Imagem da peça “A Menina Boba”, desmontagem dirigida e apresentada pela atriz Barbara Biscaro/Foto: Jerusa Mary

Das dificuldades de ser uma menina boba

Postado em 13/04/2018, 8:53

Parece que nunca havia conhecido alguém que colocará óculos para dançar. Assim a menina de porte bobo introduz sua apologética da despedida: “Sou muito boa em fins, mas péssima para os começos”. A peça intitulada A Menina Boba – Desmontagem dirigida e apresentada pela atriz Barbara Biscaro, é uma adaptação do livro de poemas intitulado: A Menina Boba escrito pela poeta, musicista e etnomusicóloga Oneyda Alvarenga no final da década de 30 do século passado. A partir de uma reunião de poemas que constituíram um ciclo de canções para voz e piano do compositor brasileiro Claudio Santoro, foi possível ter contato com a obra da escritora mineira que com tenra idade mudou-se para São Paulo e se tornou uma grande amiga do escritor Mario de Andrade. Com apenas 19 anos, Oneyda, uma jovem desconhecida desembarca na Paulicéia desvairada para ter aulas de piano com um dos ícones do movimento modernista. Apesar do modernismo brasileiro também ser composto da presença e inserção de mulheres como Anita Malfati e Tarsila do Amaral, nunca foi fácil assumir esse lugar, quiçá, há cem anos atrás.

Enquanto assistia a aula-espetáculo de Barbara, me perguntava: o que a atriz viu nessa modernista infame (leia-se infame: como aquela despossuída de fama)? O que é ser uma menina boba? Quais as vantagens e desvantagens de ser uma menina boba? Nestes quase cem anos que nos separam do texto de Alvarenga e nos aproximam dos ensinamentos artísticos de Barbara, o que modificou na condição feminina? Os medos da escritora mineira ecoados por uma pesquisa refinada do uso da voz:

“Tenho medo,

algum dia poderá me procurar no fundo dos meus olhos e não me acharás mais.

Poderás apertar o meu corpo em seus braços e encontrar uma sombra.

Estarei muito longe, perdida no desassossego dos caminhos.

Por que encheremos nossos olhos de lágrimas, meu amor?”

O medo de Oneyda ecoa no início do século XX, a desmontagem de Barbara no início do século XXI. Entre Barbara e Oneyda, tantas de nós. O que seria o desassossego dos caminhos para uma mulher no início do século XX ou XXI? Historicamente somos educadas para termos medos, pouco falar, pouco expressar-se e muito doar. Esses verbos se fazem presentes, abandoná-los equivale traçar uma curva desconhecida pela tradição cultural e suas idiossincrasias impostas aos nossos corpos.

O cenário está posto, muitos objetos no chão: revistas, discos, textos, fotografias, um microfone, uma atriz esguia, cabelos castanhos claros, olhos de iluminar caminhos, óculos de grau, um vestuário oscilante entre a moça de classe média e a operária, neste caso a intelectual – operária da poesia, da música, belle lettre.  É preciso cuidado para não se intoxicar de memória. O cenário vai construindo-se de um lastro de objetos retirados dos bolsos da saia marrom de botões arredondados, indumentária bem-comportada que somente permite a fantasia do que se guarda nos bolsos – talvez o alçapão das saias guarde o peso da moral inaceitável.

Oneyda Alvarenga trocava cartas com seu amigo Mário de Andrade/Foto: Jerusa Mary

E qual seria o “peso mais pesado” de carregar para uma mulher senão a moral histórica que a subjuga e subestima suas potencialidades de invenção? Virginia Woolf em sua obra Um teto todo seu de 1928, após longa pesquisa sobre as mulheres e a ficção, deparou-se com o abismo entre o significado e o papel das mulheres representadas na literatura, teatro e o cotidiano que as cercava: nos verbetes referente as mulheres somente para  que servem: “posição das”; “bater na esposa” – um direito reconhecido do homem, praticado sem embaraço, tanto por ricos quanto por pobres”; até aqui não avançamos muito, esse verbete data de 1470. Ao contrário da representação da mulher na ficção, que poderia ser retratada como heroica, cruel, esplêndida e sórdida, infinitamente bela e horrenda ao extrema. Neste contexto os exemplos são vastos: Antígona, Medeia, Cleópatra, Ofélia, Carmem, Emma Bovary etc. No entanto, na vida real poderia ser trancada, espancada e jogada de um lado para o outro. Diante das contradições entre figura e fundo, representação e cotidiano, um amálgama constitui o surgimento desse ser complexo e esquisito denominado mulher. O legado dessas representações é extenso desde as tragédias gregas até o drama moderno. E poderíamos nos questionar: o quanto desse imaginário ainda reverbera nas paredes de trás de nossos pensamentos e ações?

Como destituir-se do espírito de suportação e permitir que os bolsos possam ir se esvaziando como a voz que entorna a melodia dos seus desejos? As desvantagens de ser uma menina boba, os desejos da escritora (sua coragem versus o peso da cultura a esmagando em inseguranças e quem nunca?) O desejo da atriz de desmontar, veja-se: desfazer-se da Menina Boba, apertar o eco das múltiplas vozes por onde passou, evidenciando um gesto de alteridade, de perda e reencontro de si. Arte e vida andam justapostas na busca de encontrar novas maneiras de viver, de sentir, de ser mulher em um novo século, de ser humano. Um dos significados da palavra Bobo é espantar-se com algo, pois bem, que ainda possamos nos espantar e não aceitar determinados modos de agir impostos secularmente como naturais às mulheres, tais como: o medo, a dependência, a fragilidade. Mas, que seja possível enaltecer um lugar de vitalidade estética como o que Barbara Biscaro presentifica ao apresentar e perder-se com Oneyda.

Nesse emaranhado histórico algumas questões ainda permanecem: como despir-se da herança de uma tradição que pesa, sem assombrar-se? É preciso o exercício constante de aprendizagem e incorporação de novos modos de ser.  Uma aula-espetáculo, se a aula é o lugar por excelência do encontro com os fantasmas, é preciso transfigurá-los. A atriz apresenta sua transfiguração, ora pelos movimentos, ora pelas vozes que ocupam e se deixam abandonar no espaço enquanto ela simplesmente flutua. Que possamos aprender a flutuar!

Carolina Votto é Professora de Filosofia e História da arte. Doutoranda em Educação na linha de Filosofia da Educação do Programa de Pós-graduação em Educação – UFSC. Mestre em Teoria e História da Arte (2011), pelo Centro de Artes, no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Graduada em  Filosofia (2006), pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) – RS.  Atua como professora na oficina de História da Arte do Departamento Artístico Cultural da UFSC (DAC). 

 




Carolina Votto é professora no Departamento de Metodologia de Ensino (UFSC). Doutoranda em Educação na linha de Filosofia da Educação do Programa de Pós-graduação em Educação – UFSC. Mestre em Teoria e História da Arte (2011) pelo Centro de Artes, no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Graduada em Filosofia (2006), pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) - RS. Atua também como professora de História da Arte em cursos independentes.
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