Foto: arquivo pessoal

Jornalista reúne histórias de mulheres que mataram seus agressores em legítima defesa

Postado em 07/09/2020, 16:39

“Elas em legítima defesa”, de Sara Stopazzolli, aprofunda a discussão sobre o estopim da violência doméstica

Das 4.936 mulheres mortas no Brasil em 2017, 88% foram vítimas de feminicídio, assassinadas pelos companheiros ou ex-companheiros, segundo o Atlas da Violência publicado em 2019.  Fruto de uma pesquisa de mais de quatro anos, o livro digital Elas Em Legítima Defesa – Elas Sobreviveram Para Contar, de Sara Stopazzolli, em lançamento pela editora DarkSide, traz histórias reais de mulheres que sofreram abuso e violência doméstica e que mataram seus parceiros para preservar a própria vida. A obra acompanha as histórias reais de Nice, Soraia, Deise, Doralice, Emília e Úrsula, mulheres que viveram relacionamentos abusivos.

A pesquisa de Sara também originou o documentário “Legítima Defesa”, idealizado e escrito por ela e pela irmã Leda Stopazzolli, e lançado e premiado na Mostra Competitiva do Festival Internacional Mujeres En Foco, em Buenos Aires, em 2017.

Durante os três primeiros meses de lançamento, 100% da verba arrecadada com as vendas do ebook será revertida para a Associação de Mulheres com Atitude e Compromisso Social (AMAC), ONG de Duque de Caxias (RJ) que atua desde 2010 no trabalho de acolhimento e apoio às mulheres e famílias vítimas de violência doméstica.

 

OBRA REÚNE DEPOIMENTOS DE VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA QUE ROMPEM O PADRÃO DE SILÊNCIO DA SOCIEDADE

Após examinar 50 processos nos Tribunais de Justiça do Rio de Janeiro e de São Paulo, Sara foi em busca de vítimas de violência de gênero em relações afetivas e ouviu relatos brutais. A obra acompanha essas mulheres, passando pela paixão inicial, as primeiras agressões, a escalada da violência, o momento da luta pela sobrevivência, os julgamentos e, por fim, a reconstrução de suas vidas.

O livro é enriquecido ainda por histórias inéditas, novos dados, ilustrações da artista Juliana Russo, frames do filme, além de estatísticas recentes e o aprofundamento de um tema — infelizmente — mais atual do que nunca.

Natural de Florianópolis (SC), Sara Stopazzoli mora no Rio de Janeiro (RJ). O documentário Legítima Defesa é o primeiro filme em que ela assina a pesquisa e o roteiro. A jornalista, pesquisadora e roteirista dirigiu e roteirizou o documentário em curta-metragem Escola de Homens, lançado pela mov.uol, que explora o ponto de vista de homens que frequentam um grupo reflexivo para supostos autores de violência doméstica.

Recentemente, lançou o canal de podcast Luneta do Crime (@luneta_do_crime), onde conta histórias desconhecidas de crimes reais cometidos contra mulheres no Brasil. Também é produtora e fundou, em 2013, o Mera Semelhança, onde tem desenvolvido projetos audiovisuais.

Ilustração que integra o livro: Juliana Russo

Conversamos com Sara Stopazzoli para saber um pouco mais sobre a obra e os caminhos que a levaram ao tema da violência doméstica.

Como se deu a ideia de fazer um documentário com esse assunto que agora virou um livro?
A minha irmã gêmea estudante de direito e eu jornalista e trabalhávamos com audiovisual, vimos uma palestra e pensamos em fazer uma série de mulheres que reagem à violência masculina. Em 2013 não tinha lei de feminicídio, os jornais taxavam essas mulheres como assassinas e não como legítima defesa. Conversei com promotores, advogados, tive acesso a processos e descobri que havia muito mais casos de mulheres alegando legítima defesa do que imaginava. Daí ganhamos um edital e conseguimos financiar a pesquisa, em seguida ganhamos outro edital para filmar. Em 2017, o documentário foi lançado.

Como o público recebeu o documentário?
No começo, nossa proposta era de falar sobre os relacionamentos que culminaram neste crime. Tiveram pessoas que antes mesmo do lançamento falaram que estávamos dando palco para mulher assassina. Mas, depois que o filme estreou, foi bem recebido, as pessoas entenderam o lado humano que estava por trás dessas mulheres, a diretora Susanna Lira foi bem sensível também.

Há nessas mulheres o sentimento de culpa e tudo mais, mas há também o esgotamento mental dessas violências que sofriam e que acabaram na morte do companheiro.

Essas mulheres que aparecem tanto no doc quanto no livro sofriam caladas? Alguma delas chegou a fazer BO?
A maioria delas que aparece no documentário e no livro tem um histórico de violência doméstica. No processo, tem testemunhas que viam e ouviam os episódios violentos, mas por medo e pela questão dos filhos não denunciaram. Na maioria dos casos já existia a Lei Maria da Penha, mas por medo elas não faziam BO. Tem duas mulheres que eram casadas com policiais, então tinham medo de denunciar e o cara ser taxado na corporação e chegar e matá-la depois.

Tem mulheres do interior que não têm acesso. Tem um caso emblemático de uma que escrevia na estrada de terra, próximo à casa dela, deixava recado pedindo ajuda. Chegaram a ligar pra ela, mas não deu em nada.

Como surgiu a ideia de escrever o livro?
Eu era repórter, sempre gostei de escrever e não conseguia explicar tanta informação que me perguntavam nos debates, então pensei “vou fazer um livro”. Eu fiz exatamente o diário de jornada para fazer o filme. O livro intercala a minha história, a pesquisa, com a história dessas mulheres. A proposta do livro é a mesma do doc, mas de uma maneira mais aprofundada. No livro eu contextualizo o porque da mulher passar por essas violências que chegam ao estopim de matar o homem. A imprensa trata de uma forma mais superficial, ou trata de casos de mulheres ricas, brancas.

Fico pensando como mulheres que sofrem violência do companheiro devem estar agora na pandemia…
Durante a pandemia ficou mais difícil, mas acho que nada vai mudar, não é um disque-denúncia que vai resolver, acho importante, mas tenho minhas dúvidas se realmente funciona. A prioridade para tratar desse assunto e mudar a cultura da sociedade é a educação. Eu fiz um curta-metragem que mostra cerca de 15 homens acusados de violência doméstica que frequentam grupos reflexivos. E eles não sabiam o básico, pra eles é natural, é como eles foram educados.

O homem é mais forte, é quem manda na casa… eles não sabem que violência verbal é violência, pra eles é só a física que é crime. Então, a educação tem o poder de mudar isso.

É só e-book? Como está a expectativa?
O livro físico ainda não tem data por conta da pandemia, mas o e-book está lançado, já é o um dos mais vendidos na Amazon. E as vendas dos primeiros 3 meses vão para doação de uma ONG na baixada fluminense. Estou com expectativa boa e gostaria que um público diverso lesse, que esse conhecimento se expanda, que não fique só na nossa bolha.