O mês é agosto do ano de 2025 e, talvez mais do que nunca, é imprescindível reafirmar que a luta pelo direito ao Orgulho e reconhecimento da Visibilidade Lésbica é, sobretudo, uma defesa e uma reivindicação por democracia plena. 

Inaugurado em 1961 e sempre associado aos corpos dissidentes e rejeitados – prostitutas, comunistas, jornalistas e artistas – de São Paulo, o Ferro’s Bar se tornou referência da resistência lésbica durante a Ditadura Militar (1964-1985), como um reduto para livre-vivência. 

Foi a partir dali que suas frequentadoras passaram a organizar, em 1981, o Grupo de Ação Lésbica Feminista (GALF), num evidente movimento de afirmar a identidade lésbica e feminista diante da organização do Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), protagonizado pelos homens gays. Isso ocorreu um ano depois do MHB aderir à Marcha do 1º de maio, no ABC Paulista, empunhando uma faixa com os dizeres: “Contra a discriminação do/a trabalhador/a homossexual”.

Em 19 de agosto de 1983, impedidas de vender, dentro do Ferro’s, o boletim Chanacomchana – fanzine produzido para divulgar o movimento –, as lésbicas se rebelaram e protagonizaram o conhecido “Levante do Ferro’s Bar”: resistiram à expulsão violenta, ocuparam o estabelecimento, leram o manifesto contra a repressão e pelos direitos das mulheres lésbicas. 

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Rosely Roth lendo o boletim ChanacomChana | Crédito: reprodução.

Marisa Fernandes, uma das pioneiras do movimento de lésbicas no Brasil, afirmou em entrevista para a BBC que “durante a Ditadura Militar, o modo de vida LGBT sofreu repressão com as tentativas de ocultar suas manifestações, porque a violência do Estado autorizava e apoiava a perseguição contra homossexuais”.

Mas foi apenas treze anos após este episódio, e oito anos depois de Ulysses Guimarães assinar a Constituição Cidadã, que, em 29 de agosto de 1996, lésbicas de todo o Brasil se reuniram pela primeira vez como um movimento político nacional, durante o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (Senale)

Evento que, em sua 12ª edição em 2025, passou a se chamar Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais (Senalesbi). A incorporação de debates e a visibilidade de mulheres bissexuais já vinha sendo incorporada desde 2014. 

Ao levante de 1983 referenciamos o Dia Nacional do Orgulho Lésbico (19 de agosto), e à data de abertura do Senale convencionamos chamar de Dia Nacional da Visibilidade Lésbica (29 de agosto)

Na prática, o que separa os dois episódios é o contexto histórico: no primeiro, a luta contra repressão, a necessidade de afirmação de nossa existência e a defesa da reabertura democrática; no segundo, já sob a jurisprudência da democracia formal, a necessidade de se organizar coletivamente para formular a reivindicação de direitos específicos. 

É inegável que algumas conquistas materiais podem ser listadas nas últimas décadas: casamento civil, direito à adoção, ampliação das ocupações de espaços de poder, decisão por vereadoras e deputadas assumidamente lésbicas, e uma possibilidade de diálogo mais aberto sobre nossa orientação sexual.

Podemos até dizer que “a sociedade tem nos aceitado mais”, porém, essa percepção não pode ser esvaziada dos marcadores de raça e classe, uma vez que os casos de lesbofobia e lesbocídio envolvendo mulheres lésbicas racializadas, periféricas, masculinizadas, se acumulam sem desfecho – a exemplo dos casos de Luana Barbosa e Carol Campelo

Entre 2015 e 2022, os casos de violência contra mulheres lésbicas no Brasil cresceram 50%, passando de 1.721 para 3.478 ocorrências, segundo dados do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (Sinan)

As informações fazem parte de um estudo publicado em 2024 pelas pesquisadoras Camila Rocha Firmino e Kamilla Dantas Matias, com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Do total de registros, 56% envolvem mulheres negras, evidenciando o recorte racial como fator agravante da violência.

Os ataques mais recentes da extrema-direita, que flertam com os movimentos golpistas dos anos 1960, são saudosos dos conceitos de “Tradição, Família e Propriedade” e da defesa do que julgam ser “moral e bons costumes”, com a difusão constante de discursos de ódio, perseguição e depreciação da dignidade de pessoas LGBTIA+. Esses ataques têm fortes reflexos sobre a existência de mulheres lésbicas. 

Trata-se aqui, inclusive, de ataques à subjetividade, que refletem diretamente na materialidade dos direitos fundamentais – mais e tão profundamente do que nos bens materiais. Como diria a canção de Zélia Duncan: 

Os imorais

Falam de nós,

Do nosso gosto,

Nosso encontro,

Da nossa voz.

Os imorais

Se chocam

Por nós,

Por nosso brilho,

Nosso estilo,

Nossos lençóis…

Se, no passado, o levante no Ferro’s foi por dignidade, e o Senale, por reconhecimento político, hoje seguimos porque sabemos que nossa existência é o avesso do autoritarismo. Ser lésbica, viver e amar como lésbica — tudo isso é, por si só, uma recusa ao projeto conservador e normativo de sociedade.

Por isso, não há visibilidade lésbica sem democracia, e não há democracia real sem o feminismo como chave de transformação. A luta das mulheres lésbicas não cabe em discursos que neutralizam gênero, raça, sexualidade e classe. Ela exige nome, voz e ação.

Seguimos resistindo. Seguimos existindo. Seguimos exigindo: um futuro onde viver sendo lésbica não seja exceção, resistência ou risco — mas potência.

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  • Carla-Ayres

    Cientista social, mestre em Ciência Política pela UFSCar e doutora em Sociologia Política pela UFSC. Militante desde a a...

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