Conceição Evaristo, Angela Davis e Benedita da Silva num encontro pelo bem viver e contra as violências raciais e de gênero/Foto: Ana Clara Gomes Costa

Entre potências e afetos, mulheres negras fortalecem a luta coletiva

Postado em 14/12/2018, 13:17

Há 30 anos, mulheres negras de 19 estados se movimentaram e se mobilizaram para a realização do 1º Encontro Nacional de Mulheres Negras, sediado na cidade de Valença, estado do Rio de Janeiro, entre os dias 2 e 4 de dezembro de 1988. Esse foi o ano em que se comemorou o Centenário da Abolição e, simbolicamente, o ano escolhido para pensar avanços frente às desigualdades raciais. O Encontro de 1988 uniu a força de cerca de 450 mulheres elaborando estratégias de enfrentamento contra o racismo, a desigualdade de classe e de gênero que atingia – e ainda atinge – em cheio as mulheres negras.

Passados 30 anos do primeiro Encontro, a cidade de Goiânia, estado de Goiás, sediou o Encontro Nacional de Mulheres Negras 30 Anos (ENMN), entre os dias 6 e 9 de dezembro deste ano. A realização desse segundo evento histórico para a luta de mulheres negras foi decidida no Fórum Permanente de Mulheres Negras, que aconteceu em março, em Salvador (BA), durante o Fórum Social Mundial.

“Nós mulheres negras estamos em movimento e esse movimento traz o 2º Encontro Nacional. Depois de 30 anos, nós estamos de novo aqui para o bem viver, fazendo o movimento para resgatar nossos direitos, para que não haja retrocesso, para que não haja violência e discriminação com as mulheres negras”, afirmou a deputada federal do Rio de Janeiro pelo PT Benedita da Silva.

Com o lema “Contra o racismo e a violência e pelo bem viver – Mulheres negras movem o Brasil”, o Encontro Nacional recebeu delegações de todas as regiões do país e teve várias atividades como conferências, mesas, oficinas, rodas de conversa, apresentações artísticas e uma feira de afroempreendedoras.

Na abertura do evento, Iêda Leal, uma das organizadoras do Encontro e coordenadora nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), colocou: “tem 900 mulheres presentes aqui nesse quilombo”. No ENMN de 2018, o quilombo, como símbolo de resistência e luta, foi formado pelas caravanas de delegadas de todo o Brasil, junto a mulheres-destaque e símbolos da luta antirracista e antissexista, como as escritoras Conceição Evaristo e Cidinha da Silva, as filósofas Sueli Carneiro e Angela Davis, as deputadas Benedita da Silva e Renata Souza, a ativista Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, e muitas outras. Todas presentes, lembrando sempre das que já partiram e celebrando todas as conquistas dos movimentos negros feministas.

Renata Souza em abraços e sessões de fotos no ENMN/Foto: Ana Clara Gomes Costa

Lembrar e celebrar

Lembrar e celebrar foi o lema não oficial do ENMN, que, em vários momentos, rememorou e aplaudiu a história de mulheres que  protagonizaram a conquista de direitos da população negra, sobretudo os direitos das mulheres negras. Maria Carolina de Jesus, Luíza Bairros, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Antonieta de Barros e tantas outras foram saudadas e relembradas no Encontro, na fala de muitas ativistas e intelectuais. Angela Davis salientou a importância dessas personalidades para o feminismo negro no mundo.

“O feminismo negro no Brasil percebe que o mundo inteiro deveria conhecer Maria Carolina de Jesus, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Luíza Bairros”, pontuou a filósofa na conferência de abertura do evento.

Ao mesmo tempo em que todas essas mulheres que fizeram história eram celebradas, o questionamento crítico sobre a invisibilidade do nome e da importância delas para a sociedade como um todo aflorou em vários momentos do Encontro. “Por que a Academia Brasileira de Letras nunca convidou Lélia Gonzalez, nunca convidou Beatriz Nascimento e outas mulheres negras e também homens negros?”, questionou Conceição Evaristo, que se candidatou à cadeira número 7 da Academia Brasileira de Letras em 2018, desafiando e expondo a falta de representatividade negra e feminina na instituição.

Em clima de homenagem, a escritora foi convidada a ocupar a primeira cadeira da Academia Afrodiaspórica de Letras, Artes e Ciência, criada pelo coletivo Lélia Gonzalez, que leva o nome da escritora Maria Carolina de Jesus. O ato de reconhecimento contou ainda com a entrega da placa com o nome da Rua Marielle Franco pela irmã da vereadora, Anielle Franco a Conceição.

Renata Souza, Anielle Franco, Ieda Leal e Conceição Evaristo, durante entrega da placa da Rua Marielle FrancoFoto: Ana Clara Gomes Costa

Para a escritora, quem a fez e a consolidou como um grande nome da literatura brasileira foi o movimento negro e a força de mulheres pretas que vieram antes. Ela criticou a falta de representatividade da população negra na literatura consagrada que temos contato desde criança. “Nós mulheres negras, nós mulheres de classes populares, nós mulheres pobres, nós mulheres indígenas e todas as outras condições que são vividas a partir das experiências bem particulares, não somos essas personagens criadas por homens e por mulheres brancas na representação literária”.

Conceição afirmou que a literatura de mulheres negras convoca a todas e todos, inclusive às “pessoas que não têm as nossas experiências, que partem de uma outra condição social”. Ela ainda defendeu que quem sustenta a caminhada dela é o movimento negro, sobretudo o movimento representado por mulheres e professoras que a leram e a levaram pra sala de aula, apresentando sua obra a alunas e alunos, que começaram a utilizar seus escritos em pesquisas de graduação, mestrado e doutorado.

A sensibilidade de Conceição de que são os movimentos negros que nos formam, que nos dão consciência, resistência e trazem resiliência às vidas negras é uma percepção comum para aquelas que lembram e celebram que nossos passos vêm de longe e de muito antes de nós. Sueli Carneiro, em lembrança ao caminhar desde o 1º Encontro Nacional de Mulheres Negras em 1988, listou uma série de avanços de direitos conquistados pelos movimentos negros ao longo desses 30 anos.

Sueli Carneiro em sessão de fotos/Foto: Ana Clara Gomes Costa

Entre as conquistas citadas pela filósofa estão as cotas raciais nas universidades e o Programa Nacional de Saúde da População Negra, política pública construída pelo protagonismo de mulheres negras, que apresenta padrões diferenciados de morbidade e mortalidade da população negra, de forma a consolidar procedimentos específicos e necessários à promoção da igualdade à essa população no acesso à saúde.

“Nos últimos 15 anos, acreditávamos, enfim, que havíamos engendrado um círculo virtuoso nessa sociedade, no qual a redução das desigualdades raciais havia se tornado objeto permanente do estado brasileiro”, assinalou Sueli, na mesa de diálogos “Fortalecimento da luta das mulheres negras: perspectivas e desafios à luz de conjunturas globais”.

Segundo ela, a sociedade avançou muito ao ter mulheres negras à frente de “um bom combate pelas causas mais justas e generosas que encerravam um outro projeto de nação na base do acolher, incluir e se regozijar com a riqueza de nossa diversidade humana, com a nossa pluralidade cultural, com as múltiplas vivências de orientação sexual”. Por isso, para a filósofa, é necessário sempre “lembrar e celebrar”.

Momento de bençãos e valorização da ancestralidade no Encontro Nacional de Mulheres Negras/Foto: Ana Clara Gomes Costa

Entretanto, Sueli nos alertou para o que muitas pensadoras têm nos advertido. O momento político de retrocesso de direitos e de avanço do neoliberalismo com a exploração das classes pobres a fez evidenciar que “as conquistas das mulheres estão sempre em ameaça: no conservadorismo, nos fundamentalismos religiosos, na revanche do patriarcado, no autoritarismo, na escalada desse autoritarismo que assistimos”.

O fato é que, para ela, as mulheres negras estão condenadas a resistir e lutar, como condenação e dádiva. E quanto mais se luta, mais se vence. “Então, por Lélia Gonzalez, por Beatriz Nascimento, por Luíza Bairros, por Fátima Oliveira, por Marielle e por todas as que partiram, saudação a quem tem coragem: presente!”, disse Sueli, fechando sua fala no penúltimo dia do Encontro.

Marielle, presente!

O fato político marcante das discussões do Encontro Nacional de Mulheres Negras 30 Anos foi o assassinato da vereadora Marielle Franco, morta a tiros na cidade do Rio de Janeiro, em março de 2018. Marielle foi respaldada como símbolo da luta de mulheres que, ao pautarem a igualdade racial e a equidade de direitos, tiveram suas vidas roubadas. Mulheres que corajosamente contrariaram interesses políticos e desafiaram um sistema racista estruturalmente imposto, em que as vidas negras pouco importam.

“Nós mantemos o seu legado vivo, enfatizando as interconexões entre racismo, pobreza, homo e transfobia. Marielle Franco, presente!”, reverenciou Angela Davis, ao expor sua solidariedade com o momento político de retrocesso de direitos à população negra brasileira, expresso pela eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

Sobre a possibilidade da perda de direitos sociais, Benedita da Silva argumentou que “nesse momento, nessa conjuntura, no nosso encontro se faz necessário pautar esse governo que foi eleito e que não tem nenhum compromisso com as mulheres negras, não tem nenhum compromisso com a política racial e, nesse momento, nós estamos fazendo a diferença”.

A pauta política foi recorrente, na medida em que se delineou como estratégia de enfrentamento ao racismo e ao sexismo a presença e a ocupação de mulheres negras em todos os espaços, inclusive institucional e governamental. Essa é uma das formas de se fazer a diferença.

“[Temos] pretas sendo eleitas e isso não é qualquer coisa, faz parte da nossa organização, faz parte do nosso cotidiano. Porque a gente entendeu que juntas somos mais fortes, a gente entendeu que não vamos aceitar que os nossos e as nossas sejam assassinados”, disse Renata Souza, ex-assessora de Marielle, eleita deputada estadual do Rio de Janeiro pelo PSOL.

Renata salientou que devemos sempre lembrar do que aconteceu com Marielle, mulher negra, pobre e lésbica, sumariamente morta pela política. “A gente não sabe quais das máfias que governam o Rio de Janeiro que mandou matar a Marielle e que matou a Marielle. Mas a gente sabe de uma coisa: o assassinato da Marielle é um ataque à democracia, é um ataque às mulheres, às mulheres negras, pobres, de periferia. É por isso que a gente tem que insurgir”, conclamou Renata.

Mesa discutiu fortalecimento da luta das mulheres negras diante das conjunturas globais/Foto: Ana Clara Gomes Costa

Para Angela Davis, “quem a matou, quis, sobretudo, enviar uma mensagem à toda comunidade negra. Uma mensagem para a gente retroagir e não fazer o trabalho que é necessário neste momento. No entanto, não podemos sentir medo”.

A filósofa rechaçou o medo como uma forma de imobilização. Para ela, o medo que sentiu enquanto esteve presa pelo seu envolvimento com o movimento político dos Panteras Negras não era mais importante do que persistir na luta pelos direitos civis da população negra dos Estados Unidos. “Percebi que não estava só. Por isso que construir uma comunidade é a melhor forma de se sentir segura”.

Conforme Angela, a questão do receio com a segurança pessoal de cada mulher negra, apontada no Encontro como um dos principais medos diante da realidade política brasileira, pode ser amenizada se criarmos comunidades, já que “nós somos nossa própria segurança”. Segundo afirmou, precisamos entender que nossa coragem é agirmos apesar do nosso medo, “principalmente quando entendemos que nós somos parte de uma vasta comunidade em luta”. Ela defendeu ainda que “nós temos que criar as condições que nos permitam cuidar umas das outras”.

Angela Davis, Ieda Leal, Anielle Franco e Renata Souza em momento de afetividades/Foto: Ana Clara Gomes Costa

Afetividades

A atenção ao autocuidado, o cuidado mútuo e de afetividades entre mulheres negras foi considerada estratégia central na luta antirracista, antissexista e anticapitalista. Pensando nas afetações e nas inspirações que mulheres negras nos trazem, quando vêm e quando vão, Conceição Evaristo fez um relato emocionante sobre a influência que Angela Davis trouxe para a sua vida. A escritora e poeta leu o trecho de um texto que escreveu no ano de 2017, sobre sua relação de afetividade com Angela.

Entre cuidado e afetividade, Grupo de Mulheres Negras Dandara no Cerrado presente no ENMN/Foto: Ana Clara Gomes Costa


Confira a homenagem de Conceição:

Angela Davis, lições para uma vida inteira

É de longa data a experimentação e a confirmação de que ‘black is power’, ‘is beautiful’ em minha cabeça e mente. Desde a minha juventude, ainda nos anos 70, na época, fui ganhando coragem e certeza para enfrentar os deboches dos estranhos, e a censura das pessoas mais próximas, ao me livrar do sacrifício de alisamento de meus cabelos. As meninas e jovens negras como eu, em tempos passados, não dispunham de qualquer indústria e de cuidados específicos para as nossas peles e cabelos. Seguíamos, então, com as nossas belezas modificadas no sacrifício do ferro quente de alisar cabelos. Conheci bem esse ingrato e doloroso tempo, que ainda não se desfez por completo. Foi então, que me surgiu Angela Davis, com a sua vasta cabelereira, símbolo de sua beleza e coragem.

Não me recordo exatamente como tomei conhecimento da existência dessa diva participante dos Panteras Negras, da luta dos negros estadunidenses pelos direitos civis. Eu era uma jovem negra, moradora de uma favela belorizontina e tinha a militante afro-americana como minha ‘ídala’. Creio que recebi as primeiras informações sobre a luta dos direitos civis para os negros dos Estados Unidos do meu tio. Penso que foi ele também, Osvaldo Catarino Evaristo, que, primeiramente, me falou de Luther King, Carl Max, Malcom X e dos africanos Patrice Lumumba, Nelson Mandela e da cantora Mirian Makeba. Lembro de que, nas paredes caiadas de branco do meu pequeno quarto na casa da minha tia, rostos e gestos dessas pessoas sobressaíam moldando meus sonhos esperançosos de um futuro diferente. Quando eu contemplava a imagem de Angela Davis, com um enorme black power, o punho cerrado para cima, me fortalecia na audácia e na verdade daqueles gestos desenhados diante de mim. E fui assumindo a coroa armada de meu cabelo.

E como o tempo é circular, depois de tantas vindas de Angela Davis ao Brasil, em 2014, conheci, pessoalmente, essa minha contemporânea que me inspira tanto. Em Brasília, no Latinidades, na ocasião em que ela proferiu a conferência ‘Femininos negros e as lutas cordiais por equidade, tive a oportunidade de presenteá-la com a versão em língua inglesa, do romance Ponciá Vicêncio, de minha autoria. Pude também confidenciar a minha admiração desde cedo por ela. Confidência que foi feita muito mais por gesto do que por palavras. Meus conhecimentos do idioma inglês são apenas rudimentares. Enquanto uma amiga, Jurema Werneck, ia traduzindo parte de meu sentimento por estar, frente a frente, com a maior influenciadora ideológica de minha juventude, eu me perdia na contemplação do rosto dela. E percebia a atenção com que ela ouvia a fala de nossa intérprete, que apontava o meu cabelo, ainda black power, apenas amarrado, e que é uma lembrança da nossa juventude. A juventude aguerrida de Angela Davis desfilava diante de mim. O compromisso de sua luta, ao longo do tempo, pela dignidade, pela liberdade dos afro-americanos, notadamente, pelas mulheres, construía em mim, o discurso que eu não conseguia dizer e, muito menos, agora. A minha quase mudez era o efeito, muito mais, da emoção que eu experimentava e experimento diante dela, do que pela barreira da língua. Quando ela acolheu o meu desejo de abraço e o pedido de foto ao lado dela, consegui dizer bem baixinho, somente isso: “muito obrigada, ‘my sister!’”.

* Ana Clara Gomes Costa é jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG), especialista em Patrimônio, Direitos Culturais e Cidadania, mestra em Comunicação também pela UFG e doutoranda em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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