Enfrentar a opressão capacitista é também enfrentar o capitalismo

Laureane Lima Costa. Foto: Arquivo pessoal. Descrição da imagem: Laureane está sentada na cadeira de rodas. A foto está bem centralizada em seu rosto. Ela olha para frente, é branca, tem cabelos lisos e escuros, um pouco abaixo dos ombros. Usa óculos, batom claro e tem uma tatuagem pequena no ombro esquerdo. Usa uma blusa sem mangas com estampa preta e fundo rosa claro.
Postado em 22/04/2022, 14:30

Em entrevista ao Catarinas, Laureane Lima Costa fala sobre as complexidades da criação de uma política do cuidado e aponta caminhos para que ela se torne uma realidade 


“No Brasil, o cuidado ainda se resolve na família, e quando a família não assume o cuidado, ele não se resolve”. A afirmação é de Laureane Lima Costa, uma das quatro mulheres com deficiência entrevistadas para a segunda temporada do “Narrando Utopias”, podcast com cinco episódios que objetiva refletir sobre a organização do cuidado na nossa sociedade e projetar um futuro onde ele esteja pautado numa ética coletiva que garanta autonomia para todas as pessoas.

Aos 27 anos, Laureane é psicóloga, consultora em Educação Sexual e mestra em Educação pela Universidade Federal de Jataí. Mora em Rio Verde, Goiás, e sua deficiência se dá por atrofia muscular espinhal, uma doença rara que compromete os quatros membros. 

Em entrevista ao Catarinas, ela aponta que um dos grandes desafios para pensar uma política do cuidado realmente transformadora é o capitalismo. “Veja, quem são as pessoas hoje que desempenham o cuidado no Brasil? O não remunerado são as mulheres no geral. O cuidado mal remunerado são as mulheres pobres e negras. Uma política pública do cuidado desloca o eixo do sexismo, do racismo, do capacitismo e reivindica a responsabilidade do Estado para garantir questões de manutenção da vida das pessoas”, explica.

Além disso, ela conta como a família foi fundamental para que ela tivesse acesso à educação e saúde diante das inúmeras ausências do Estado, lembra como o incentivo de  profissionais de educação e o encontro com outras mulheres feministas foram determinantes na sua trajetória para trazer outras perspectivas de vida.

Confira a entrevista:

Portal Catarinas: Como você resumiria a sua história de vida? Quais pessoas foram fundamentais para que você conquistasse a autonomia que consegue ter atualmente? 

Laureane Lima Costa: Eu penso em mulheres que eu me conectei ao longo da minha vida e que foram muito importantes para a ampliação da minha consciência. Então, me lembro primeiro da minha mãe e do que estava dentro das condições materiais e sociais dela, de me garantir o acesso à educação e ao trabalho. Me lembro, também, de uma professora de uma instituição que eu acessava pra fazer fisioterapia e que foi uma pessoa muito importante no apoio à minha mãe para me matricular na escola comum. E, na entrada na escola comum, também lembro de uma outra professora, uma pessoa muito importante para dialogar comigo sobre qualquer coisa que eu tivesse vontade de conversar e de entender melhor. Além de uma professora no ensino médio que foi, inclusive, a professora responsável por me fazer ter desejo de entrar em uma instituição federal de ensino superior. E não tem como não pensar em mulheres com deficiência que eu fui conhecendo já depois de adulta. Buscando referências para além do discurso que aparece no Teleton todo ano. 

Ter conhecido mulheres com deficiência que ocupavam o espaço na academia, que tinham uma perspectiva crítica, uma postura combativa e não uma postura da narrativa da superação individual foi, sem dúvida, muito importante para minha construção enquanto sujeito político. 

E depois, no mestrado, me aproximar de mulheres sem deficiência, mas com muita consciência feminista, com muita consciencia de classe e que foram acolhendo as pautas mais vinculadas à deficiência  que eu ia colocando ali.

Hoje, o cuidado está centralizado na família. Quais os desafios para transformar essa realidade?

O grande desafio é a derrubada do capitalismo. E por que eu digo a derrubada do capitalismo? Porque, veja, quem são as pessoas hoje que desempenham o cuidado no Brasil? O não remunerado são as mulheres no geral. O cuidado mal remunerado são as mulheres pobres e negras. Há um salário muito baixo, muitas vezes com condições inseguras de trabalho.  Mas, como isso está muito distante, pensar na construção de um Estado dentro do sistema de bem-estar social menos neoliberal já seria um passo importante para conseguir diminuir esse caráter familista do cuidado. O que significa apontar a importância da construção de uma política pública do cuidado. 

Uma política pública do cuidado desloca o eixo do sexismo, do racismo, do capacitismo e reivindica a responsabilidade do Estado para garantir questões de manutenção da vida das pessoas.

As poucas iniciativas de cuidado que a gente tem no Brasil são as residências inclusivas, que são casas onde até dez pessoas com deficiência podem morar.  Mas não são quaisquer pessoas com deficiência, são pessoas com deficiência em situação de extrema vulnerabilidade social, pessoas com deficiência que não têm mais vínculo com as suas famílias de origem, que estão na linha da extrema pobreza. Então, veja, são iniciativas de cuidado para tentar diminuir um pouco a violação de direitos que já está acontecendo, mas não é uma iniciativa pensando na expansão das potencialidades das pessoas com deficiência. No sentido de como eu tenho bom vínculo com a minha família, eu nunca, nessa conjuntura, poderia ser uma moradora de uma residência inclusiva.

Hoje o Brasil não tem uma política pública do cuidado que dê conta das demandas das pessoas com deficiência. O que seria o mínimo para garantir autonomia a essas pessoas?

Nós precisaríamos de verba para isso. Das iniciativas de outros países que eu conheço, o governo pode financiar de duas formas: ou fazendo a transferência direta desse dinheiro para a pessoa com deficiência e ela fica responsável pela contratação ou o Estado disponibiliza as profissionais para realizarem o cuidado numa espécie de instituição, num mesmo local. Há benefícios e prejuízos para ambos.

E quais seriam esses prós e contras? 

Pensando em um cuidado que está completamente institucionalizado, a gente tem mais possibilidade de mapear se pode acontecer alguma violência nessas relações de cuidado. Uma violência tanto do cuidador ou da cuidadora para pessoa cuidada, quanto do inverso, também. Porque essa também é uma questão. Muitas cuidadoras relatam que os homens que estão sendo cuidados podem tentar ser violentos com elas, então, também é preciso pensar em estratégias de proteção para essa trabalhadora. Se a gente tem instituições que contratam esses profissionais e disponibilizam para os usuários, a gente precisaria de um mapeamento das necessidades das pessoas cuidadas, nem todas precisam de um cuidado vinte e quatro horas, mas algumas sim. Então, o plano de cuidado no meu entendimento precisaria ser feito junto com os usuários. Também penso que uma formação para as cuidadoras, considerando a ética do cuidado, seria fundamental. Um treinamento que se sustentasse não só em questões técnicas, de manuseio, de tecnologia assistiva,  mas também uma formação sustentada pela ética do cuidado. Porque essas pessoas precisam entender que elas estão ali pra garantir o acesso a direitos e não por uma assistência paternalista do Estado. São questões muito amplas e muito complexas e eu não saberia dizer tudo. Mas do que eu tenho imaginado e, também, percebido de outras iniciativas em outros países, é mais por esse caminho.

Considerando a sua formação em Educação Sexual, tem algum ponto relacionado a esse tema que também deveria ser pautado para a elaboração dessa política pública?  

Pensar a política pública do cuidado implica em pensar essa dimensão da garantia dos direitos reprodutivos para mulheres com deficiência. Por exemplo, mulheres com deficiência que desejam vivenciar a maternidade, a depender do nível de impedimento corporal delas, só vai ser possível se elas puderem contar com a mediação de outra pessoa. Embora eu não tenha levantamento disso no Brasil, em outros países é comum, por exemplo, que mulheres com deficiência percam a guarda dos filhos por não conseguirem exercer esse papel. E aí, mais uma vez, o Estado violenta essas mulheres. Violentou antes, por não atender essa demanda de cuidado, e violenta ao retirar a guarda do filho, porque não atendeu uma necessidade dessa mulher. 

Quais os caminhos para fazer com que outras pessoas entendam a importância de se pensar a organização do cuidado e levar o tema para a esfera pública e política?  

Historicamente, pensar as políticas de cuidado para pessoas com deficiência sempre esteve muito numa perspectiva caritativa e assistencialista, e nós não queremos que isso continue. Inclusive, talvez justamente por essa história de assistencialismo e práticas caritativas é que a gente não tem nada próximo do que a gente estava conversando hoje no Brasil. A gente precisa ter muito cuidado para que nenhuma fala, nenhuma reflexão se aproxime de uma perspectiva caritativa. O que eu tenho tentado fazer nos espaços em que tenho a oportunidade de dialogar é apontar que isso é importante não só para nos libertar da opressão capacitista, mas também é importante para as mulheres de modo geral se libertarem do sexismo, é importante para as mulheres negras se libertarem parcialmente da combinação de sexismo e racismo. Pensar, por exemplo, que instituir uma política pública de cuidado vai implicar que aquela mãe que até hoje cuida de filhos homens adultos, que não precisam de mediação, está sendo oprimida. Está trabalhando gratuitamente para esses filhos adultos. Isso implica pensar no que feministas e a perspectiva materialista apontam, de que o que chamam de amor é trabalho não remunerado. A gente precisa articular esses debates considerando, por exemplo, que as pessoas com deficiência precisam de cuidado, mas não podem continuar sendo vistas como mais um peso para as mulheres, porque não é uma escolha nossa. É pensar nas articulações, em como essas opressões todas sustentam o sistema capitalista. Pensar também que enfrentar todas essas opressões é não perder o horizonte de um enfrentamento e de uma ruptura radical com o capitalismo.

Laureane Lima Costa. Foto: Arquivo pessoal. Descrição da imagem: Laureane está na cadeira de rodas, apresentando um trabalho acadêmico. Ela usa blusa preta e óculos com detalhe vermelho. Ao fundo, há um powerpoint de sua apresentação onde é possível ler: Da militância à pesquisa sobre gênero e deficiência e abertura para a discussão sobre capacitismo na Universidade Federal de Jataí.

Como você imagina o futuro onde uma organização do cuidado justa é uma realidade e garanta autonomia para as mulheres com deficiência?

Que o valor das pessoas não esteja atrelado à capacidade produtiva delas. E isso não significa que as pessoas com deficiência, inclusive pessoas com deficiência com alto nível de impedimento corporal, não tenham capacidade produtiva. Não é isso. Mas nos moldes como a gente entende o que é trabalho produtivo hoje, nós não somos lidas como produtivas. Que o valor das pessoas não seja definido pela capacidade, mas pela potência de contribuição. De construção de conexões que potencializem uma humanização e que sustentem a vida. Pensar em outro  futuro, uma utopia, é pensar que as pessoas se conectem, e que para elas se conectarem de verdade precisam ter previamente garantido as condições materiais suficientes para a manutenção da vida, para que nesse futuro o cuidado disponível não dependa do privilégio de gênero, raça e classe. 

Este projeto faz parte de Narremos a Utopia, uma iniciativa do Inspiratorio.org para imaginar futuros feministas, interseccionais e inspiradores.

Confira a audiodescrição do terceiro episódio do podcast:

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