Em 1968, o Marrocos vivia, ao mesmo tempo, um período de reconstrução e mudanças sociais após a independência conquistada em 1956, e de instabilidade política sob o comando de Hassan II, fase conhecida como “anos de chumbo”, marcada por censura, prisões e execuções de dissidentes. É nesse contexto, entre velhas tradições e novos hábitos influenciados pelo ocidente, que Leïla Slimani situa Vejam como Dançamos (Intrínseca), livro lançado em setembro no Brasil e segundo de uma trilogia inspirada em gerações da família da autora.

Ao mesclar experiências individuais das personagens com a memória coletiva do Marrocos, a obra traz temáticas como a emancipação feminina, a falta de reconhecimento do trabalho do cuidado e a misoginia nas famílias e na sociedade.

O primeiro livro da trilogia, O país dos outros, lançado em 2024, narra a história de Mathilde, jovem alsaciana espirituosa, e Amine, soldado marroquino do exército francês. Após a guerra, o casal se instala no Marrocos e, enquanto Amine trabalha nas terras herdadas do pai, Mathilde rapidamente se sente sufocada pelo clima e pela cultura do novo país, tão diferente da sua. 

Leila-Slimani-retrata-o-Marrocos-entre-tradicao-misoginia-e-desejo-de-liberdade-feminina-capas.jpg
Crédito: Editions Gallimard e reprodução.

Na continuação publicada este ano no Brasil, o foco está nas histórias dos filhos do casal. Selim, o caçula, é um garoto indisciplinado que se prepara para o exame de ingresso na universidade. Enquanto Aïcha, a filha mais velha, estuda medicina em Estrasburgo e, ao retornar de férias ao Marrocos, conhece um estudante de economia idealista que a faz questionar a própria realidade. Ela representa uma geração que ascendeu pela educação, mas que não se libertou das expectativas impostas do que seria ser uma “boa mulher” e uma “boa esposa”.

Além de acompanhar os jovens que transitam entre a tradição e a cultura ocidental, Vejam como Dançamos traz a perspectiva de Mathilde como mulher que dedicou anos ao casamento e aos filhos, muitas vezes, sem reconhecimento. O marido, Amine, afirmava que somente ele trabalhou na relação e, por isso, poderia decidir como gastariam o dinheiro. O trabalho de Mathilde ao cozinhar, limpar e cuidar não é reconhecido pela família.

“Nesses momentos, tinha vontade de explicar a Amine, dizer que podia até parecer descanso, mas que ele estava enganado. Ele acha que ela faz tudo por amor, e a vontade dela é gritar: Isso que você chama de amor é trabalho! Seriam as mulheres assim tão cheias de afeto, de bondade, que podiam passar toda uma vida, sim, uma vida inteira, cuidando dos outros? Ao pensar nisso, Mathilde ficava quase louca de raiva. Havia alguma coisa errada, uma armadilha na qual estava presa, mas a qual não conseguia dar nome” (p. 143).

Leïla Slimani nasceu em 1981 em Rabat, no Marrocos. Também é autora de No jardim do ogro e Canção de ninar. Graduada em Estudos Midiáticos, é jornalista e foi presa durante a Primavera Árabe. É representante pessoal do presidente francês Emmanuel Macron na Organização Internacional da Francofonia, que congrega países em que a língua francesa é oficial ou tem um status privilegiado.

Ao Catarinas, Leïla falou sobre o processo de escrita da trilogia, o desenvolvimento das protagonistas, a falta de reconhecimento do trabalho do cuidado e a importância da independência financeira para as mulheres. Acompanhe a conversa:

Parte do livro é inspirada na história da sua família e você compartilha nos agradecimentos de Vejam como dançamos que também contou com depoimentos de muitas pessoas para formar o enredo, incluindo o Instance Équité et Réconciliation, comissão nacional de verdade e reparação criada no Marrocos para investigar as violações de direitos humanos no reinado de Hassan II. Como foi o processo de escrita e de encontro com a sua memória familiar e a memória coletiva marroquina?

Primeiro, precisei me familiarizar com o período que pretendia descrever. Li muitos livros de história, além de relatos de testemunhas oculares da época e artigos de jornal. Descobri o Marrocos dos meus parentes, onde eles viveram a juventude e travaram suas batalhas.

O que me chamou a atenção foi a discrepância entre as histórias dos meus pais sobre os anos 1960 — festas, música e uma vida despreocupada — e a realidade política, que era muito mais sombria e violenta. É sempre muito interessante comparar a memória coletiva, que é uma memória construída em torno de alguns eventos, com a memória individual, que é, por definição, mais confusa, única e morre com o indivíduo.

Cada um dos livros da trilogia acompanha uma protagonista em momentos diferentes da história. Como foi o processo de criar enredos que acompanham mulheres de gerações diferentes? Quais semelhanças e diferenças você identifica nas jornadas das protagonistas?

Sempre procurei me concentrar principalmente na personagem. Sua personalidade, seu corpo, seus sonhos. Algumas personagens conseguem se adaptar à sua época, aceitar as limitações que ela lhes impõe. Outras, ao contrário, nunca encontram seu lugar, como Selma, que está em constante luta contra um mundo ao qual não pertence.

No livro, acredito que todas as mulheres têm uma grande capacidade de adaptação. Elas são lúcidas, realistas e resilientes diante dos obstáculos. Embora aspirem a uma liberdade maior, Selma e Mathilde sentem também um pouco de inveja de Aïcha, que estuda e viaja. Quis mostrar que existem também conflitos geracionais muito fortes entre as mulheres, e, às vezes, uma estranha amargura pelo fato de a geração seguinte ter mais liberdade do que a nossa.

Em Vejam como dançamos, o trabalho de Mathilde muitas vezes não é valorizado, algo infelizmente recorrente ao longo da história em relação ao trabalho invisível das mulheres. Ao mesmo tempo, ela transgride parte desse sistema, por exemplo, ao conseguir pegar um pouco do dinheiro para gastos pessoais. Como você enxerga a importância de retratar o trabalho de cuidado, que muitas vezes ainda não recebe o devido reconhecimento?

Minha mãe, que era médica, sempre nos dizia que o mais importante para uma mulher era a independência financeira. Acho que ela sofreu muito ao ver sua mãe depender do marido e achava humilhante vê-la pedir dinheiro para as compras ou para seu próprio lazer.

No entanto, ninguém poderia dizer que minha avó não trabalhava. Ela ajudava na fazenda, cuidava das pessoas, cozinhava todos os dias. Preparar refeições para uma família durante cinquenta anos é algo que pode parecer banal e que muitas vezes é ignorado na literatura, mas eu acho extraordinário.

Sim, era um trabalho invisível, repetitivo, um trabalho que não deixa vestígios e não traz dinheiro. Eu quis falar sobre isso, essa terrível injustiça que gerações e gerações de mulheres sofreram. A sensação de não ser reconhecida, de não receber gratidão, deve ter sido terrível.

A personagem Aïcha pertence a uma geração que pôde acessar estudos e a universidade, mas a sociedade ainda exigia que ela cumprisse papéis tradicionais. Logo no início do livro, Amine, inclusive, descreve que o único defeito de Aïcha foi nascer mulher. De que maneira a trajetória dela reflete as tensões entre emancipação e conservadorismo de sua época, e como você percebe essas tensões em relação à realidade das mulheres hoje?

De fato, Aïcha vive em um período de transição, em que as mulheres estão se tornando mais emancipadas, mas os homens ainda não estão prontos para abrir mão de seus privilégios. Mehdi, que é socialista e progressista, sente orgulho da inteligência da esposa, mas, ao mesmo tempo, quer que ela saiba cozinhar e receber convidados. Naquela época, os homens diziam às mulheres: “você quis trabalhar, então não reclame.”

Assim, Aïcha não ousa reclamar e tenta fazer tudo: ser médica, esposa, mãe e dona de casa.

Ainda hoje, acredito que muitas mulheres estão exaustas, esmagadas pela carga mental e também pela culpa. É como se tivéssemos que justificar o fato de sermos emancipadas.

Ao tratar das execuções da época, você descreve como elas eram transformadas em um “espetáculo”, mostrando a estratégia alinhada à distribuição de televisores em 1962. Neste ano, você assinou o editorial no jornal Libération “Não podemos mais nos contentar com a palavra ‘horror’: é preciso hoje nomear o genocídio em Gaza”. Se em 1962 a violência chegava via televisão, hoje ela chega globalmente em imagens pela internet. Por que, mesmo diante dessa visibilidade, você acredita que existe, como mencionado no editorial, uma cumplicidade passiva da comunidade internacional?

Paradoxalmente, acredito que quanto mais imagens existem, mais fácil se torna desviar o olhar delas. Em 1972, pouquíssimas pessoas tinham televisão, e assistir àquelas imagens de execuções era algo extraordinário, causava um terrível choque moral. Mas, como Susan Sontag explica muito bem em seus livros, uma imagem sozinha não é suficiente para nos fazer rejeitar a guerra. Cada pessoa decide como interpretar uma imagem.

E, numa era em que novos horrores são exibidos a cada segundo, nossos corações acabam por se endurecer. É por isso que continuo acreditando no poder da literatura e da linguagem: abrir um livro exige tempo e envolvimento, ler permite a complexidade e, consequentemente, mais empatia.

APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

CONTRIBUA COM QUALQUER VALOR NO PIX
  • Daniela Valenga

    Jornalista dedicada à cobertura de gênero. Mestranda em Comunicação na UFPR. Atuou como Visitante Voluntária no Institut...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas