Jesus Martin-Barbero em seu Dos meios às mediações (1986), alertava que as telenovelas eram a chave para o imaginário político latino-americano. Algumas delas, sendo o espelho ou o catalisador de dramas silenciados e omitidos pelos governos, grande parte deles, ultra-autoritários naquele período.

Vale Tudo, novela de 1988, escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Básseres foi a maior audiência de seu gênero nos anos 1980. Reciclando o mito narrativo da filha pródiga, de inspiração mais direta no drama Almas em suplício (Mildred Pierce, 1945), na qual uma mulher ultra trabalhadora erguia um império para obter a admiração da filha.

Embora tenha oferecido privilégios e boa educação, é rejeitada por sua origem pobre — ecos do período entre grandes guerras, quando as mulheres ocupavam protagonismo no trabalho e nas famílias. Ambientando num país que recém respirava ares de maior amplitude democrática, os holofotes voltam-se para o cabo de guerra entre Raquel e Maria de Fátima Acioli, mãe e filha. 

Raquel, uma mãe que trabalha como guia de turismo na fronteira entre Brasil e Paraguai e mora na casa do pai viúvo, mas acredita no futuro, tendo depositado essa esperança nos investimentos na educação da filha. Que espera ver formada e galgando um posto no mercado de trabalho.  

Fátima, uma jovem de 21 anos. Fechada em seus sonhos de consumo, despertados por tudo o que ela não viu, mãe, CLT, avô, funcionário público, e o pai pianista conquistarem. A despeito de esforço, talento e persistência.

Marca o desencanto de uma geração de um país que não acertou as contas com seu passado. Em que muitos jovens recentemente haviam desaparecido com idades próximas a sua. 

Em uma atitude de total dissenso e dissidência de classe, num matricídio simbólico, Fátima vende a única herança familiar, a casa do avô falecido deixada em seu nome, e muda-se para a metrópole do Rio de Janeiro. Não em busca de uma carreira, mas de um dos poucos golpes tangíveis para uma moça sem lastro e berço: o golpe do casamento com alguém da alta classe. A única forma de transcender seu destino social, segundo a personagem. 

Raquel, como heroína romântica, representa a meritocracia clássica. Que pensa a honestidade como último resíduo de sobrevivência num país esfacelado em seus direitos e abandonado por governantes inaptos. Tudo isto ao som de Brasil, música de inconteste crítica à corrupção, porém enaltecendo certo niilismo da classe média. Talvez refreado pela interpretação disruptiva de Gal Costa, que abria a novela.  

A filha de Mildred Pierce, filme de 1945, Veda, é a personagem fabulosa de um conto punitivo sobre a rivalidade feminina. Desdenha da pouca ambição e da falta de verniz da mãe. A traição de Veda é o pesadelo doméstico do capitalismo, que desejava que as mulheres recuassem da ocupação de postos no mercado de trabalho. 

Em Vale Tudo, as motivações de Fátima são diferentes. Ela não odeia os pais e não quer substituir a mãe. Ela não acredita nas lendas meritocráticas da classe média e reconhece a impunidade dos muito ricos como único mérito social possível. Fátima é uma personagem ambivalente. Fazendo muitas vezes a vez do próprio público. Quando diz pra mãe que há muita gente que pode passar a vida inteira vendendo sanduíche na praia, sem nenhuma chance de ascensão. Ou que os ricos tem tanto que o que ela almeja deles representa uma simples gorjeta em seus bolsos. 

Mas, é novela. Além de realista, cínica e vingativa, Fátima é uma aberração narcísica. Como são todas as representações de mulheres “desnaturadas”.

E Raquel, embora também seja uma personagem com muitas camadas, é a mãe. O moralismo. A redenção. A única capaz de dar o perdão à filha pródiga. Talvez por isso merecendo a riqueza compensatória. Único final feliz possível.  

A noção de riqueza de Fátima é próxima da de Jessé Souza, em “A elite do atraso”, para quem, sob o manto do patrimonialismo, a elite que detém fortunas inabaláveis no Brasil está ancorada em escravização e usurpação.  Para Fátima, não é crime golpear um bilionário. É justiçamento. Mas seu discurso é imoral. Assim como são seus meios. Exemplarmente ilustrados no último e irreparável degrau de trair a própria mãe.  

Além do assassinato de Odete Roitman, a arrogante e preconceituosa sogra de Fátima e antagonista natural de Raquel, não existe punição condizente com classe social. Há uma verdadeira devoção aos muito ricos e sua porosa capacidade de persistirem riquíssimos e inabaláveis no texto da Vale Tudo. Dinheiro é realmente a solução. E todas as pessoas têm seu preço. Ainda que no quesito arco dramático, Raquel seja a vencedora. 

Vale Tudo no final dos anos 1980 preconiza um país que levará décadas para instituir uma comissão da verdade, assumir sua vocação feminicida, abolindo o argumento de legítima defesa da honra, e discutir racismo como uma urgência política que também se dá no âmbito estrutural e por omissão. 

Mas, o que poderia ter mudado então, com a chegada de um remake dessa fábula meritocrática da abertura política do país? 

Bom, temos um núcleo familiar de protagonistas negras. Fátima e Raquel são vividas pela consagrada Taís Araújo e pela iniciante Bella Campos. Fátima segue desejando dissidir da família e casar com um (agora) bilionário, mas, em seus planos está ser influencer, profissão da moda na era da vida digital.

Desejada por um grande número de estudantes pouco entusiastas de carreiras clássicas, que acreditam em novos subterfúgios para furar suas bolhas de classe.  

Duas questões que poderiam ter aderido às muitas camadas nas tensões entre filhas e mães num país que ainda é palco de realidades tão difíceis para as mulheres negras, em seus processos de escolarização, liderança familiar e solidão afetiva.  

Em vez disso, o que observamos foi o tokenismo clássico (ou aquilo que Lélia Gonzalez chamaria em “Primavera para as rosas negras” de racismo por omissão). A cor das peles surge em personagens que não mencionam suas tensões raciais. O racismo será mencionado na trama após quase todos os conflitos entre mãe e filha se desenrolarem, no capítulo de 19 de maio, quando Odete diz que Fátima “não é tão escura assim”, de forma apenas pontual. Como se não fosse uma questão estrutural. Inclusive quando se evoca o colorismo. 

No texto, entretanto, vemos uma Fátima assumidamente pouco profunda. Que é desdenhada na conversa com seus amigos, que perde oportunidades políticas e de visibilidade impensáveis para a Fátima dos anos 1988 e a Veda do pós-guerra.  

Vemos também uma Raquel revitimizada. Cujo carisma gratuito destacado nos anos 1989 e a bondade incorruptível são severamente substituídas por rivalidade feminina (o duelo no samba com a Heleninha Roitman) e ingenuidade empreendedora (que grande empresária teria uma rede de conhecimento tão precária ao ponto de voltar a venda como ambulante de sanduíches?).

Não à toa o público implicava tacitamente com as roupas estampadas da personagem de Taís. Ou com a dicção da Fátima de Campos. Como entrar no universo político daquelas mulheres, a ponto de render-lhes empatia e complexidade, se elas eram apresentadas apenas na exterioridade?

Em que elas representavam a tensão geracional entre o passado e o presente do país, ainda mais quando o seu maior testemunho das nossas desigualdades democráticas, a própria pele, foi amplamente neutralizado na trama? 

Em tempos de guerra civil nas comunidades alvo de milícias, cotas contestadas e discussão sobre negritude e pardismo, temos duas mulheres negras de um núcleo supostamente prioritário a quem lhes foi negada a cor. Em tempos de CPI dos Bets, temos uma influencer cuja única substância crítica foi construir um perfil transmídia – devastadoramente pouco explorado.  

Hoje, quem acompanha os últimos capítulos da trama na Globoplay, observa que, em contraste com a Vale Tudo de 1988, no qual Regina Duarte e Glória Pires surgem abraçadas, é exclusivamente a figura de Débora Bloch, a atual Odete, que está em evidência.  

A despeito da absurda competência da atriz, observamos que suas entradas e saídas foram, desta vez, pautadas por um fetichismo comovente diante dos super ricos. A ostentação de Odete e de toda a sua família – que mesmo agindo como autênticos autoproclamados bem nascidos não deixaram de aparecer lendo Conceição Evaristo para as câmeras — surge como aquilo que realmente move o consumo nas redes sociais: o super luxo, a magnitude da aparência e o esvaziamento do conflito de classe em prol da exaltação a tudo aquilo que o velho dinheiro pode proporcionar.  

Numa época em que há uma tendência global no cinema e nas séries (White lotus, Sereias, Triângulo da Tristeza, Saltburn, O menu, entre tantas) em expor o vazio e o demérito dos bilionários, é curioso vivermos num país cuja maior emoção do roteiro é ainda chegar bem perto deles.  

Contraditoriamente, a própria Evaristo disse que não escreveu para ninar os sonhos da casa grande, mas para ser seu pesadelo. Aguardo e torço que textos como os escritos por ela cheguem à TV. 

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    Doutora em Comunicação pela UFPE, professora do curso de Rádio, TV e Internet do Departamento de Comunicação e do Progra...

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