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Arte: Daniela Valenga.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas de discernimento: o amor e o empoderamento

Postado em 19/01/2022, 11:57

Em Pílulas de Discernimento, Joanna Burigo, mestra em Gênero Mídia e Cultura (LSE), conselheira editorial do Portal Catarinas e coordenadora Emancipa Mulher, traz pequenas notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nos fóruns das redes sociais.

O amor e o poder

Poder, garra, potencial, empoderamento, atitude, autoestima, amor-próprio, ser guerreira, ser forte, ser independente, ser talentosa, ir à luta: estas legendas e tantas outras igualmente triviais e motivacionais, no Instagram, geralmente vêm acompanhadas de imagens onde moças, que ganham muito bem com suas #publi com marcas de cosméticos, biquíni, lingerie e roupas femininas, fazem caras e poses que contradizem a legenda, pois as fazem parecer princesas infláveis, objetinhos de desejo, só que ricas.

Os likes de homens, nestas postagens, não significam que eles estejam investindo seu dinheiro nelas, nos produtos que elas estão vendendo, no feminismo e no empoderamento que elas pensam estar divulgando.

Os homens consomem essas imagens gratuitamente. Não gastam nada para vê-las, para interagir com elas, para se sentirem seduzidos por elas, para acharem que são para eles. Se divertem, se distraem, recebem volumes industriais de imagética sensual sem terem que fazer nenhum esforço em troca. E ainda podem dizer que estão apoiando algum tipo de movimento de emancipação das mulheres, afinal são super fãs dessas caras e bundas.

Os likes de mulheres e pessoas LGBTI+ nestas postagem significam o oposto. Significam que estas pessoas estão investindo seu tempo, desejo e dinheiro em se parecer com essas moças. Dinheiro que vai pra corporações, e que pode até empoderar estas moças individualmente – aliás, a única parte dessa equação que faz algum sentido feminista. Mas o empoderamento destas moças não vem pela sua aparência nem pelas platitudes, e sim pelo dinheiro na conta delas. A aparência e platitudes são os veículos para o empoderamento financeiro. A corporação paga para que a moça ganhe com essa falácia.

A consumidora não se empodera. Só paga para se parecer com aquilo que outras recebem para parecer que são empoderadas.

O poder, mesmo, continua nas mãos dos homens, se beneficiando de tudo isso sem gastar um tostão nem precisar fazer performance de gatinho empoderado para convencer uma corporação a patrociná-los.

Há de se revelar a necessidade por dissonância cognitiva empregada pelo inconsciente de quem ganha dinheiro com a vulnerabilidade das mulheres e chama isso de feminismo.

Plus ça change… 

Alguns dos sujeitos que compõem a seção unificada do diagrama de Venn entre instagrammers, tikkokers, juventude mística e os nascidos entre 1990-2000 são muito proficientes na fetichização do mistério e na reificação da feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade. O esforço de não parecer hegemonicamente belo e rico no afã de fazer cosplay de subversão (do capitalismo, do patriarcado, da supremacia branca) é pura perversão e cooptação de discursos e estéticas marginais. A chave analítica que revela o truque é a aparência infantilizada de narrativas de sexualidade adulta, para a palatabilidade da moral patriarcal. Onde a Madonna incendiava iconografia cristã sensualmente, Billie Eilish chora dizendo-se “feliz como nunca”, também sensualmente. Plus ça change, plus c’est la même chose (expressão em francês, que em tradução livre quer dizer “Quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas”) .

Unhas

Um dia talvez desenvolva um ensaio sobre o emprego de unhas postiças em produtos culturais audiovisuais que têm gênero como temática central para o desenvolvimento da narrativa. Em The Sopranos e Kinky Boots, por exemplo, as unhas são praticamente personagens. Como significante em filmes e séries, me parecem estar bastante atreladas às restrições da feminilidade e a superações femininas. 

H-

Penso que uma “bandeira hétero-aliada” é tão desnecessária quanto colocar a letra H na sigla LGBTQIA+

O objetivo de marcar tantas cores e letras e identidades, me parece, deve ser diluir a hegemonia da heterossexualidade. Em outras palavras bem semelhantes: o objetivo deve ser dissolver a heterossexualidade como a sexualidade que é hegemonicamente aceita como natural por ser tornada normal por força de existir como norma.

A heterossexualidade não é nem mais nem menos natural do que outras sexualidades.

A heterosexualidade é uma forma de desejo tão humana quanto qualquer outra, mas é também, e com muito respaldo cultural, um discurso de controle, que regula inclusive (e sobretudo) o aparelho reprodutivo de mulheres cis como garantia de patrilinearidade (vem no raciocínio: uma garantia de que um bebê seja fruto de um progenitor específico é se certificando de que a progenitora só copule com um sujeito, certo?) É a partir desta reflexão que podemos pensar na monogamia como um destes instrumentos culturais da heterosexualidade a que me refiro, que opera como dispositivo de controle a partir da ideia da heterossexualidade,  desconsiderando até, percebam, o desejo, para o que precisamos dar centralidade quando fazemos nossas análises em defesa da liberdade para amar e querer.

Isso que estou tentando articular fica particularmente evidente ao sermos francos e reconhecermos que, em prática, e historicamente, há padrões duplos de aplicações da monogamia e punições por descumprimento bastante desproporcionais e diferentes entre mulheres e homens [e saliento que, aqui, o recorte analítico é cis]), mas, retomando: não há consenso, mas penso que a medida que estudos sobre sexualidade avançam e que lidamos social e politicamente com nossos preconceitos, vai ficar cada vez mais óbvio que a heterosexualidade como desejo não é mais natural, nem mais comum, muito menos mais normal do que qualquer outra manifestação de sexualidade saudável e consensual, e que se um dia acreditamos nisso, foi pela força desta norma de controle, que se acaba por ser injusta com todas as sexualidades que não sejam a heteronormativa… E é ruim até pra essa.

Assim, vamos lembrar: não precisa adicionar a heterosexualidade na sigla nem na bandeira, não precisa defender a heterosexualidade de ninguém em lugar nenhum, porque a heterossexualidade não precisa de defesa muito menos protagonismo na luta.

Vem junto, hétero. Mas vem junto mesmo, não viaja. Discernimento, gente.

Commodity feminism

Me entristece observar muito do feminismo virando commodity — que, na minha crítica, já vem com slogan-deboche pronto: “pela coragem de ser hegemonicamente Instagramável”.

A escolha parece ser pela simplificação do pensamento feminista, com a justificativa de torná-lo mais palatável e acessível, o que é uma falácia, visto que a práxis acaba por ser demovida de sua radicalidade política pela via de platitudes motivacionais e fetichização do sagrado, expressos geralmente pela feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade.

Identidade como commodity

Dentre as estratégias de marketing que vêm empregando identidade como commodity estão anúncios públicos de investimentos feitos em diversidade, e escorar a marca no carisma de influencers, que garantem rápida adesão por identificação, ao menos nas redes, o que sai barato para e facilita o trabalho da equipe de comunicação. Esse caminho para o sucesso financeiro de ativistas – que é o único não-problema dessa equação, por sinal – acontece no vácuo da negligência da esquerda com o que chamaram de “identitarismo”.

Empresários homens cis brancos entenderam que até fingir se importar com coisas como gênero é lucrativo, ou ao menos faz com que eles pareçam arrojados nas suas práticas corporativas.

Olhando assim, não parece haver problema. Mas mesmo que ativistas anunciem a realização de sonhos atribuindo tal conquista aos fãs e fechando seus textos com #publi, ou que grandes latifundiários tradicionalmente patriarcais se gabem da diversidade na gestão de colaboradores, a cadeia de rentabilidade e poder continua eclodindo desproporcionalmente em homens cis brancos em detrimento de todo mundo que não é eles, ainda que apareça em sua comunicação corporativa. 

Mais sobre o male gaze

O “male gaze” não é nem nunca foi simplesmente o que consta na sua tradução literal, que seria “olhar de macho”, que em português faria mais sentido como “olhar masculino”. O male gaze é terminologia para denominar um fenômeno social conceituado por Laura Mulvey, visível como enquadramento fotográfico.

Quando Lacan diz que “la femme n’existe pas” (a mulher não existe) não é da mulher que ele está falando, pois é lógico que as mulheres existimos; na mesma toada, a lógica aqui é a do simbólico, onde imagens do feminino são aquilo que criam o entendimento do “ser mulher”.

Assim como não há um só olhar masculino, não há só a mulher oriunda das imagens do feminino. Mas o male gaze cria e sustenta as imagens do feminino. É daí minha insistência em revelar e desvelar e desmistificar ambos.

Mystify me 

No encontro do diagrama de Venn que tem, em um conjunto, a cultura influencer, e, no outro, a extrema direita fascista, está a mistificação.

O que Gwyneth Paltrow (e derivados de Instagram) e Trump (e derivados políticos) têm em comum é a criação ou promoção de discursos que rodam na contramão da investigação da realidade na busca pela verdade.

A mistificação ajuda na consolidação de sofismas com que manter audiência e eleitorado confusos e em busca de soluções.

Aliás, essa mistificação contribui também com a confluência entre audiência e eleitorado. Aposto que em 2022 não vão faltar influencers na disputa por cargos eletivos.

Capetalismo promoção e pra mocinha.

A comoção com manipulação juvenil da linguagem na produção corrente de cultura pop é bastante característica da cultura influencer, que cria emoções rentáveis com mistificação a mais comum, exaurida por já ter nascido misógina, é a que não cansa de servir imagética de sensualidade feminina com platitudes.

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Barbie mindfulness | Imagem: @barbiestyle

Gosto é irrelevante

A minha crítica aos significantes de feminilidade que enfatizam a hegemonia da masculinidade não deve ser entendida como opinião a respeito destes significantes serem bonitos ou feios, cafonas ou glamourosos, ou se deixam as mulheres mais ou menos atraentes.

Gosto é irrelevante para construção da minha crítica, inclusive o meu. A minha crítica tampouco é a quem emprega estes significantes, visto que não existo ou vivo para cercear o gosto dos outros, tenho coisas mais importantes em que pensar.

A minha crítica é pura constatação de obviedades que, sem serem reveladas, podem permanecer no registro do imperceptível, por serem tão naturalizadas.

A minha crítica não é ao caráter artificial da feminilidade, pois gênero é composto, bastante, de artifício. A minha crítica não é ao caráter divertido da feminilidade, pois gênero pode trazer bastante diversão. A minha crítica não é ao caráter belo das aparências, pois isso seria bastante tolo, além de ranzinza.

A minha crítica é uma nota, um alerta, uma revelação, um descortinamento de coisas que muitas mulheres enxergam, só não articulam (provavelmente por terem coisas mais importantes em que pensar), que é:

a exaltação de significantes de feminilidade esconde o quanto eles podem ser, e são: restritivos ou impeditivos de nossos movimentos; caros e exigentes de nosso tempo e dinheiro e compromisso para serem atingidos; baseados não na realidade concreta da multiplicidade de mulheres em existência no mundo mas em um padrão pautado no desejo normativo cis masculino hétero e branco.

O truque que escamoteia a perversão patriarcal que constrói a feminilidade é precisamente impedir que enxerguemos o quanto suas linguagens, compostas de coisas belas e doces, servem como instrumentos de controle de mulheres e pessoas LGBTI+.

Aqui importa muito a compreensão de que a crítica independe de opinião e de gosto, ainda que o exercício de discernir entre elas não aconteça sem agonias.  

Como nossos pais?

Aleluia, feministas começaram a escrever publicamente sobre querer ser pai, e não mãe, e no registro da comédia. (A Milly Lacombe e a  Helen Ramos, o Instagram da TPM conta. Dale, mulheres. A saber, a Dra Fhoutine Marie já há uns anos também faz esse comentário nas efemérides parentais.)

Quando perguntam se quero ter filhos, minha resposta é “não, não; e talvez sim, se eu pudesse ser pai”.

Ser mãe nunca teve muito apelo para mim. E ser pai sempre foi impossível. Eu amo crianças a ponto de nunca querer ter tido uma ou mais para chamar de minhas, se isso significa ter que lidar com frustrações relacionadas a maternidades no patriarcado.

É crucial saber o quanto essa responsabilidade recai brutal, desproporcional e injustamente nas costas das mulheres.

E em verdade, na verdade vos digo, eu não teria tido filha/os/es mesmo se pudesse ter agido como pai, pois seriam outras mulheres quem cuidaria das crias.

Talvez eu contemplasse a possibilidade se vivêssemos em uma sociedade em que o trabalho reprodutivo (que inclui trabalhos, no aqui e agora não remunerados e frequentemente desrespeitados, por cuidados com crianças) fosse equânime entre adultos.

Os homens quase sempre se beneficiam do patriarcado. Nós? Nunca. Daí que: fogo!

“Amores líquidos, ranços sólidos.”

Em nome da mãe, da filha e da espírita santa. 

Uma parcela dos cristãos pede para Deus ajudar o Brasil e nos livrar do Lula. Outra, para que Deus proteja o Brasil do Bolsonaro.

Pelo menos as religiões politeístas dão opções; seus fiéis podem pedir para uma deidade enquanto seus inimigos pedem para outra, e os deuses que lutem. Esse Deus único das religiões monoteístas ficaria confuso, caso também existisse.

(Esperta é a historinha da ninfa Metis, que usou da sedução para ludibriar o chefe do Olimpo, assim entrando na mente de Zeus para salvar a filha Athena. Que, estou segura, se também existisse também preferiria que no pleito do Brasil 2022 houvessem candidatAs…)

Não tenho crença

A maioria das pessoas que chegam a gostar de mim, uma hora ou outra passam pelo desgosto de me ouvir falar ou fazer algo que desestabilize seus sistemas de crença.

Eu faço isso com frequência, e não é para gerar desconforto, mas simplesmente por franqueza, já que vivo mais feliz sem o afã do apego a organizações discursivas do mistério.

Não tenho crença, nunca senti necessidade de acreditar em qualquer metafísica, sempre achei chatíssima e performática a maioria dos rituais espirituais*, e nunca me fizeram falta a fé e a religiosidade que, a meu ver balizado pela semiótica, são sistemas simbólicos daquilo cuja magnitude não conseguimos compreender. Respeito, mas não me encanta.

Confio no que é verificável por evidências, me entrego para os fenômenos da física, fisiologia e química que vibram entre corpos, e penso que a beleza do mistério está posta já no seu nome.

Não me sinto menos por ser pequena diante da imensidão daquilo que desconheço. O que a existência causa em mim é maravilhamento e curiosidade.

* Em rituais espirituais indígenas com ayahuasca, bem como em conversas individuais com mulheres negras de terreiro, encontrei muito respeito por minha cosmogonia, e acolhimento de quem sou por quem sou, não por expectativa de adesão a esta ou aquela visão de mundo.

Delírios da fama

Deve (ou deveria?) ser desestabilizante ficar famoso e, de repente e com intensidade, ver as próprias falas e ações, até mesmo as mais comezinhas, sendo exaltadas como se fossem especiais ou relevantes.

A combinação de imagem e texto do Instagram rende umas justaposições bizarras, e a mais comum delas é a que acopla à uma foto sensual platitudes motivacionais. Mas, cada vez mais, vejo a combinação de imagens aleatórias marginalmente ilustrando textos de existencialismo individualista disfarçado de profunda reflexão temática. Puro sofisma; conceito estético seguido de textão sobre coisas como física quântica para explicar afetos; metáfora trivial à lá Ana Maria Braga.

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Barbie Influencer | Imagem: Mattel

É importante que todo mundo tenha a liberdade para falar sobre qualquer assunto; penso assim de verdade, gosto que me enrosco de uma filosofada no boteco. O problema que quero enquadrar aqui é as pessoas dando ouvidos a opiniões furadas, em detrimento do conhecimento, pelo encantamento que têm com a fama.

O conhecimento é feito pelo tempo, com observações criteriosas e registros minuciosos, e não da mistura individual de teorias bailarinas que saem do imaginário de gente trabalhando no próprio entendimento de mundo para ganhar adesão de público.

A fama não confere a ninguém a habilidade de ser rigoroso no pensamento, embora haja quem encontre fama justamente pelo rigor com que pensa. E nem precisa de tanto discernimento assim para reconhecer o que é uma coisa e o que é a outra.

Ainda sobre Miami, imagens e sereias

As reações a um ensaio fotográfico – intitulado Piranha Jibóia Art Deco, e logo mais a leitora entenderá por que – que eu e meu companheiro AJ fizemos pelas ruas de South Beach, Miami, em uma noite quente de dezembro de 2021, evidenciaram o peso da diferença, baseada em identidade, entre olhares e comentários direcionados à feminilidade.

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Ensaio fotográfico que Joanna Burigo fez com o companheiro AJ fizemos pelas ruas de South Beach, Miami | Foto: divulgação.

Eu portava um vestido justo, transparente, curto, cheio de recortes e bordado com duas cobras. Em geral, homens cis brancos olhavam e comentavam com objetificação agressiva e agiam em minha direção com um notório senso de merecimento, e estou certa de que tentariam me tocar se o AJ não estivesse por perto. Homens cis negros, com objetificação bem humorada e flerte descarado porém respeitoso; mulheres cis brancas com constrangimento e escárnio (absolutamente compreensíveis, e até bastante louváveis…). Mulheres trans com reconhecimento discreto e mulheres negras com encorajamento generoso — delas recebi uma profusão desproporcional, frente aos outros grupos mencionados, de “damn gurl” (“uau, garota”) e “work it sister!” (“dale, irmã”), além de muitos, muitos elogios oriundos da autoconfiança contagiante de quem sabe quem é, e ama. 

Mais tarde, no show de drags a que assistimos no Palace em Ocean Drive, eram também as mulheres negras, sozinhas ou em grupos, quem mais levantava as mãos para oferecer dólares para as performers. They KNOW that the struggle is real, yo (Elas SABEM que a luta é real, mana).

Eu sou uma estudiosa dedicada do feminismo negro por genuinamente pensar que as feministas negras produzem as teorias mais realistas e revolucionárias que existem. A base da pirâmide social global, afinal, é composta por mulheres negras, e, como grupo organizado no imaginário social por identidade visível, em números são as mulheres negras quem pode melhor reconhecer e articular as injustiças da realidade.

Não deveria surpreender ninguém que esse conhecimento se desdobre para a oferta de soluções. No seu texto publicado no livro “Tem saída? Ensaios críticos sobre o Brasil (Editora Zouk, 2017)”, Marielle Franco fala justamente isso: que devemos observar o trabalho de mulheres negras como fonte rica de conhecimentos para a justiça social. E foi bell hooks quem demonstrou, em mais de um de seus textos, o quanto e como o feminismo nos ensina a amar a justiça e a liberdade. Marsha P. Johnson deu alcance à luta por direitos LGBTI+. E eu poderia seguir listando contribuições: Antonieta de Barros, Carolina de Jesus, Laudelina de Campos Melo, Sojourner Truth, Ida B. Wells, e as muito vivas Valéria Barcellos, Érika Hilton, Winnie e Sandrali Bueno,  Stacey Abrams, Grada Kilomba, Minna Salami…

Que a força das que viverão eternizadas pelos seus ensinamentos nos faça seguir buscando inspiração, para uma práxis feminista e antirracista, nas mulheres que exsudam notórios saberes em vida, com as próprias vidas, melhorando todas as vidas.

* em maiúsculas pois, como sempre, a #nemtodo se aplica, então vamos nos poupar desse constrangimento

Lula com chuchu

Há muito o que dizer sobre a potencial chapa Lula-Alckmin, principalmente em termos do tipo de jogo que o contexto político do agora exige. Vou me reservar a apontar o facho de luz na direção que eu conheço, que é o patriarcado. Entre 2014 e 2017, quando eu escrevia muito sobre política nacional na Carta Capital, montava tentativamente o argumento antecipado do que, hoje, simplesmente vejo acontecer.

O patriarcado é um sistema multifacetado de dispositivos de proteção de homens cis, e foi misoginia o caminho que pavimentou a demoção da Dilma. O jogo político foi gênero. Não deveria surpreender ninguém que esse tipo de aliança seja não apenas feita, mas necessária.

O movimento político no Brasil, sempre tão varonil, nos últimos anos foi um de fundamentalismo patriarcal. Seguimos falogocentradamente entre a cruz e a espada. E enquanto não derrubarmos o patriarcado supremacista branco, essa será nossa verdade: alianças entre homens cis brancos contra alianças entre homens cis brancos.

(A saber: aqui é #EleNão, ainda que pra isso eu fique trabalhada no Lula lá. Mas fingir que não vejo patriarcado, isso não faço não.)

Mulheres na política

Escrevi a nota acima a menos de dez horas da confirmação da eleição do Boric no Chile. Estamos todes aliviades, pois um homem cis branco não fascista é sempre uma opção melhor do que um homem cis branco fascista. Isso é indiscutível. 

Mas tem como refutar que esse resultado é mais um demonstrativo da prática política tipicamente patriarcal, que se resume a aliança entre homens cis brancos VS aliança entre homens cis brancos? Não tem.

Então é aquilo que eu sempre digo: fogo no patriarcado.

Vamos por mais: vamos pôr mulheres e pessoas não cis e pessoas não brancas na política, para ontem. 

Vibrando na energia da picaretagem

A jovem mística, ela vibra na energia da picaretagem, né?

Sejam as bruxonas de apartamento, as “arcoíro” sagrado das cartas e estrelas, as ho’oponoponoUÓ, as vapor uterino para expurgar ex ou as Gwyneth Paltrow da floresta, a troca astral que elas fazem com um público vulnerável e impressionável enriquece que é uma beleza.

Haja feminismo contra tanto charlatanismo.

Feminismo branco

Apropriação cultural vendida como feminismo é especialidade de mulheres brancas, mais ainda as cis.

(E ser uma mulher cis branca não é o que me autoriza a tecer esta crítica; é que me obriga a fazê-la).

Pró-divórcio

Sempre que me perguntam se sou a favor do casamento gay, respondo que sou mesmo é a favor do divórcio para todes.

Xeque-mate

Nesta viagem muitas coisas já aconteceram (e as mais emocionantes ainda estão por vir), e uma delas foi: o AJ me ensinou a jogar xadrez. Não achei difícil, embora entenda não ser fácil, mas o jogo me entediou, como me entendia participação em quaisquer competições – e esta com um agravante: a premissa do jogo, fundamentado na proteção de um rei. Joanna Burigo, autora da definição de patriarcado que o enquadra como “um sistema multifacetado de dispositivos de proteção de homens cis” salvando um rei? Faz-me rir. Se eu gostasse de jogar e fosse realmente competente em enxadrismo, me empenharia em desenvolver estratégias de derrubada do rei oposto só com os peões e a rainha, entregando os bispos e os cavalos pro inimigo de bandeja. Eu hein.

Oportunistas

Eu faço esse apontamento sobre apropriação cultural fetichizante do mistério disfarçada de feminismo com afinco por compromisso feminista. Até deixaria passar se não achasse essa prática picareta absolutamente predatória de mulheres pela via de nossas vulnerabilidades.

Todas as pessoas têm vulnerabilidades e um feminismo que não abrace ou acolha as nossas para que saibamos nos apoderar delas e nos empoderar com elas não é feminismo, mas sim, como Barbara Smith aponta, mulheres usando o feminismo para fins de auto-engrandecimento.

Respeito muito, de verdade e coração, as muitas mulheres que incorporam feminismo em seus projetos míticos e sua interpretação do mistério no feminismo. Mas picareta que faz cosplay de misticona feminista não deixo passar não. Oportunistas.

E mais problemas de gênero

Eu não vivo num planeta nem sociedade diferentes dos habitados por pessoas cis e que não querem compreender que gênero é mais amplo do que o que contem a cisnormatividade. Eu mesma sou uma pessoa cis. 

O ativismo e teorias trans que conheço estão longe de querer demover mulheres cis da categoria mulher, como pareço ler com frequência na internet, de pessoas inconscientemente transfóbicas que se escudam pelas abobrinhas proferidas pelos muito transfóbicos JK Rowling ( criadora de Harry Potter) e o humorista Dave Chapelle. Existe uma paranoia nesse sentido que precisa ser reconhecida como o que é: uma paranoia.

Tenho feito críticas ferrenhas ao falogocentrismo e emprego fetichista da feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade (conceitos da Ordem de Gênero, por sinal engendrados por uma mulher trans, RW Connell), e, para fazê-las, em nenhum momento me sinto compelida a, ou sequer preciso deslegitimar o ser e devir mulher ou homem de nenhum sujeito.

Existem pessoas com útero e sem útero, pessoas com pênis e sem pênis, e essas pessoas podem perfeitamente ser cis ou trans, ou, ainda, intersexo.

O alargamento do entendimento de gênero têm funcionado muito bem, felizmente, no sentido da inclusão social de sujeitos que SEMPRE EXISTIRAM e cujas existências simplesmente não são contempladas pelo binário de gênero que insiste que machos da espécie são homens e fêmeas da espécie são mulheres.

Pessoas trans e intersexo existem, e negar essa realidade sugerindo que a inclusão de suas existências é parte de algum projeto impositivo de poder é paranoico… é violento demais.

Tiago Leifert

O Almodóvar, nos seus filmes, frequentemente critica a telebasura espanhola. Eu já vi apresentador do Channel 4 inglês criticar a produção do canal em programa do próprio canal. E qualquer pessoa que estude mídia e/ou empenhe um mínimo de reflexão crítica pode compreender que há duas maneiras básicas de empregar o conceito de “cultura popular”: cultura feita pelo povo para quem se interessar, e cultura feita pela mídia de massa para capturar o povo (que vira audiência, interesse número um do patrocinador, que sustenta as mídias). As duas formas de cultura podem oferecer trabalhos edificantes ou problemáticos.

Ninguém é medíocre ou estúpido por consumir cultura popular, qualquer que seja a interpretação de cultura popular. É fundamental termos esse discernimento ao nos depararmos com críticas à cultura popular, sobretudo à que é produzida pela grande mídia, para não sairmos por aí reverberando o muito narcísico hábito das redes sociais de acreditarmos ser o centro de todas as críticas.

É indiscutível que o BBB é feito pela Globo para capturar audiência e patrocínio. O que é discutível é se o BBB, como a maioria dos reality shows e da grade de programação da televisão brasileira, é medíocre.

Na minha opinião são, sim, e mais: acho que são estupidificantes, anestesiantes, polarizantes, que têm imensa responsabilidade pela cultura influencer e pela naturalização do péssimo costume que trouxemos do século 20, distraídos, de sobrevalorar performance de carisma em detrimento de qualquer outra qualidade. Além disso, têm como corolário interessante transformar quaisquer discussões, rapidamente, em dramalhão da vida real. 

O Tiago Leifert, que já personificava o sapatênis, nesse caso encarnou também, justamente, essa pessoa, que não entende crítica, e faz a discussão girar ao redor de si.

Discernimento contra desumanização

Por que é que admitir não conhecer alguma celebridade é considerado um sinalizador de complexo de superioridade?

Ninguém questiona a índole de quem diz não saber quem é Carl Sagan ou Issey Miyaki, mas imediatamente chama de arrogante quem não sabe quem é GKay ou Blac Chyna.

Eu não exatamente acompanho os famosos, e por isso hoje em dia só conheço pessoas famosas das áreas que acompanho, e olhe lá.

Nomes de áreas que não acompanho — como sertanejo, séries escandinavas ou blogueiras de moda, para dar três exemplos completamente diferentes — eu realmente não sei.

Eu não gosto de sertanejo, eu acredito no hype sobre a qualidade das TVs sueca, norueguesa e finlandesa, e volta e meia gasto horas vendo fotos, de desfiles de semanas de moda ao redor do mundo pelo prazer visual, e das influencers de Instagram para seguir montando minha crítica feminista sobre gênero nas mídias do século 21.

O que não tenho é interesse o suficiente nestas cenas, e na maioria das cenas em existência, para reconhecer todos os seus atores. Nem interesse nem espaço mental. Ademais, o nosso desconhecimento sobre a maioria das coisas é sempre superior ao conhecimento que temos sobre o pouco que sabemos.

É meio cretino equacionar o desconhecimento das pessoas com soberba. A ignorância pode ser causada por puro desinteresse da pessoa, e tudo bem não ter interesse em todas as áreas ou em áreas específicas da produção cultural humana.

A gente tem que tomar um certo cuidado para não aglutinar significantes e acabar enquadrando sujeitos a partir de uma de suas características. Exercitar o discernimento é um exercício de humanização.

Neologismo e misoginia

Neologismo misógino (e transfóbico, pensa aí): cuceta.

A palavra existe para suavizar a ansiedade de quem têm desejos não cis-hetero-normativos, fazendo discursivamente com que um orifício para esvaziamento seja equiparado ao que dá origem ao mundo.

A palavra opera como um dos muitos dispositivos de proteção de homens cis desse sistema multifacetado de dispositivos de proteção de homens cis chamado patriarcado.

Sempre acho triste quando as pessoas sucumbem a qualquer operação de proteção de homens cis em contextos onde as relações de poder os privilegiam desproporcionalmente – e sexualidade é um desses contextos, e um bastante fundamental na construção e manutenção do patriarcado – e essa palavra existe única e exclusivamente para isso. Não existe outro uso da palavra “cuceta” além de indicar para paus o quão fácil é fazer sexo com aquele orifício.

Mas ânus não é vagina, não. E só quem tem vagina sabe, e sabe muito bem, do universo de diferença que há entre eles. Já cu todo mundo tem e, tal qual a opinião que cada pessoa terá sobre esse texto, que cada um saiba e cuide do seu.

“Cuceta”, como palavra, pode até ser engraçada e divertida no registro pueril que usar neologismo confere a conversas sobre sexualidade. Mas, como conceito aplicável para sedução, é patético, e um artifício inequivocamente machista.

(A sedução infelizmente é um jogo patético e fundamentalmente patriarcal, mas embora a pedagogia do desconforto que tanto emprego seja potente, meus anos de experiência com ela me ensinaram que as pessoas mal dão conta de uma perspectiva objetivamente sagaz e subjetivamente desagradável por vez, então vou deixar essa articulação para outro momento).

Vamo time!

Agradecimento público a todas as mulheres que recentemente têm vindo me dizer que minha pedagogia do desconforto desestabiliza seus entendimentos fazendo-as pensar com mais força a respeito do patriarcado que nos constitui.

Tocar fogo no patriarcado, lógica e inevitavelmente, tem um elemento de imolação, e muito me acalma saber que as mulheres apreciam esse fundamental exercício.

Quem pode falar o quê?

Não parei de pensar num questionamento que a Aline Passos deixou em um dos meus posts, em que falei que opinar sobre o que não se sabe é arrogante.

Eu amo muito o diálogo porque o bom diálogo se desdobra em bons questionamentos e novas realizações, que abrem a cabeça e a retórica, e fazem a gente pensar melhor.

A pergunta dela me fez perceber o que eu já sabia mas estava articulando muito mal aqui, que é: não é exatamente opinar sobre o que se desconhece que penso ser arrogante. Eu gosto quando as pessoas opinam sobre gênero em conversa comigo. Adoro, na verdade.

Acho é bem ótimo que qualquer pessoa tenha uma opinião sobre gênero, pois isso significa que gênero está no registro de seus pensamentos. Isso é meio caminho andado para que a pessoa possa entender gênero, pois já está pensando no assunto.

Já disputar sentido com especialista sobre sua área de especialismo sem ser um especialista na mesma área… isso sim é que é arrogante. Objetivamente arrogante. Indisputavelmente arrogante. Pateticamente arrogante. É pedante e até meio ridículo a pessoa refutar o conhecimento ofertado pelo especialista porque não gosta do que está sendo dito. É super pueril, também.

Uma coisa é pensar que uma questão sobre gênero significa X, e, quando especialista demonstra que na verdade é Y, mudar de ideia. Outra é insistir no X mesmo depois da intervenção. Essa é a soberba que me faz desengatar da conversa, pois evidencia que a pessoa não está ali para o diálogo, e que não me respeita.

Mais uma Titã Imortal

Rest in power (descanse em poder), Joan Didion (23/12/2021). Dos ensinamentos que você ofertou para o mundo, os dois mais importantes para mim foram este texto, tão clássico que a Vogue obviamente o republicou no dia de sua morte, e o trecho de uma de suas muitas entrevistas para o documentário lançado pela Netflix em 2017 “Joan Didion: The Center Will Not Hold” (em tradução livre “O centro não vai segurar”), em que você disse, sobre ser escritora, que não se pode sucumbir à paranoia dos tempos. 

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Joan Didion | Imagem: Reprodução.

Essa realização eu levo comigo no coração e na mente, e ela me salva diariamente da baixaria das redes sociais. Obrigada.

Um brinde à mais uma Titã Imortal no panteão das deusas. Que bell hooks te receba lá com um cálice do melhor Porto.

Quem pode criticar a feminilidade?

Quem pode falar sobre a feminilidade que enfatiza a masculinidade hegemônica, e, consequentemente, sobre padrões estéticos e sociais de feminilidade?

Se quem cabe no padrão estético de feminilidade não pode falar sobre padrões estéticos de feminilidade sob o risco de ser taxada de hipócrita, e quem não cabe no padrão estético de feminilidade não pode falar sobre padrões estéticos de feminilidade sob o risco de ser taxada de recalcada, então o que fazemos?

Somente as mães podem falar sobre maternidade? Somente as trabalhadoras sexuais podem falar sobre trabalho sexual? Somente as freiras podem falar do serviço religioso? Somente as políticas podem falar sobre políticas públicas? Somente as cientistas podem falar sobre o método científico? Somente as professoras podem falar sobre educação? Somente as escritoras podem falar sobre as palavras? Somente as atrizes podem falar sobre dramaturgia?

Mary Wollstonecraft escreveu sobre a reivindicação dos direitos das mulheres já tendo muito mais acesso àquilo a que gostaria que todas as mulheres tivessem acesso; ela não deveria ter escrito o que ainda hoje é considerado um dos primeiros livros feministas? Naomi Wolf não poderia ter escrito sobre o mito da beleza por ser bonita? E o que fazemos com a Shere Hite, que subsidiou sua fundamental pesquisa sobre sexo posando pra Playboy? Ou com a Gloria Steinem, que trabalhou de coelhinha no clube privê do Hugh Hefner para poder revelar as atrocidades machistas que lá ocorriam? Se a Vandana Shiva tomar um Nespresso, vamos deslegitimar seu ecofeminismo? Quando a frase “we should all be feminists” (todos devemos ser feministas), registrada na literatura por Chimamanda Ngozi Adichie, foi empregada pela Dior, isso invalidou os ensinamentos dela? Pietra Dolamita vai à França fazer seu doutorado, então ela não pode mais falar de feminismo indígena brasileiro?

Os homens sempre falaram e escreveram e opinaram e seguem fazendo tudo isso, sobre todos os assuntos, inclusive sobre os padrões estéticos e sociais de feminilidade que servem a eles muito mais do que servem a nós.

Entre nós, deveria haver silenciamento ou encorajamento para quebrá-los?

A feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade é tão bem constituída que nos coloca umas contra as outras quando ousamos atacar suas premissas.

Vamos TODAS NÓS falar sobre a feminilidade enfatizada, sem medo nem vergonha, em alto e bom tom. Somente assim conseguiremos revelar seus disfarces, causar rachaduras em seu caráter opressor, e construir e privilegiar modos outros de feminilidades que nos beneficiem, e não mais aos homens cis que, historicamente, se escoram nos e lucram com os mesmos padrões estéticos e sociais que causam sofrimento e engendram competição entre nós

Que Tutu descanse na paz pela qual trabalhou

“Se um elefante coloca o pé no rabo de um rato e você diz ser neutro, o rato não vai apreciar sua neutralidade”, Desmond Tutu, em 22 de maio de 2009.

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Desmond Tutu | Imagem: Getty Imagens

Levo essa frase tatuada na mente como aprendizado sobre poder, opressão, e a responsabilidade inerente a cada um de nós que vivemos sob o contrato social, de nunca permanecermos na neutralidade que sustenta injustiças.

Que o arcebispo falecido neste 26 de dezembro de 2021 descanse na paz pela qual trabalhou.

A não-escuta é uma covardia

Impedir outrem de falar sobre algo indica saber estar errado ou errando ou se beneficiando do erro sobre este algo.

Alguns de muitos exemplos práticos: o traidor que impede a fala sobre a traição, o antivacinação que impede a fala sobre a epidemia, o branco que impede a fala sobre racismo, a machista que impede a fala sobre misoginia, o cisnormativo que impede a fala sobre gênero, o rico que impede a fala sobre política.

Não querer falar sobre um assunto quando um outro obviamente quer e precisa não é só não querer ouvir o que esse outro tem a dizer. Toda relutância para a escuta sinaliza uma resistência para enxergar realidades e assimilar verdades desconfortáveis. A não escuta é uma covardia.

Ninguém deveria se curvar perante covardia, mas a covardia do poder se expressa com violência e apagamento. Não sucumbir a silenciamentos exige muita coragem e perseverança.

Omicron para viagem

Venho escrevendo estas colunas, desde o começo de dezembro, em várias localidades pelas Américas, e falo isso para contextualizar o que vou dizer a seguir, que é: eu e meu companheiro AJ contraímos Covid-19 na última perna desta nossa linda viagem. 

Nossa jornada foi programada mormente para que nos puséssemos na direção de suas filhas, a quem ele não via desde o início da pandemia, para passarmos Natal, Ano Novo e mais tempo com elas em Yellowknife, NWT, onde moram. E, entre o frio que faz aqui no Ártico e a vinda da minha menstruação, confesso nem ter percebido os sintomas da peste dos nossos tempos. Assim, aqui vai um salve para a exigência de testes, mandatórios para viajantes internacionais, em todos os países por que passamos (além do Brasil, de onde saímos, o Peru, os EUA e, agora, o Canadá). 

Devemos ter sido infectados pelo Omicron, e suspeitamos que esta seja a variante que nos pegou pois não fomos dramaticamente afetados pelos sintomas, como parece ser o caso de acordo com relatos das agências de saúde internacionais, e porque o contágio aconteceu apesar de nossa quasi-neurose com máscaras e desinfetantes em aeroportos – outra característica que a comunidade científica divulgou a respeito desta versão do Covid-19.

Também importa registrar que vacinas salvam vidas; estamos os dois duplamente vacinados pois o Brasil possibilitou a vacinação do marido, estrangeiro, antes mesmo que a Polícia Federal lhe conferisse autorização de permanência nacional. Já eu não poderia, e nem vou receber minha terceira dose por aqui…

Estamos bem graças ao método científico e ao SUS. E é daí que amar e lutar pelo que importa me interessa mais.

Falar e fazer

Não é exatamente fácil, mas não é difícil falar em feminismo, ideologia, cultura, sociedade e patriarcado. É por causa desse falar performático das redes que muitos fazeres que não procuram romper com ideologia, cultura e sociedade patriarcais têm alta passabilidade feminista. 

Onde o subalterno pode falar

Os estudos de gênero são bastante compostos por teorias de procedências diversas.

No meu percurso acadêmico me foram ofertadas (e aprendi também a ir em busca de) leituras oriundas de muitos lugares de todas as partes do mundo, e escritos por uma imensa gama de identidades não normativas.

Muitas boas colaborações dos estudos de gênero vêm até de homens cis brancos europeus/de língua inglesa, mesmo que a maioria das proposições intelectuais mais importantes nessa área tenham mesmo sido feitas por mulheres e pessoas não cis-hétero, não brancas, e situadas em lugares e espaços lidos como subalternos.

Rigor e misticismo

Muita gente usa termos atrelados a isso que é chamado de decolonialismo, sem saber do que se trata, como escudo para não precisar ler nem conhecer textos de fora da América Latina.

Não são só textos europeus e norte-americanos que estas pessoas refutam. É o próprio rigor do pensamento. É uma teimosia pueril o que se coloca entre elas e escritos que mal conhecem.

Feminismo não é crença.

A feminista não deve agir de forma mais parecida com a jovem mística do que com a intelectual racional.




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo