana de transformação. 

Honramos seu legado e os caminhos que ajudou a abrir para tantas mulheres e para as gerações que seguem lutando por democracia, liberdade e uma vida sem violências. Nos solidarizamos com seus familiares, amigas, companheiras de militância e todas as pessoas que tiveram a vida atravessada por sua história. 

Obrigada, Amelinha, por tanto.

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