Dias desses, fomos surpreendidos com a divulgação de um vídeo, no qual um casal de influenciadores de Santa Catarina, branco e incluído na escala social, fez um discurso excludente, racista, xenófobo sobre migrantes que vêm para Santa Catarina.

O vídeo foi ao ar dias depois da publicação que Santa Catarina tornou-se o principal destino de migrantes no país. Entre 2017 e 2022, o Estado recebeu 503.580 migrantes de outros estados brasileiros, segundo dados do censo de 2022. Até a época do censo, eram 4,66% da população.

No vídeo, o casal enumera “quatro coisas” que migrantes precisam saber antes de mudar para Santa Catarina: “O catarinense é mais sério, mais fechado, educado, ordeiro e trabalhador”. “A gente odeia preguiça e serviço mal feito. Pontualidade, responsabilidade e qualidade vêm em primeiro lugar. Se vier com jeitinho e corpo mole, volta enquanto é tempo; aqui é terra de quem trabalha de verdade”. 

Concluem que “Santa Catarina é conservadora nos valores, nos costumes e nas escolhas políticas. Aqui, a esquerda nunca governou e é por isso que nosso Estado continua forte, seguro e produtivo. Se você vem de um Estado destruído pela esquerda, e quer recomeçar com trabalho e dignidade, seja bem vindo. Agora, se você vem com agenda woke, ideologia de gênero e assistencialismo estatal, faz um favor prá todos nós: fique onde está. Santa Catarina não é só um lugar para morar, é um lugar para honrar”

É possível tecer várias interpretações destas falas que espraiam xenofobia e preconceitos. Nem vou entrar nos fatores propriamente políticos agora. Vamos a algumas. 

Uma certa historiografia naturalizou discursos que os catarinenses imigrantes e descendentes são morigerados, ordeiros e trabalhadores, diferentes dos não nascidos neste Estado. Construiu a ideia de uma Europa brasileira onde a população branca enriqueceu por conta do trabalho árduo, e por isso merece este lugar. 

Lembro que a meritocracia é um dos pilares do fascismo; ela seleciona quem pode ter oportunidades e quem não pode subir na escala social. 

No contraponto, dizem os influenciadores do ódio “à preguiça e ao serviço mal feito” destes migrantes. “Se vier com jeitinho e corpo mole”, aqui não se cria e por isso devem voltar para o lugar de onde vieram “enquanto é tempo” porque “aqui é terra de quem trabalha de verdade”. 

O foco, como se lê, é no trabalho. É evidente que os catarinenses trabalham; no entanto, desqualificar os migrantes de outras regiões do Brasil e de outros países que vêm morar e trabalhar em Santa Catarina revela uma aversão dirigida especialmente àqueles que não são brancos nem descendentes de imigrantes europeus. Trata-se de xenofobia, uma forma de racismo prevista na Lei nº 7.716/1989.

Basta observar nos estabelecimentos comerciais, nas indústrias, nos serviços mais pesados da construção civil, em serviços de carga e descarga nos portos, em empresas diversas, como motoristas, nas cozinhas e garçons em restaurantes, nos supermercados, em todos os trabalhos pesados e ditos subalternos que ali estão migrantes. Acaso estes trabalhadores e trabalhadoras não têm “pontualidade, responsabilidade e qualidade” no que fazem? 

Naturalizou-se ver mulheres migrantes nos serviços de babás, como diaristas, nas faxinas de casas, escritórios, apartamentos, nas cozinhas, nos balcões de lojas, como cuidadoras de idosos, em todas as funções que se refere a reprodução da vida das pessoas que podem pagar por estes serviços. 

E todas as casas e apartamentos de uma classe média e alta têm empregadas ou pagam diaristas. Quem trabalha mesmo? Quanto recebem por estes trabalhos?

Estas mulheres deixam seus filhos, suas casas – quando as têm – utilizam ônibus caros, moram longe e se esmeram para oferecer um bom trabalho. Dignidade? Elas têm de sobra: labutam por oportunidades. Seus filhos raramente conseguem ingressar numa universidade. Elas trabalham de verdade, são pontuais e responsáveis, ao contrário do que dizem os influenciadores.

Que Santa Catarina é conservadora, é mesmo. Mas não dá para generalizar; tem muita gente de esquerda e democrática neste Estado. Esta fala define um Estado de agenda conservadora e excludente. Também não dá para generalizar que a imigração desde meados do século 19, por si só, transformou este Estado num estado fascista; existem outros fatores.

Ao citar “ideologia de gênero”, um termo inventado para provocar o pânico moral para fins políticos, pretendem proibir temas como educação sexual, diversidades e direitos humanos dos currículos escolares, corrobora com as violências de gênero e também assédios e estupros. 

O discurso excludente se estende às mulheres e população LGBTQIA+, pois a pretensão da extrema direita é que sejam esposas abnegadas e não participem da política.

Mulheres eleitas da ala democrática e de esquerda são constantemente ameaçadas, sofrendo violência política de gênero. A misoginia é outro pilar do nazifascismo. 

Este Estado “ordeiro e pacato” tem índices alarmantes de violência contra mulheres. No ano de 2024, foram registrados 30.234 pedidos de medidas protetivas, e, de janeiro a junho de 2025, somam 15.908. Registrou-se, em 2024, 51 feminicídios – morte de mulheres principalmente por companheiros e ex-companheiros; neste ano, até junho, somam 23. 

Santa Catarina registrou, também em 2024, uma média de 11 casos de estupros por dia, segundo dados do Ministério da Justiça. Foram 2.185 denúncias por estupro de vulnerável (até 14 anos). Dados estes subnotificados, podem ser muito mais, estimando que apenas 10% dos casos são denunciados.

Um Estado seguro? 

O casal ainda fala ao migrante que, se vier “com agenda woke” aquela que conscientiza sobre direitos, “faz um favor pra todos nós: fique onde está.” 

Totalmente xenófoba e racista, esta fala provoca ódios e incita a exclusão dos migrantes de outros costumes, cor da pele ou ideologias políticas. Como se sente o imigrante que vive e trabalha em Santa Catarina? Que representações faz ao ouvir este discurso excludente?

Mas, os influenciadores ignoram que seus antepassados foram imigrantes, muitos receberam glebas de terra para o cultivo com subsídios públicos, e usurparam terras indígenas, matando estas populações para apropriaram-se das terras, extinguindo suas culturas. 

A Historiografia documenta a função dos bugreiros na “caça” aos indígenas. Hoje não é diferente: as demarcações de terras indígenas são sempre repudiadas com violência pelos donos do poder político e, como é claro, econômico. 

Faz algum tempo que Santa Catarina vem sendo chamada de Europa brasileira e o Vale do Itajaí de Vale Europeu. Festas, tradições, clubes de caça e tiro, desfiles exaltando a cultura ítalo-germânica, gastronomia, religião, ou todos os artefatos simbólicos de preservação de uma população branca de descendência europeia fazem, hoje, parte do roteiro turístico da chamada Europa brasileira. 

“A gente tem orgulho de nossa cultura, muitos aqui são descendentes de europeus”, dizem os influenciadores. Não é proibido festejar, mas sem exclusões e sem preconceitos. 

Não, não estou afirmando que o casal protagonista destas barbaridades é nazista; talvez nem saibam o que foi o nazismo e o fascismo. Estou afirmando que a ideologia nazista tem com um dos pilares a supremacia branca, donde vem o conceito de eugenia ou “raça pura”. Semelhanças nos discursos? 

Santa Catarina é um dos Estados da federação que tem mais células neonazistas, como foi levantado pelo Conselho Nacional dos Direitos Humanos. A suástica saiu dos esconderijos e aparece, hoje, sem pudores nas tatuagens, nas paredes de universidades, nas redes sociais cooptando jovens, enfim, saindo do armário.

Não estranha que estas pessoas mostram sua inclinação por uma Europa brasileira dentro do Vale europeu. Não generalizando, mas quantas pessoas aprovam o discurso no vídeo dos monocromáticos rostos de cor branca? 

Dado o teor do vídeo, o casal de influenciadores de Santa Catarina, Jenifer Milbratz Stainzack e Cleiton Stainzack, de Pomerode, é alvo de uma denúncia no Ministério Público pela vereadora de Florianópolis, Ingrid Sateré Mavé (PSOL), afirmando que o caso é um “grave episódio, pois incita discriminação e xenofobia contra migrantes”.

Não bastasse essas perturbadoras ideias de renomeações de lugares, hoje, estão chamando Balneário Camboriú de a Dubai brasileira: o ápice do capitalismo e com os metros quadrados mais caros do país. O fascismo e o nazismo são a face mais profunda da acumulação do capital, são fruto da crise do capitalismo.

Ali, o sol não alcança mais a praia e o mar está lotado de toxinas e dejetos; banhar-se, ali, é um risco. Ora, nem todo o dinheiro do mundo pode modificar a rota do sol.

Mas, quem faz funcionar a Dubai brasileira? Trabalhadores e trabalhadoras migrantes, pessoas invisíveis, moradoras das periferias e exploradas no trabalho. Não há um apartamento naquele mar de arranha céus que não precise desta mão de obra migrante dos homens. E das mulheres. 

Não estranhem se mudarem o nome de Balneário Camboriú para Dubai brasileira. Uma praia cheia de toxinas, dejetos e lixo. 


GLOSSÁRIO

Agenda Woke – O termo “woke” deriva do verbo em inglês “wake” (acordar), que, na prática, significa “estar esperto”. No contexto cultural dos Estados Unidos, ser “woke” refere-se à conscientização sobre questões sociais e políticas, especialmente ligadas à igualdade e à justiça social. O termo é frequentemente utilizado de forma pejorativa por movimentos conservadores, que alegam que a cultura “woke” é vista como uma ameaça aos valores tradicionais. Saiba mais.

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  • Marlene de Fáveri

    Marlene de Fáveri, natural de Santa Catarina, Historiadora, professora Aposentada do Departamento de História da UDESC....

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