O Julho das Pretas de 2026 tem como eixo central a reparação histórica e o Bem Viver, dando continuidade às reivindicações apresentadas na 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada em 2025, em Brasília (DF). 

Criado em 2013 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, em Salvador (BA), o Julho das Pretas é uma ação política de alcance nacional que marca a luta contra o racismo, o machismo e as desigualdades sociais. A mobilização é articulada em torno do dia 25 de julho, data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, líder quilombola que se tornou símbolo de resistência.

Durante todo o mês, é realizada uma programação intensa e descentralizada em diversos estados. Articulada por centenas de coletivos e organizações do movimento negro, a agenda reúne marchas de rua, seminários, oficinas de formação política, feiras de empreendedorismo afro e manifestações culturais.

Para Naiara Leite, coordenadora executiva do Odara, a edição deste ano representa um desdobramento da Marcha, consolidando as diretrizes políticas e documentos construídos por coletivos de todo o país:

“A marcha foi importante para fortalecer a luta das mulheres negras em diferentes aspectos: do ponto de vista da ampliação, da mobilização, articulação e organização. Então esse Julho vem nessa dimensão, para reforçar que ainda há um conjunto de impactos, de violências e de violações contra mulheres, meninas e populações negras no Brasil”, afirma.

Ela avalia que a Marcha fortaleceu a presença do movimento negro em instâncias internacionais, como as Nações Unidas, e impulsionou debates no Governo Federal e no Judiciário, incluindo a pauta de reparação histórica, a política de cuidados e o enfrentamento ao feminicídio. Segundo Naiara, o mês reafirma que o combate ao racismo estrutural exige articulação contínua na disputa por um novo projeto de sociedade pautado no Bem Viver.

“Precisamos seguir em uma ação radical para pensar e construir o hoje e o futuro, disputando qual é esse pacto do bem viver e qual é o projeto político para a sociedade brasileira que as mulheres negras vêm construindo”, emenda.

Reparação e Bem Viver

A coordenadora do Odara explica que os conceitos de reparação histórica e Bem Viver caminham juntos e são indispensáveis para a construção da agenda política do movimento. Ela destaca que a Marcha levou ao debate público o modelo de reparação defendido pelas mulheres negras, baseado na restauração da memória, no direito à história e a respostas imediatas do Estado para as violências do passado e do presente, como o extermínio da juventude negra.

2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras. Crédito: Gabriel Albernás

Para Naiara, enfrentar os  impactos acumulados do racismo é a única forma de garantir a preservação e a valorização das vidas negras no país. Essa perspectiva expressa a recusa do movimento de mulheres negras em abrir mão da dignidade, do direito ao futuro e da possibilidade de sonhar.

Embora o Bem Viver seja um eixo comum da mobilização, o conceito ganha reivindicações específicas conforme o contexto regional e social. 

Maria das Dores, conhecida como Durica, cofundadora da Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira, reforça que a construção do Bem Viver passa pela defesa do território, da sustentabilidade e do respeito à natureza. Segundo a liderança, as mulheres negras da região oferecem ao país alternativas concretas de desenvolvimento ao propor uma nova relação com o meio ambiente:

“Nós, as mulheres negras, já praticamos a geopolítica do Bem Viver, do cuidado com o direito humano, ao olharmos para a natureza como sujeito de direitos e de cidadania. Não dá para falar em Bem Viver sem falar em sustentabilidade”, afirma Durica.

A ativista pondera, contudo, que a Amazônia abriga identidades múltiplas e que a reparação também exige olhar para as disparidades entre o meio urbano e o interior. Para ela, a consolidação do feminismo negro afro-amazônico precisa garantir que o avanço das lideranças no debate público traga junto as parteiras, artesãs, ribeirinhas e quilombolas, guiando-se pelo princípio de que “quando uma sobe, puxa a outra”, para que o Bem Viver alcance todos os territórios.

Dez anos depois da primeira marcha: o que mudou?

Para entender os avanços e os desafios que ainda marcam a vida das mulheres negras no país, o estudo inédito “Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasil” analisou o período entre a primeira Marcha, em 2015, e a segunda, em 2025. Produzido por Gênero e Número, Observatório da Branquitude e Oxfam Brasil, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras, o levantamento examinou indicadores sobre saúde, trabalho, educação, presença na política e direitos como maternidade, moradia e meio ambiente.

O estudo revela avanços importantes na educação: entre 2010 e 2022, a presença de mulheres negras nas universidades públicas subiu de 15% para 22%, e o número de diplomadas no ensino superior disparou 194%. Em contrapartida, a desigualdade persiste no acesso a carreiras de maior renda, como medicina, direito e engenharia, que continuam sendo ocupadas majoritariamente por pessoas brancas.

O levantamento também expõe o cenário alarmante da violência. Os registros de violência doméstica contra mulheres negras dispararam 185% em dez anos, um aumento duas vezes maior do que o registrado entre mulheres brancas. Além disso, no recorde de feminicídios alcançado no país em 2024 (1.492 casos), mais de 63% das vítimas eram negras, evidenciando as falhas do Estado nas políticas de prevenção, proteção e acesso à justiça.

No campo da política institucional, a presença de mulheres negras entre as parlamentares eleitas para o Congresso Nacional subiu de 17% para 31% entre 2018 e 2022. Apesar disso, elas ainda enfrentam barreiras econômicas e estruturais que limitam sua presença. A chance de um homem branco ser eleito (8,8%) continua sendo quase seis vezes maior do que a de uma mulher negra (1,5%). Esse descompasso faz com que elas ocupem apenas cinco de cada cem cadeiras na Câmara dos Deputados.

Na avaliação de Janira Sodré, da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), os dados  escancaram o abismo que ainda existe na representatividade formal e a urgência de olhar para além dos avanços na legislação:

“Se de cada 100 parlamentares na Câmara Federal, apenas cinco são mulheres negras, nós temos indicadores que mostram: se seguirmos nesse ritmo, precisaremos de um século para equalizar toda essa operação. Isso pontua os limites da representatividade formal”, afirma.

A ativista destaca que as fraudes nas cotas de financiamento de campanhas pelo controle dos recursos partidários por homens brancos e a violência política de gênero estão entre os principais fatores que dificultam a eleição de mulheres negras. Segundo Janira, o Congresso ainda é um ambiente hostil para essas parlamentares, o que exige do movimento novas estratégias de ocupação para que a presença feminina negra na política seja não apenas maior, mas também segura e efetiva.

Além do Legislativo, ela ressalta a importância de fortalecer e manter a estrutura do Poder Executivo voltada para essas pautas. Ainda de acordo com a ativista, a existência de pastas como o Ministério das Mulheres e o Ministério da Igualdade Racial, com orçamentos e equipes adequadas, é essencial para que as políticas de equidade sejam incorporadas de forma transversal em  todas as áreas do governo federal.

“A manutenção e a existência efetiva desses órgãos públicos gestores oportunizam a transversalização tanto das políticas para mulheres quanto das políticas de promoção da igualdade racial nos diversos ministérios e instituições públicas”, explica.

Por fim, a liderança da AMNB defende que sustentar politicamente a atuação dessas pastas é indispensável para que o poder público atue em favor da população negra, especialmente das mulheres negras. É essa presença dentro do Estado que garante recursos e viabiliza a implementação de políticas públicas nas áreas de saúde, educação, trabalho e segurança.

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  • ariele-lima

    Natural de Juazeiro, sertão baiano. Estudante de Jornalismo em Multimeios pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), c...

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