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Imagem: Unsplash

Reino Unido e transfobia midiática importada para o Brasil

Postado em 29/10/2021, 15:42

*Por Beatriz Pagliarini Bagagli.

Entenda porque não podemos importar a transfobia midiática do Reino Unido para o nosso contexto brasileiro

Vamos falar sobre a matéria prontamente traduzida para o português pela BBC News Brasil “as lésbicas acusadas de transfobia por recusarem sexo com mulheres trans”. Primeiro, temos que saber que a mídia do Reino Unido já foi descrita inúmeras vezes como completamente tóxica em relação a questões trans, a ver: Surprise surprise, the ‘toxic debate’ around trans rights is harming the UK, says human rights expert (Surpresa surpresa, o ‘debate tóxico’ em torno dos direitos trans está prejudicando o Reino Unido, diz o especialista em direitos humanos) e Trans in the UK: What the Hell Are We Going To Do? (Trans no Reino Unido: Que diabos vamos fazer?).

No Reino Unido, uma avalanche de matérias é publicada a cada ano a respeito de como mulheres trans são ameaçadoras, “homens estupradores em potencial” que vão invadir banheiros públicos femininos e espaços segregados por gênero para abusar de mulheres (presumidamente cis). Há uma verdadeira obsessão nesse país em retratar mulheres trans a partir da ideologia TERF (Feminista Radical Trans-excludente – versão traduzida do termo). Há um exército de jornalistas e comentaristas TERFs que constroem a perspectiva hegemônica a respeito de “questões trans” na mídia. A representação de mulheres trans como uma ameaça no mais recente texto da BBC é abordada criticamente por uma carta aberta.

Aliás, o próprio enquadramento do “debate” como uma “questão trans” rememora o enquadramento nazista da “questão judaica” e abre brecha para legitimar posicionamentos transfóbicos — como se existissem os tais “dois lados”, o das pessoas trans e dos “críticos de gênero”, que deveriam ter seus argumentos igualmente expostos em um “debate racional”, pois ambos seriam simétricos do ponto de vista de sua legitimidade ética.

Isso obviamente tem impactos: a reforma da lei de identidade de gênero com o objetivo de facilitar a retificação de documentos de identidade no Reino Unido foi fracassada pela representação hegemônica de mulheres trans como homens estupradores “em potencial”. Sim, a mídia do Reino Unido conseguiu construir o pressuposto incontornável na consciência pública de que a autodeclaração para retificação jurídica dos documentos de pessoas trans suscita uma “preocupação” tida como legítima de mulheres cis que estariam em risco de serem abusadas por um “homem que muda o seu documento para o sexo feminino para abusar”.

Não interessa que em todos os países do mundo que implementaram a autodeclaração identitária para acesso à retificação de documentos de identidade não houve sequer um caso anedótico de abuso nesse sentido, incluindo o Brasil.

Vejam, o Brasil está mais avançado em direitos formais para a nossa população que o Reino Unido. Não interessa que na Argentina a autodeclaração já existe há 10 anos e nenhum incidente do tipo tenha acontecido. O discurso TERF cria discursivamente esse perigo hipotético e pessoas trans perdem direitos civis.

Não há nenhum precedente que possamos comparar com a mídia do Brasil. O Brasil não pode ter o “luxo” de “importar” nem por um milésimo de fração o funcionamento midiático TERF que existe no Reino Unido, porque não temos as mesmas redes de seguridade social que um país como o Reino Unido pode ter por ser um país rico. Entenda a importância disso: não podemos nos darmos o “luxo” de importar a transfobia de um país como o Reino Unido.

Somos pobres e colonizados, não podemos permitir que TERFs ocupem a mídia e passem a militar contra os nossos direitos. Não temos uma mesma estrutura de bem-estar social que poderia pelo menos atenuar parte dos ataques TERFs contra a nossa comunidade. Não podemos ter o “luxo” de ter uma mídia hegemonizada por TERFs falando diariamente sobre como mulheres trans são homens estupradores em potencial em um país que expulsa travestis desde jovens das suas casas, escolas e locais de trabalho, cuja expectativa de vida não chega à quarta década de vida. A falta de acesso a maneiras desburocratizadas de retificação de documentos, por exemplo, afeta desproporcionalmente as pessoas trans mais vulneráveis, as mais pobres, as pessoas trans negras, etc.

Vamos então falar do tal “cotton ceiling”. Isso não é nenhuma novidade no universo paralelo TERF. O desdobramento dessa questão pode ser descrito como um exemplo de “o pessoal é político” — ou seja, até que ponto gostos pessoais, a própria sexualidade de alguém, são influenciados pelas normas sociais. A norma social é cisgênera, logo é de se supor que pessoas trans sejam preteridas em relacionamentos afetivos.

Veja bem: eu não acho que as problematizações trazidas pelo movimento trans a respeito de nós questionarmos como os nossos próprios “gostos” (neste caso a própria sexualidade) têm relações com as normas justifica o discurso TERF de que mulheres trans estejam coagindo lésbicas cis a se relacionarem com mulheres trans.

Percebam que isso poderia ser aplicado inclusive para nós mesmas — será que nós, pessoas trans, deixamos também de nos relacionar com outras pessoas trans por causa do preconceito?

Mas eu gostaria de pontuar algumas questões.

Eu tenho que dizer, por outro lado, que não concordo plenamente como algumas questões pontuais são efetivamente formuladas por parte da militância trans. Eu peço para todas as pessoas trans que estejam lendo esse texto a pensarem na importância de sermos estratégicas e pragmáticas na forma como nos comunicamos. É preciso ser estratégico na forma como formulamos o que defendemos.

Se não queremos que TERFs venham a público dizer que o movimento trans está coagindo lésbicas a terem relações sexuais com mulheres trans — talvez tenhamos que pensar (ou repensar) a forma como estamos falando dessa questão a fim de não darmos nenhuma brecha, aos olhos do grande público, de que o discurso TERF soa razoável, mesmo que remotamente.

Ao invés dizermos coisas um tanto nebulosas como “a exclusão prévia de pessoas pertencentes a um grupo minoritário como parceiras em potencial denota preconceito” por que não declaramos, de forma simples e inequívoca, que “você não é transfóbico porque se recusou a se relacionar com uma pessoa trans” ou “você não precisa se relacionar com uma pessoa trans para provar que não é transfóbico”?

Talvez um dos blogs em português que abordou primeiramente a discussão de “cotton ceiling” foi o Feminismo Trans. A forma direta e pragmática com que aborda a questão é notável e deve ser lembrada:

absolutamente qualquer motivo para se recusar sexo é um motivo válidovocê não precisa fazer sexo com ninguém se não quiser; não importam seus motivos e afirmar que não fazer sexo com mulheres trans seria transfobia é obviamente mentiroso e elas [TERFs] certamente sabem disso”.

Em que pese a legitimidade de questionarmos os nossos próprios “gostos” pessoais, eu acho que não podemos esquecer “quem” se questiona a respeito “do quê” neste caso: somos nós mesmos que fazemos isso de forma autorreflexiva. Com isso quero dizer que apenas a própria pessoa pode se “auto questionar” a respeito da relação entre as normas sociais e a própria sexualidade, e as conclusões a respeito desse gesto só podem ser obtidas pela própria pessoa.

Assumir que podemos “problematizar” a sexualidade das demais pessoas e termos acesso ao quão supostamente “descontruído” alguém é me parece um sinal de alerta vermelho. Não existe uma sexualidade “correta” e não normativa — fora das normas. A autorreflexão a respeito dessas questões não vai implicar necessariamente em uma “desconstrução” do desejo normativo. Não podemos esperar que todas as pessoas “desconstruam” os seus desejos ou que se coloquem em uma posição de autorreflexão a respeito das normas. Não podemos exigir isso como forma de se “provar” que alguém não seja transfóbico.

Se queremos construir um espaço em que as normas tenham um menor impacto na forma como nos relacionamos talvez tenhamos que mudar a percepção do foco nessa discussão.

Sejamos francos: não queremos que pessoas transfóbicas reflitam a respeito da própria sexualidade para se relacionar conosco. Ninguém se importa se você não se atrai por mulheres trans e travestis.

O que de fato queremos é que as pessoas compreendam a sexualidade de pessoas trans e de seus parceiros de uma forma não estigmatizante. O que queremos é que as pessoas entendam que mulheres trans são lésbicas se se relacionam exclusivamente com mulheres e homens trans são gays se se relacionam exclusivamente com homens. O que queremos é que a nossa sexualidade seja respeitada porque o nosso gênero foi respeitado. O que queremos é que pessoas que não se relacionam com pessoas trans não generalizem as suas formas de compreenderem a própria sexualidade para todas as demais. O que estamos pedindo não é nada de extraordinário.

* Beatriz Pagliarini Bagagli tem mestrado em linguística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e atualmente é doutoranda em linguística pela mesma instituição. Integra o grupo de pesquisa Mulheres em Discurso, liderado pela professora Mónica Zoppi Fontana. Membra da Associação Brasileira Profissional pela Saúde Integral de Travestis, Transexuais e Intersexos (ABRASITTI). Pesquisa na área de análise do discurso temas referentes à subjetividade transgênera, a compreensão do sofrimento psíquico, corporalidades e feminismo radical trans-excludente.

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