O feminismo deve ser analisado e praticado a partir de uma perspectiva decolonial. É o que defende Yuderkys Espinosa, pensadora, escritora e educadora popular afro-caribenha. Uma das precursoras do feminismo decolonial, sua contribuição aponta para uma crítica à “colonialidade da razão feminista”, ou seja, como as ideias, práticas e discursos do feminismo moderno muitas vezes reproduzem a lógica do eurocentrismo e da colonialidade, mesmo quando afirmam lutar por igualdade e emancipação.

Yuderkys participa do 3º Encontro Internacional Pós-Colonial e Decolonial (EPD), que ocorre de 16 a 20 de setembro, em Florianópolis (SC). Promovido pelo AYA – Laboratório de Estudos Pós-Coloniais e Decoloniais e pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), o evento integra as comemorações dos 60 anos da instituição e tem como tema “Artivismos e Antirracismos no Giro da História”.

Além de Yuderkys, a programação também é formada pela participação de Ângela Lucia Silva Figueiredo, do Coletivo Angela Davis e Fórum Marielle, Edson Kayapó, historiador e pesquisador, Ualid Hussein Ali Mohd Rabah, do Movimento Nacional Palestino no Brasil, Eufémia Vicente Rocha, da Associação Cabo-verdiana de Luta Contra a Violência Baseada no Gênero, entre outras participações.

Acesse a programação completa do 3º Encontro Internacional Pós-Colonial e Decolonial.

Ao Catarinas, Yuderkys falou sobre seus estudos, a importância de decolonizar o feminismo, quais os principais desafios atuais do movimento na América Latina e o contexto político atual na região. Acompanhe a entrevista:

A academia é, historicamente, um espaço excludente para mulheres, pessoas negras e outros grupos marginalizados. Ao mesmo tempo, vemos hoje um movimento de resistência que busca transformar esse ambiente. Como foi a sua trajetória nesse contexto?

Eu não faço parte da academia. Eu fiz minha carreira de fora e a academia me chama a partir do meu trabalho, minha escrita, minha leitura, meu pensamento. Eu fiz um processo inverso, em vez de tentar entrar na academia, a academia me chamou e constantemente me chama para apresentar e relatar os avanços no desenvolvimento do meu pensamento.

Essa é uma postura política para mim, baseada na ideia de que é necessário descentralizar a academia como o único ou principal local de produção de conhecimento.

Então, eu queria fazer isso na minha própria trajetória e aposto, digamos, em produzir conhecimento e crítica social de fora, de forma autônoma, e desafiar a produção de conhecimento acadêmico. Ou seja, entrar diretamente em uma discussão com as teorias que foram produzidas, especialmente, dentro da academia feminista, mas, em geral, dentro da teoria crítica.

Você é referência nos estudos sobre feminismo decolonial. De que forma a colonialidade se manifesta hoje nos movimentos feministas?

Essa tem sido uma questão importante para mim porque justamente foi o centro da produção do meu pensamento: mostrar a colonialidade da razão feminista, como eu a tenho chamado. Para isso, o que fiz, como alguém que se aventura dentro da filosofia, do pensamento crítico e do giro decolonial, foi observar como o legado civilizatório moderno podia ser rastreado no interior dos discursos e das práticas feministas. Esse é um trabalho pioneiro que iniciei há uns sete anos.

Comecei um pouco antes, mas já faz sete anos que comecei a publicar diferentes artigos e ensaios nos quais mostro como os pilares e princípios da modernidade podem ser rastreados dentro do feminismo. E, então, denuncio essa cumplicidade do feminismo com o projeto branco, moderno e europeu.

Algumas das características da modernidade que encontro e rastreio no feminismo são a concepção de um tempo linear e a ideia de progresso civilizatório, ligada a essa concepção linear da história, assim como a separação que a modernidade produziu, a ruptura entre natureza e humano.

Uma das coisas que venho dizendo é que a própria ideia de humano antecede a ideia de raça; a ideia de raça é sucessora dessa ruptura entre o humano, aquele que se identifica e se nomeia como humano, e o resto dos existentes no planeta. O humano aparece, então, como a espécie mais evoluída, a que alcançou maior progresso e, portanto, é superior às demais, que existem para servi-lo.

Ao mesmo tempo, a ideia de raça atua dentro da noção de humano para hierarquizar: haveria uns “menos humanos” por estarem mais próximos da natureza, por não terem alcançado o mesmo nível de evolução do que se considera o verdadeiramente humano, em termos nietzschianos, inicialmente o homem europeu.

O que mostro é como a mulher branca europeia, por meio do feminismo, mantém essa ideia de superioridade. Apesar dos discursos de que trabalha por todas as mulheres, o que busca, na realidade, é igualar-se ao homem europeu, obtendo os mesmos direitos e reconhecimento dentro desse progresso e dessa evolução. Por isso, é um eufemismo quando o feminismo fala em sororidade ou afirma trabalhar por todas as mulheres.

Dentro dessa concepção linear, parte-se da ideia de que existem povos “menos evoluídos” e, portanto, mulheres desses povos também seriam “menos evoluídas”. Isso desmonta, na prática, a ideia de que o feminismo atua por todas as mulheres, já que seu ideal civilizatório é alcançar e ser reconhecido nesse nível de humanidade em termos de igualdade.

Na realidade, o feminismo se insere nesse ethos¹ civilizatório moderno europeu, que nega as capacidades, as formas próprias de racionalidade, o pensamento, a agência histórica e o direito à existência dos demais povos.

O que faço é justamente desvelar esses pressupostos presentes nas práticas feministas, porque me interessa não apenas o discurso, mas as práticas como discurso. Todas essas práticas feministas, que podem ser rastreadas em seus diferentes dispositivos de ação, demandas, projetos, slogans, estratégias, mostram como esse ethos moderno atravessa todo o desejo feminista.

Daí surge a minha pergunta: o que é, para o feminismo, uma mulher livre?² Não encontrei em nenhum lugar essa pergunta formulada ao feminismo, e me parece fundamental fazê-la: o que significa, para o feminismo, uma mulher livre? Quando observamos suas práticas, qual é o projeto de libertação?

Quais são, na sua avaliação, os principais desafios atuais do feminismo decolonial na América Latina?

Eu acredito que a tarefa é abandonar esse ponto de vista eurocêntrico. Hoje o feminismo se expandiu em nível global. Eu diria que ele foi muito bem-sucedido em produzir um discurso universal sobre as mulheres, sobre como deve ser uma mulher e o que ela precisa alcançar para ser considerada livre ou para alcançar a libertação. Esse discurso se espalhou pelo mundo. 

Assim como a modernidade e seu projeto civilizatório se instalaram como ideais, o feminismo eurocentrado, a razão feminista, também se instalou globalmente por meio de diferentes estratégias: presença nos Estados, políticas públicas, criação de leis, programas de desenvolvimento. O feminismo passou a compor as agendas de ajuda internacional, especialmente voltadas aos países do Sul Global. É justamente aí que fica mais evidente seu pensamento racista, pois parte da ideia de que as mulheres desses países, ex-colônias, precisam de ajuda, porque estariam em piores condições que as mulheres da Europa ou dos Estados Unidos.

É claro que isso é verdadeiro em certo sentido. Mas o problema é que não estamos em condições piores por causa das nossas culturas, nem dos nossos modelos ancestrais e originários de organização social e comunitária. Estamos em piores condições porque nossos tecidos sociais foram destruídos justamente pela colonialidade.

Isso significa que o feminismo, por meio de todas essas práticas, acaba dando continuidade à colonialidade, incidindo diretamente na destruição das estruturas comunitárias e dos princípios que historicamente sustentaram nossas sociedades.

Portanto, o desafio de um feminismo realmente comprometido não é continuar estudando mulheres indígenas e negras, nem falar por elas dizendo que estamos mal principalmente por causa do patriarcado originário de nossos territórios e povos. O que deveria ser feito é desmontar a matriz de poder civilizatória moderna ocidental. E começar por um trabalho interno no próprio feminismo, questionando os caminhos que ele tomou e também os privilégios que determinadas mulheres obtiveram graças à existência dessa dominação, privilégios de classe e de raça, como diria Quijano³.

Os privilégios conquistados por determinadas mulheres, sobretudo brancas e brancas mestiças na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, só foram possíveis porque houve, ao mesmo tempo, uma escalada da matriz de poder que pesa sobre os mundos habitados por mulheres historicamente negadas, oriundas de povos e territórios colonizados ou submetidos à dominação.

Vivemos um momento em que países latino-americanos precisam, mais uma vez, reafirmar sua soberania. Em relação ao Brasil, por exemplo, o governo de Donald Trump aplicou tarifas como forma de pressionar o país diante do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Como você avalia esse cenário político?

Me parece que estamos diante de uma complexidade maior. Não vou dizer “complexo”, porque essa é a normalidade da América Latina, do Caribe e dos países do chamado “Terceiro Mundo” ou “Sul Global”. A normalidade é viver em crise.

Mas, de fato, estamos em um momento de intensificação da crise e de maior complexidade no cenário geopolítico. Basta olhar para o que acontece na Palestina, no Congo, no Sudão e em diferentes territórios da África e do chamado Oriente Médio.

Além disso, hoje vivemos também o avanço de uma tendência à direita, processos de direitização fortalecidos que, embora seus programas pouco difiram dos chamados projetos progressistas ou da esquerda do século 21, trazem consigo um agravamento da violência. A virulência dessa violência aumenta cada vez mais.

Neste momento, temos situações críticas em países como Peru e Bolívia. O Caribe, por exemplo, está sob intervenção de Donald Trump, com a possibilidade de uma guerra ou intervenção na Venezuela. Também assistimos à existência de governos “pseudoesquerdistas” na América Central, igualmente a serviço do capital, como ocorre na Nicarágua e em El Salvador.

Estamos, portanto, em um cenário realmente difícil, em que acredito que as esquerdas devem se repensar a partir das derrotas dos últimos anos: sua cumplicidade com o modelo de morte e com a colonialidade. É preciso rever com seriedade quais são, de fato, suas apostas políticas. Questionar esses programas civilizatórios, essa ideia de desenvolvimento e de bem-estar defendida pelas esquerdas, não apenas aquelas que chegaram ao Estado, mas também as que atuam fora dele. Afinal, qual é o mundo ao qual aspiram?

Isso em um momento em que, há mais de três décadas, vemos maior intervenção em territórios que por muito tempo foram protegidos por povos indígenas e afrodescendentes, que mantinham projetos de bem-estar, de vida e de respeito a todos os existentes. Hoje, vemos com clareza como essas falhas não estão apenas à direita, isso já sabemos de cor, mas também nas esquerdas, que se mostram realmente perdidas e que precisam se renovar.

As esquerdas precisam compreender seus próprios limites, revisá-los e, a partir daí, desenvolver e propor projetos que realmente sirvam às maiorias, que dignifiquem a vida não apenas humana, mas também não humana, em um momento em que o colapso climático já afeta não só as populações que dão suas vidas pelo cuidado do planeta, mas também as grandes cidades e até aquelas classes que acreditavam estar protegidas.

Estamos falando de um planeta que mostra sinais de que está chegando ao limite da impossibilidade de regeneração diante de todo o dano causado. E eu acredito que isso é algo central neste momento.

Notas de rodapé

¹Conjunto de valores e pressupostos que define como uma sociedade entende progresso, poder e humanidade, moldando suas práticas e legitimando hierarquias sociais e culturais.

²No original, “qué significa para el feminismo una mujer liberada?”. A tradução “mulher livre” foi adotada no livro “Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais”.

³Aníbal Quijano (1928 – 2018) foi um sociólogo peruano que desenvolveu o conceito de colonialidade do poder, segundo o qual a colonização não terminou com a independência das ex-colônias, mas deixou uma estrutura que ainda organiza o mundo.

Serviço

O que: 3º Encontro Internacional Pós-Colonial e Decolonial.

Tema: “Artivismos e antirracismos no giro da história”.

Quando: 16 a 20 de setembro de 2025.

Onde: Florianópolis, Santa Catarina.

Informações: instagram.com/ayalaboratorio/ e Site do Encontro Internacional Pós-colonial e Decolonial

Realização: AYA – Laboratório de Estudos Pós-Coloniais e Decoloniais da FAED/UDESC e Universidade do Estado de Santa Catarina.

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    Jornalista dedicada à cobertura de gênero. Mestranda em Comunicação na UFPR. Atuou como Visitante Voluntária no Institut...

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