Jornalistas latino-americanas discutiram os riscos de exercer a profissão frente aos abusos de poder/Foto: Paula Guimarães

O trabalho de mulheres jornalistas é imprescindível para as democracias

Postado em 08/05/2019, 10:34

Durante dois dias, mais de cem jornalistas latino-americanas de diversos países se encontraram em Montevidéu, no Uruguai, e trocaram experiências, debateram saídas e articularam formas de atuação para enfrentar as ameaças à liberdade de expressão que afetam a região e impactam principalmente o trabalho de mulheres jornalistas que, a partir de uma perspectiva de gênero, se dedicam a compreender o contexto da sociedade em que estão inseridas e informar sobre os abusos de poder e as desigualdades estruturais presentes em países marcados pelo colonialismo e o fortalecimento do neoliberalismo.

Leia também sobre a participação da jornalista Eliane Brum. 

Perseguidas e ameaçadas por discursos machistas e misóginos, que tentam calá-las e se utilizam principalmente dos meios digitais como ferramenta, algumas jornalistas latino-americanas não podem mais exercer o seu direito à profissão ou sofrem com a autocensura, atemorizadas pelo cotidiano violento que estão inseridas. Os desafios de ser mulher e jornalista em cada um dos países latino-americanos, conservando suas especificidades, mas que compartilham de um contexto de disseminação do ódio aos temas de gênero e sexualidade, foi um dos principais assuntos de debate.

No primeiro dia do encontro, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em 3 de maio, foi realizado o seminário “Amenazas a la libertad de expresión en contextos de desinformación”, na Universidad de La República, organizado pelo coletivo feminista Cotidiano Mujer, Articulación Feminista Marcosur e Unesco. 

“Trazer as vozes de mulheres jornalistas, que têm um olhar e voz potentes na América Latina e que nos ilumina, de mulheres que tem um lugar nos meios conquistados através de seu profissionalismo em uma profissão que segue tendo uma cara masculina. E na verdade quem está fazendo história são as mulheres jornalistas”, afirmou a ativista uruguaia Lilián Celiberti, integrante do Cotidiano Mujer.

Ao destacar que a liberdade de expressão, em particular a sua relação com a segurança das jornalistas, está ameaçada, Lilian citou que as formas de ameaças são diversas, incluindo a concentração dos meios de comunicação, que é alarmante na região. “Quando os meios fecham, e no Uruguai temos circunstancias desse tipo, a liberdade está ameaçada, pois só a pluralidade de meios é que permite gerar um espaço plural de fortalecimento da democracia”, afirmou.

Os riscos ao exercício do jornalismo e as consequências deste contexto de violência para a democracia foram abordados também por Lidia Brito, diretora do Escritório Regional de Ciências da UNESCO para a América Latina e Caribe. De acordo com ela, mulheres jornalistas estão sendo atacadas também no contexto de coberturas eleitorais. “Os cidadãos informados estão mais capacitados para aceitar os resultados de eleições livres. Os jornalistas têm papel fundamental para a democracia e pode atuar na redução das polarizações, prevenindo a violência e a guerra”, ressaltou. Segundo Lidia, o componente de gênero é central para a discussão sobre liberdade de expressão.

Inserir os temas de gênero na formação dos estudantes, desde o ensino básico, até o doutorado, e principalmente nos cursos de jornalismo, no sentido de buscar a equidade de gênero por meio da atuação dos meios de comunicação, foi uma das propostas abordadas por Aimée Vega, presidenta da Alianza Global de Medios y Género (GAMAG). “A aliança foi lançada para alertar e chamar os meios a assumirem suas responsabilidades com as mulheres”.

A redução da desigualdade de gênero em cada um dos países que compõe a América Latina perpassa a possibilidade de que as jornalistas que vêm atuando a partir de um enfoque de gênero para compreender as complexidades sociais possam atuar com liberdade e segurança. A perspectiva feminista das jornalistas presentes ao longo do debate demonstrou que se faz necessário o esforço de denunciar o machismo e a misoginia tanto na produção jornalística produzida quanto no âmbito da própria estrutura profissional, em que a precarização do trabalho de jornalista tem afetado principalmente as mulheres.

As fake news como forma de ataque às feministas, criando falsas informações sobre a atuação do movimento, aliadas à invisibilização por parte dos meios da diversidade de gênero e orientação sexual, e de mulheres negras e indígenas, influenciam diretamente no cenário de desinformação vivenciado na América Latina. A adoção de linhas editoriais anti-direitos por parte de alguns veículos, se aliando à governos conservadores e reacionários também foi denunciada.

Plenária no dia seguinte ao seminário definiu a elaboração de documento oficial do encontro/Foto: Paula Guimarães

Após o seminário, três grupos de trabalho realizaram encontros simultâneos no dia posterior ao seminário – Grupo de periodistas do Uruguai, Grupo da Red Internacional de Periodistas com Visión de Género e grupo da Alianza Global de Medios y Género (GAMAG). Ao final das assembleias, foi elaborado um comunicado oficial de jornalistas e comunicadoras da América, integrantes do GAMAG e da Articulación Feminista Marcosur a partir dos diagnósticos e propostas discutidas. Entre as necessidades apontadas para a garantia da liberdade de expressão de jornalistas mulheres e as possibilidades de que perspectiva de gênero possa ser efetivada em toda a sua potência está a defesa do estado laico e o fortalecimento de políticas sociais de gênero na região.

Confira o comunicado oficial: