Após algumas notícias, procurei uma foto antiga. Era janeiro de 2010, na minha festa de formatura. O cara do meu lado era um amigo, não próximo, mas companhia de alguns bares e risadas. Nesta semana, esse homem foi preso e se tornou réu após ser denunciado por crimes como estupro, cárcere privado e violência psicológica contra dez mulheres. 

Ele não tinha um comportamento violento, era o que se poderia chamar de “bom moço”: educado, gentil, estudioso e dedicado à família. Passados 16 anos e sem nenhum contato, o que eu tinha conhecimento é que ele se tornou um advogado de sucesso, doutor e professor. Quem diria? Estupradores e homens agressores não são monstros escondidos nas sombras, sem amigos e família? Não. São filhos, amigos, irmãos e colegas.

A violência contra mulheres não é algo distante, do outro, do homem mau. É parte de nossas relações sociais, das formas mais sutis de violência, como o silenciamento e o assédio socialmente aceito em forma de brincadeira, à violência física e sexual.

Toda mulher já sofreu algum tipo de violência. Mas ainda nos faltam recursos para lidar com isso, seja pela descredibilização, seja pela dor de se reconhecer como vítima.

No caso citado, as vítimas que concederam declarações, contaram que tinham uma relação de confiança com o agressor, que ele conhecia suas famílias. Essa relação não é exceção nos casos de violência sexual. Na maioria deles, as vítimas conhecem seus agressores. Em 2024, por exemplo, vítimas menores de 14 anos foram violentadas majoritariamente por familiares, que são os agressores em 59,5% dos casos. Já em estupros praticados contra pessoas de 14 anos ou mais, 26,7% dos casos tiveram como agressor o companheiro e 26,6% um familiar. O ex-companheiro da vítima foi o agressor em 10,5% dos casos. 

Esses dados, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, ajudam a contextualizar outro caso recente: o de uma menina de 17 anos que sofreu um estupro coletivo após um ex-namorado, também menor, organizar uma emboscada com outros quatro agressores, esses maiores de idade. Mais uma vez, havia uma relação de confiança. E, mais uma vez, havia a percepção da impunidade. 

Os agressores, nos dois casos, são brancos e de classe média. Além dos privilégios de raça e classe, provavelmente contam com a vergonha e o medo das mulheres violentadas, que foram ao encontro deles, aceitaram, até um certo ponto, a relação, beberam demais… não foram “boas vítimas”.

Na pesquisa Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro (Instituto Patrícia Galvão/Locomotiva, 2025), 16% das mulheres entrevistadas afirmaram já ter sido vítimas de estupro. Dessas, apenas 15% das vítimas estupradas quando menores de 13 anos e 11% das que sofreram a violência já maiores de 14 anos foram atendidas pela polícia. No sistema de saúde, apenas 9% e 14% tiveram atendimento, respectivamente. 

Muitas das mulheres relataram desconhecimento sobre a violência sofrida, enquanto outras disseram que demoraram para entender que o ocorrido foi um estupro. Para além disso, há o temor da violência ser relativizada ou não reconhecida, em um processo que culpabiliza as vítimas.

No caso do advogado, uma denúncia levou a outras. Algo semelhante ocorreu após a notícia do estupro coletivo e da divulgação da identidade dos suspeitos: outros dois casos de violência sexual contra menores envolvendo os possíveis agressores estão sendo investigados. A divulgação dos casos não serviu como uma “caça às bruxas” promovida por mulheres rejeitadas e vingativas, mas para que outras mulheres pudessem reconhecer que, independentemente de qualquer contexto, sem consentimento, também foram vítimas de violência.

Para além do plano legal, é urgente o debate sobre a misoginia. Esses casos não são sobre sexo. São sobre poder, sobre coisificação, sobre desumanização de mulheres. 

Que o não seja o limite, não uma possibilidade.

Que o drink seja celebração, não uma abertura.

Que a roupa curta seja liberdade, não um convite.

Que sexo seja vontade, não uma violência.

Que a sociedade seja justa, não omissa.

Que você deseje enxergar, não ser indiferente.

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  • Lívia de Souza

    Feminista, doutora em Ciência Política, mestre em Direito e pesquisadora no Grupo Violência, Gênero e Saúde, na Fiocruz...

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