Quando o assunto é linguagem não binária, Jana Viscardi é referência. Doutora em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas, ela é conhecida por seus vídeos críticos, onde populariza o conhecimento sobre as ciências da linguagem e discute cada vez mais os usos inclusivos da língua portuguesa, que em sua visão são expressões legítimas e criativas da comunidade de escreventes e falantes.

Em entrevista, ela diz que as tentativas sistemáticas de barrar o uso da linguagem neutra em escolas e órgãos do Estado reflete o preconceito de gênero que está enraizado em nossa sociedade e é responsável por manter o Brasil na liderança do ranking de países que mais matam pessoas trans, de acordo com dados da Associação Nacional de Trans e Travestis (Antra). Confira a conversa.

Jess Carvalho: A língua portuguesa prevê a linguagem não binária? Na sua opinião, é possível fazermos variações neutras sem causar prejuízo à língua?

Jana Viscardi: Em geral, quando se diz que a linguagem não binária não existe, é porque está se levando em consideração a norma que as pessoas também conhecem como gramática normativa, né? Então, quando a gente está se perguntando se prevê, assumimos a possibilidade da língua se transformar ou entendemos que a língua é uma coisa só? Porque muitas vezes o problema está justamente aí, as pessoas se recusam a reconhecer que uma língua se transforma, se recusam a reconhecer que não é porque não está na norma, que não existe. E na verdade há diferentes maneiras de você neutralizar uma fala. Por exemplo: eu vou falar com os diretores de uma empresa e tem homens, pessoas não binárias. Ao invés de dizer “caros diretores”, eu posso dizer “cara diretoria”. A palavra diretoria não muda nada da língua. Não é uma coisa que não existe nessa norma que as pessoas idealizam. É uma palavra que existe e ela já permitiu que a gente tirasse o gênero específico: diretora, diretor.

Existem formas usadas para algumas circunstâncias que já estão aí. É comum, você pode usar a palavra pessoa, vai depender do contexto que você vai usar. Ao invés de dizer “homens e mulheres mais velhos”, você pode dizer “pessoas mais velhas”. Agora, a linguagem não binária (ou linguagem neutra, ou neolinguagem) traz propostas não só para o português. Essas formas já existem em diferentes línguas, incluindo o mandarim. Eu acho muito importante colocar isso como um elemento porque senão as pessoas acham que é algo que saiu da cabeça de meia dúzia de pessoas e que ninguém mais fala sobre isso. Na verdade, o fato de a gente observar isso em diferentes línguas nos mostra justamente as transformações da nossa sociedade. 

No entanto, me parece que não há consenso entre linguistas. Como você enxerga esse movimento?

Se você for perguntar para esses professores de gramática que estão aos brados na internet ou na sala de aula, eles vão dizer que não existe linguagem neutra porque se você usar o pronome elu em um concurso, você vai ser desclassificado. Primeiro que não é desclassificado e segundo que a nossa língua não existe só pra reproduzir uma norma no concurso.

Eu acho que um ponto importante, quando a gente fala dessa existência, é que quando a gente assume que não existe, a gente não está fazendo uma afirmação apenas sobre a língua. Estamos fazendo uma afirmação sobre comunidades de indivíduos. Eu recebo muitas mensagens de professores de escolas públicas que se veem aterrorizados porque não podem falar de gênero em sala de aula e não podem usar a linguagem não binária com alunos que preferem esse uso. Então, eles cometem uma violência porque eles estão ignorando essas outras pessoas que estão ali. As pessoas, elas existem.

Se essas possibilidades existem na língua? Elas estão em funcionamento, elas estão sendo testadas pelas comunidades de falantes, escreventes, enfim. É uma forma que parte da criatividade das comunidades com vistas a atender demandas cada vez mais prementes de uma sociedade e que são combatidas com argumentos como “não existem” por uma comunidade extremamente conservadora que ignora a existência desses indivíduos. 

Você diria que essa é uma forma de preconceito linguístico?

A violência é contra um grupo da sociedade que se revela também na língua. É, sim, um preconceito linguístico, mas é um preconceito que está na sociedade. Boa parte de nós nasce e se comunica através da oralidade. Aprendemos a falar primeiro, depois a gente aprende a escrever.

Curiosamente, em função de uma questão de diversas opressões e entendimentos de língua, ao longo dos anos a gente vai se apegando a essa suposta norma que ninguém é capaz de reproduzir. E a gente se apega à norma como um ideal. É muito interessante a gente pensar essa questão da norma porque estão lá os parlamentares debatendo, dizendo que isso não existe, que não pode porque só pode a norma, mas eles mesmos são incapazes de reproduzir a norma no seu dia a dia. Eles serão penalizados por isso? Não.

Os parlamentares que não estão fazendo uso da norma não vão ser penalizados porque ninguém faz uso da norma o tempo todo. Já que o argumento gira em torno da norma. Tem usos [da linguagem] que são feitos pelos vereadores que não existem nesse lugar de existência que eles colocam a linguagem não binária, porque só existem na oralidade. Então, é um preconceito, mas é um preconceito de gênero. 

Recentemente tivemos acesso a um vídeo da prefeita de Rancho Queimado (SC) dizendo que o ensino da linguagem não binária nas escolas impactaria negativamente o aprendizado dos alunos. O que você pensa a respeito?

Minha pergunta é: de onde ela tirou isso? É muito fácil as pessoas dizerem qualquer coisa com base em nada. Mesmo de pessoas progressistas eu ouço isso. Os argumentos são sempre os mesmos. “Não tem coisa mais importante pra gente se preocupar?” ou “A gente tem um nível altíssimo de analfabetismo, o que a gente faz com essas pessoas?”. E quando falamos nesses termos, temos uma postura muito, não sei se é exatamente este o termo, paternalista, né? Primeiro que você cria esse outro também idealizado que é esse pobre, é essa criança. São sempre essas duas figuras, a criança e o pobre, que não seriam capazes de compreender, mas a prefeita ignora que a língua se faz na interação, há muito desentendimento na língua que se resolve na interação. É muito difícil aprender gramática nos termos que essas pessoas pensam em sala de aula. Pode perguntar. Você amou todas as suas aulas? Você tinha que decorar todas as conjugações de verbo, essa é uma coisa difícil que independe dessa questão de gênero.

O que as prefeituras querem fazer é impedir a conversa sobre isso. Os professores sequer podem chamar os alunos pelo nome que querem ser chamados, entende? É uma coisa muito maior. Na verdade, existe uma retaliação muito forte das prefeituras e que nem parte de uma reivindicação. Eu nunca vi um professor bradando na internet: “Me permitam ensinar a linguagem não binária!”. Eles querem ter a oportunidade de debater o que que ela é.

Isso não causa nenhuma confusão nas crianças. Porque elas não vão ter que decorar nada. É um entendimento de ensino muito equivocado e sem compreensão do que é a vida em sala de aula. As pessoas estão em sala de aula para debater assuntos, não simplesmente para decorar regras. É claro que se você fosse querer fazer uma frase muito longa com todas as concordâncias neutras seria difícil porque é uma novidade. Mas isso não significa que é assim que se fala sobre linguagem não binária. A questão é que esse debate está sendo completamente impedido. Não é possível falar sobre linguagem não binária porque de prévia já querem impedir que qualquer questão seja passível de discussão. O que trava os professores e os coloca numa posição de repressão mesmo. Porque eles não podem abrir a boca pra falar sobre isso, mesmo que os alunos perguntem. Senão eles correm o risco de perder os próprios trabalhos, de serem julgados. Então, a prefeita está fazendo uma discussão que sequer passa pela etapa anterior, que é pensar o que vamos falar sobre isso e em que circunstância. Ela está dizendo uma coisa com base em nada. 

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Crédito: Mariana Saliby.

Pra fechar, você pode comentar a instrumentalização política da língua portuguesa? Porque é justamente isso que a gente percebe nesses projetos que tentam vetar o uso da linguagem não binária nas escolas.

Veja, a língua é política, é um espaço de disputa. Disputas ideológicas. Quando, no vídeo, a prefeita diz que a linguagem neutra é ideológica, ela está ignorando que aquilo que ela faz é querer proibir essa discussão de algo que já existe. Isso é ideológico. E parte de uma dinâmica que é conservadora.

A língua é um lugar de disputa para garantir a existência desses indivíduos também na língua, mas não só nela. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, é óbvio que isso também apareceria na língua.

É muito comum que me digam que isso é irrelevante, porque é só uma questão de língua, mas o que as pessoas não entendem é que a língua é esse lugar de disputa, repito aqui, portanto, as pessoas vão disputar também nesse lugar mas não só nele: as pessoas querem ter o direito de existir. A gente pode puxar essa conversa pra falar, por exemplo, dos livros da Carolina Maria de Jesus. É um outro lugar de conservadorismo que não tem a ver com a comunidade LGBT, mas se você pensa na maneira como se discutiu os livros da Carolina Maria de Jesus, inclusive nos jornais, algo como “será que precisava deixar aqueles erros de português?”… As pessoas estão num lugar extremamente conservador. A pergunta que eu faço é: quem pode estar na linguagem? Carolina Maria de Jesus pode estar na literatura? Ela pode estar nos livros? Ela pode estar na sala de aula sendo discutida? Eu fiz um paralelo que não é exatamente idêntico, mas serve pra mostrar justamente esse lugar de disputa. Quando a gente pensa no acordo ortográfico, aquilo ali é político também, aquilo ali é uma disputa política organizada pelos governos que estão ali debatendo que a língua tem que ser isso, a língua tem que ser aquilo.

A língua é política e inevitavelmente pode ser colocada nesse lugar de instrumentalização. Quando a gente pensa no começo – com enormes aspas – do Brasil, com os portugueses, que se dá pela profunda violência, ali você tem a língua colocada no centro da disputa política. Diferentes povos africanos que aqui viveram – não porque queriam, mas porque foram obrigados a vir pra cá – foram violentados cotidianamente e foram, inclusive, separados para que não pudessem falar a própria língua. Os povos indígenas foram dizimados e suas línguas morreram junto com eles.

A língua que ficou era a língua do rei, durante séculos os jesuítas fizeram uso de uma língua que se chamou depois de língua geral, e num dado momento o Marquês de Pombal falou: chega, só se pode usar a língua portuguesa, que é a língua do rei. São dados de violência com aspectos diferentes, mas que guardam entre si uma relação política de poder. É isso que esses parlamentares estão fazendo. Eles querem impor a própria lógica a todas as pessoas, mas a língua não morre assim – quer dizer, no caso dos povos indígenas, morreu, porque foram dizimados –, mas enquanto as pessoas não forem impedidas, no seu cotidiano, de falar, ela seguirá viva. É muito triste que isso não seja discutido na escola porque as crianças sofrem violência na escola, e negam a elas a possibilidade de falar sobre uma transformação criativa da língua. O professor Rodrigo Borba, que é um linguista que também estuda esse tema, fala justamente sobre esse aspecto da criatividade, que é fundamental pra gente pensar a linguagem não binária. A linguagem não binária é uma construção criativa.

Jess Carvalho

Feminista, jornalista, brasileira. Editora e estrategista digital no Catarinas.

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