Jornada de Lutas reivindica terra e crédito para as mulheres sem-terra | Foto: Ana Claudia Araujo

Por terra, crédito e direitos, mulheres ocupam sede do INCRA na grande Florianópolis

Postado em 06/03/2018, 14:15

Cerca de 160 mulheres sem-terra ocupam a superintendência regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em São José, na Grande Florianópolis, desde a manhã desta terça, 6 de março. A ação é parte da Jornada de Lutas, campanha nacional promovida pelo Movimento Sem Terra e que deve mobilizar em todo o país cerca de 15 mil mulheres, segundo estimativas do movimento. As sem-terra chegaram em quatro ônibus que passaram por ocupações e assentamentos de todo o Estado e devem se integrar às atividades programadas para o Dia Internacional da Mulher em Florianópolis.

Em cartazes colados na fachada e no interior do prédio, onde as manifestantes também instalaram colchões e outros pertences, elas expressam as bandeiras da jornada de lutas das mulheres sem-terra neste oito de março. As principais são a reforma agrária e condições para a produção das assentadas. “Estamos levando pra sociedade essa pauta com um olhar da mulher. A reforma agrária tá paralisada em todo o país”, afirma a dirigente nacional do MST, Márcia Marcon. “Precisamos de cestas básicas, lonas, condições pros acampamentos e também de crédito para as mulheres (Fomento Mulher)”, complementa a dirigente Irma Brunetto. O Programa de Crédito Fomento Mulher, que oferece investimentos para as titulares dos lotes da reforma agrária, possibilita às mulheres maior autonomia sobre a produção e a propriedade. “Com crédito, a mulher tem mais voz, mais comando no que investir. São elas que fazem a agroecologia”, exemplifica.

A viagem começou ainda na segunda-feira à noite para Roseli Martins, 47 anos, e Dejanira Meireles Veiga, 68. Pouco mais de 300 quilômetros separam o acampamento onde vivem, em Santa Cecília, da capital. Mas o caminho era longo até o ponto de encontro com o ônibus e havia ainda outros desvios no caminho para o embarque de outras mulheres. Dejanira vive há seis anos na ocupação com a família à espera de assentamento. Roseli, as famílias do filho e do irmão estão lá há três. “Estamos um pouco perdidas ainda”, sorri Roseli. Espera poder aproveitar a viagem pra esclarecer dúvidas do seu cadastro para o assentamento. Tímidas, falam pouco e mostram cansaço, mas garantem que a viagem vale a pena. É a primeira vez que as amigas vem à capital. Da sede envidraçada do Incra, à beiramar, admiram a praia e se espantam quando conto que a água é poluída. O MST calcula que há cerca de mil famílias como as de Dejanira e Roseli esperando assentamento em Santa Catarina.

A jornada de lutas também costuma contribuir para a formação política da população sem-terra. Estão previstos debates sobre a violência contra a mulher e a conscientização sobre os direitos. “Dentro da nossa jornada a gente se engaja no conjunto de outras mulheres que também tem suas demandas e leva em consideração o momento que a gente tá vivendo no Brasil. Lutamos contra o golpe, pela democracia, contra as privatizações, por nenhum direito a menos, em defesa dos direitos que estão sendo tirados da classe trabalhadora”, diz Irma Bruneto.

Como a reforma agrária é pauta central, as concentrações da jornada de lutas pelo Brasil devem acontecer principalmente nas sedes do INCRA, mas as lutas específicas de cada estado também tem espaço. Na Bahia, a jornada de lutas levou as sem-terras para a frente da fábrica de celulose da Suzano, no município de Mucuri, nesta segunda (5). Em torno de mil mulheres participaram do ato, conforme o MST.

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