Daqui a exatamente um ano, em 4 de outubro de 2026, o Brasil realizará as eleições para a Presidência da República, Governos Estaduais (e do Distrito Federal), Senado, e Câmaras de Deputados (Federais, Estaduais e Distritais).

Primeira mulher a ocupar a Presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por duas vezes, a ministra Cármen Lúcia, na condução da Corte desde 2024, ficará no posto até junho do ano que vem. Assim, seguindo a tradição, o atual vice-presidente, ministro Kássio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro, será o cabeça do próximo pleito.

Cármen Lúcia sucedeu a Alexandre de Moraes em 2022; antes dele, presidiu a Corte em 2020 Luís Roberto Barroso e, antes ainda, Rosa Weber, que conduziu as eleições de 2018, Gilmar Mendes as de 2016, e Dias Toffoli, 2014. A Justiça Eleitoral, nestes últimos seis ciclos, tem sido liderada por ministros e ministras de identidades semelhantes, mas perfis distintos, sempre sob as tensões de embates decisivos para a democracia brasileira. Não será diferente em 2026.

Durante o 4º Encontro Nacional de Comunicação da Justiça Eleitoral, em junho de 2025, a ministra apresentou a logomarca e o slogan das Eleições 2026: #votonademocracia.

Ao enfatizar que cada ciclo eleitoral carrega um valor simbólico, a escolha pelo voto como defesa ativa da democracia sinaliza um gesto político contundente do TSE, que posiciona o ato de votar não apenas como direito individual, mas como ação coletiva, e contra os avanços autoritários no país.

Recentemente, na Câmara dos Deputados, foi aprovada a Proposta de Emenda Constitucional n.º 3 de 2021 – apelidada de PEC da Blindagem – instituindo barreiras adicionais à prisão e ao processamento de parlamentares, exigindo autorização prévia da Casa legislativa para ação penal contra deputados ou senadores, e restabelecendo voto secreto em casos decisórios desse tipo. A PEC tramitou em segundo turno, quando passou por 344 votos favoráveis e 133 contrários – saiba aqui como cada deputado e deputada votou.

O povo brasileiro se colocou contra a PEC da Bandidagem, como também ficou conhecida, porque a proposta era um evidente mecanismo de autoproteção dos parlamentares, criando privilégios que dificultariam a responsabilização de políticos acusados de crimes. Além disso, ela foi associada à urgência do projeto de anistia aos golpistas, e isso gerou forte reação popular: atos foram convocados em diversas cidades, denunciando as duas medidas como impunidade institucionalizada.

Apesar da vitória inicial na Câmara, houve recuo no Senado, demonstrando que a pressão das ruas e o controle institucional podem conter projetos de blindagem ao poder. A influência democrática popular resultou na rejeição da PEC, e o projeto naufragou por decisão unânime da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), abrindo caminho para seu arquivamento, e representando o sepultamento formal de uma investida autoritária com máscara legalista.

A democracia é, em sua essência, o oposto do autoritarismo – que se sustenta na concentração de poder e em atos de aniquilação e supressão de vozes.

Trago à memória fenômenos recentes e decisivos para a democracia brasileira: os movimentos #EleNão, em 2018, que marcou a recusa massiva de mulheres à candidatura de Jair Bolsonaro e inaugurou um ciclo de mobilização nacional, embora na época tenha sido ridicularizado por homens cis, inclusive os de esquerda; #ElasSim, ação surgida na esteira dessa força, sinalizando a urgência do protagonismo das mulheres na arena pública; e #ElasFicam, de 2023, como resposta às ameaças de cassação de mandatos feministas, que reafirmou a defesa da legitimidade das mulheres eleitas.

Outro fator decisivo e crucial para fortalecer a democracia brasileira como horizonte coletivo tem sido o julgamento de golpistas. Responsabilizar os arquitetos e executores da tentativa de ruptura é condição fundamental para evitar a normalização do autoritarismo.

A condenação de Bolsonaro, e mais sete atores profundamente envolvidos na trama, foi também a confirmação da profecia da ex-presidenta Dilma Rousseff de que “a história seria implacável com eles”. Foram 4 votos a 1 no STF e, poeticamente, o da ministra Cármen Lúcia garantiu que #EleNão! Com toda ironia feminista possível, uma fraquejada das brabas fez o país testemunhar a materialização de nossa maturidade cívica, pela afirmação institucional de que ataques violentos à ordem constitucional não podem permanecer impunes.

Juntos, esses episódios desenham a trajetória de uma luta que segue pulsante: a de que a conquista e permanência nos espaços de poder seja democrática e diversa.

A democracia prospera na pluralidade, na divergência, na partilha das decisões, na escuta ativa, na garantia de direitos e, importantemente, na presença da diversidade nos espaços de poder.

Nos textos Eleições 2020: o avanço dos corpos que formam o Brasil e Os corpos que governam o Brasil: do sujeito à sujeita universal, que publiquei no Catarinas com as colegas Izabel Belloc e Andressa Mourão, salientamos que a política brasileira tem sido marcada pela diversidade observável com a entrada de corpos historicamente excluídos — mulheres negras e indígenas, pessoas trans, candidaturas coletivas e outras identidades marginalizadas que tensionam a estrutura do poder.

Essas presenças não apenas desestabilizam a norma cis, branca e masculina que por séculos governou o país sozinha, mas também ampliam a imaginação democrática, inscrevendo nela novos sujeitos. O horizonte de 2026 deve ser concebido à luz dessa pluralidade.

Não basta pleitear a participação eletiva de mulheres cis e brancas, é preciso afirmar que a própria democracia se fortalece quando corpos historicamente subalternizados ocupam e se mantêm nos espaços institucionais de decisão.

Ao mesmo tempo em que a trajetória dos movimentos #EleNão, #ElasSim e #ElasFicam revela como as mulheres têm disputado não só a narrativa, mas também a materialidade da democracia brasileira, mulheres da extrema direita (em sua maioria cis e brancas) encarnam o projeto autoritário em versão “feminina e devota”.

Michelle Bolsonaro, por exemplo, embora repita à imprensa que “não está pensando em eleições”, se mantém como peça estratégica no tabuleiro da política brasileira. Seu nome aparece como alternativa ao marido inelegível, e sua imagem é cultivada em discursos que a apresentam como mulher de fé, mãe zelosa e “leoa” pronta a assumir a luta política se for “vontade de Deus”.

O bolsonarismo trabalha com a força simbólica de Michelle, tanto como candidata potencial à Presidência em 2026 quanto como figura de mobilização.

Em Deus, pátria e sujeita universal discorro sobre a instrumentalização da ideia de mulheres submissas a Deus, à família e à nação como sendo um dos grandes desafios políticos para o feminismo brasileiro, lembrando que o feminismo, em parte, ainda insiste em inscrever sujeitas universais – nomenclatura que a filósofa dominicana Yuderkys Espinosa Miñoso emprega para se referir a um “sujeito mulher universal modulado e caracterizado pelas hegemonias branco-burguesas-hetero” (2017) – como protagonistas políticas no espaço público.

A projeção de Michelle Bolsonaro como rosto feminino de uma política autoritária, e as experiências recentes da política brasileira, mostram que a disputa democrática não se limita a combater homens cis brancos de extrema direita. Um exercício que já se desenha no horizonte de 2026 será a importância de discernir entre candidaturas de sujeitas universais: as que revestem de santidade o projeto autoritário, e as comprometidas com ideais firmemente democráticos.

Ao reafirmar o voto como ato de defesa da democracia, o TSE, ainda sob a presidência da ministra Cármen Lúcia, sinaliza a urgência de conectar esse gesto simbólico com práticas concretas de pluralização.

A diversidade nas eleições — traduzida na presença de mulheres, sim, e também de mais pessoas negras, indígenas, com deficiência, neurodivergentes, LGBTI+, e comprometidas com ideais feministas — é uma das ações mais certeiras para garantir que o #votonademocracia de 2026 se concretize como promessa de futuro. 

E talvez reste uma pergunta incômoda: será que os homens cis brasileiros, que tantas vezes desacreditaram os alertas feministas, estarão finalmente preparados para escutar e agir de acordo? Motivos não faltam para promovermos a diversidade na composição política. Ampliando o espectro da representação asseguramos que a democracia brasileira contra o autoritarismo seguirá como compromisso coletivo inegociável.

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  • Joanna Burigo

    Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PU...

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