Foto: Raffaella Fryer-Moreira/Ilustração: Isadora Caldas

Maternidade em tempos de Pandemia: Kunã Aranduhá e a situação Guarani e Kaiowá

Postado em 04/07/2020, 16:12

Jaqueline Gonçalves, uma das lideranças do Kunangue Aty Guassu, movimento de mulheres indígenas Guarani e Kaiowá, denuncia a situação vivida em Dourados (MS).

Falar de maternidades em tempos de pandemia, é falar de cuidado, de afeto, mas também de dor e sofrimento. Até este momento evitei alguns assuntos, buscando de alguma forma transformar essa série em algo leve. Mas está difícil tratar de forma suave o período que estamos vivendo. E neste artigo vou abordar a forma como as mulheres indígenas Guarani e Kaiowá estão vivenciando a pandemia. Trago esse texto em forma de relato, denúncia e pedido de ajuda, para uma população que aprendi a respeitar no período em que morei em Dourados (MS).

No relato de Jaqueline Gonçalves, uma das lideranças do Kunangue Aty Guassu, movimento de mulheres indígenas Guarani e Kaiowá, no vídeo de denúncia abaixo, mas também por meio dessa entrevista com ela, podemos tomar consciência da grave situação vivida pela população indígena de sua etnia, no município de Dourados. Jaqueline, minha interlocutora também é mãe. Mesmo que exerça de forma excepcional sua maternidade, não deixa de estar à frente das urgentes medidas de proteção para a sobrevivência de seu povo.

https://www.facebook.com/kunangueatyguasu/videos/644228922833929

Nesta semana a primeira morte do primeiro indígena que residia na Reserva Indígena de Dourados, foi registrada. O enterro de Evaristo Garcete, 59 anos, mostra a realidade dos povos indígenas no país ante a pandemia do coronavírus (covid-19). Evaristo, sepultado ao lado da esposa e do filho caçula, teve sua cova feita pelo filho mais velho, na Aldeia Bororó, em Dourados, a 225 quilômetros de Campo Grande.

O vídeo narrado por Jaqueline informa que, em maio deste ano, foi diagnosticado o primeiro caso de Covid-19 entre os indígenas Guarani e Kaiowá. No início de junho já eram mais de 80 casos. A cidade de Dourados, município que abriga a Reserva Indígena, não tem leitos suficientes para todas as pessoas. O Estado do Mato Grosso do Sul possui a segunda maior população indígena do Brasil. São 51 mil indígenas Guarani e Kaiowá. Mais uma vez me surpreendo com a força e a resistência das mulheres indígenas. São mulheres incansáveis que não deixam de estar disponíveis para ajudar e trabalhar em prol de seu povo e da sua comunidade.

Mesmo diante do medo, da insegurança de também ser infectada, uma percepção do coletivo, da vida e da proteção de todos em favor do bem comum, na busca do bem viver, move essas mulheres que também são mães Guarani e Kaiowá. Elas não pensam apenas na proteção dos seus, pois todos seus parentes merecem o mesmo acolhimento e proteção e por isso estão em luta. Prova de que resistem há 520 anos, como afirma Jaqueline, resistentes às violências, ao genocídio e às doenças.

Especialmente em relação a questão das maternidades neste momento de pandemia, Jaqueline me apontou três grandes desafios:

O primeiro seria o desafio do atendimento às parturientes. Ela explica que a atuação de uma equipe de doulas voluntárias auxilia as parturientes indígenas a terem acesso ao parto com segurança, evitando que tenham que  se deslocar ao hospital durante esse período da pandemia. O aplicativo de acompanhamento, que possibilita a retirada das dúvidas para que as grávidas não se desloquem de casa e se dirijam até o hospital sem necessidade é uma iniciativa que está sendo colocada em prática em Dourados, mas que ainda não atingiu todas as mulheres, devido à dificuldade de acesso à internet para a maioria.

Jaqueline também ressaltou as interseccionalidades presentes no acometimento do vírus e na forma de tratamento das vítimas da Covid-19. Para ela:

“a pandemia tem gênero, raça e classe, pois são os indígenas, negros, as pessoas da periferia e da classe trabalhadora que estão morrendo vítimas da Covid-19. São as mulheres, empregadas das indústrias e as domésticas que não têm direito ao isolamento e precisam sair de casa para trabalhar todos os dias”.

Segundo afirma, para as mães trabalhadoras o trabalho triplicou assim como para ela que atua na linha de frente no enfrentamento à Covid-19 na região da Grande Dourados. Jaqueline e outras pessoas não podem estar em isolamento pois trabalham em equipes interdisciplinares de profissionais da saúde, atuando no atendimento e em diferentes atividades. É um trabalho incansável e desafiador, já que lida com a realização e a manutenção das barreiras sanitárias que impedem o acesso às terras indígenas, na arrecadação e entrega dos mantimentos e remédios. Todo o trabalho para que os/as indígenas possam permanecer em isolamento, em suas aldeias, áreas de retomada, e na Reserva Indígena de Dourados. Além de todo esse trabalho importante, Jaqueline também está presente em casa, pois sua filha, como qualquer outra criança, também precisa de auxílio para as atividades escolares realizadas de forma remota neste momento.

Jaqueline conclui que “a pandemia nos desafia enquanto mulher, enquanto mãe, enquanto estudante”. Enquanto profissional na linha de frente dos cuidados, ela vislumbra a atividade “como um trabalho incansável que a impede de pensar no próprio isolamento social”. Novamente as mulheres indígenas, e lideranças como Jaqueline Gonçalves, nos ensinam como a coletividade deve/pode estar à frente das questões pessoais.

Um salve à Jaqueline Gonçalves e toda a equipe de voluntários, profissionais de saúde que atuam na linha de frente, na luta pela vida dos povos indígenas. Quem puder ajudar ajude! Quem puder fique em casa!




Claudia Regina Nichnig é historiadora, advogada e doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina, na área de Estudos de Gênero, e pós-doutora em História e Antropologia Social.
Veja a coluna da Claudia Regina Nichnig