Arte: Kamilla Nunes

Conversa Avessa: poesia e artes visuais frente à violência de gênero

Postado em 30/08/2020, 11:28

Conversa Avessa é uma publicação que une poema, artes visuais e ativismo para tocar nas feridas culturais que sustentam a violência contra as mulheres. Foi construído a partir de um chamado feito pela Abrasabarca a poetas e artistas visuais. O resultado pode ser conferido nesta primeira edição.

Uma parceria entre a coletiva de poetas Abrasabarca e o Portal Catarinas deu origem ao Conversa Avessa, um suplemento mensal sobre violência de gênero por mulheres poetas e artistas visuais. As poetas Adelaide Ivánova e Giulia Ciprandi, e a artista visual Kamilla Nunes integram essa primeira edição sob curadoria da Abrasabarca, abordando as violências doméstica e obstétrica. O projeto e edição gráficos são de elaboração da Abrasabarca.

Nesse caso, Quando não casa, A mulher pare, O homem parte, E ponto Pra ficar virgenzinha de novo”, diz trecho do poema Episiotomia, de Giulia Ciprandi, que expõe em versos uma das faces cruéis da violência obstétrica.

A taça, qu’inda que bem ruim me deixe ébria, console-me a alcoólica amnésia e olvide o que de fato é tal sentença: a mulher é culpada”, é trecho do poema “A sentença”, de Adelaide Ivánova, que aponta para a desigualdade de gênero no sistema de justiça.

Conversa Avessa

“Escrever, criar sobre e a partir da violência de gênero. Como lançar esse chamado? Tarefa difícil e, por vezes, terrível. Como se não bastasse o horror que cabe nas conhecidas e recorrentes violências sofridas pelas mulheres cis e trans em todos os tempos, vivemos sob o peso da pandemia e de um desgoverno genocida. Uma onda levantada no horizonte pronta para entrar em jorros nos nossos pulmões. Há muito o que fazer”. Essa parte da apresentação do suplemento pela coletiva dá o tom político dessa articulação.

A chamada para as obras que serão compiladas também para as próximas edições envolveu 16 artistas, entre poetas e artistas visuais. “A ideia é justamente ampliar o contato, porque a gente entende a poesia como esse contato com a outra, o outro. Quando a gente fala de violência é sobre um assunto difícil. E a gente sentiu vontade de escutar, abrir para a conversa. Temos nos reunido e fizemos essa primeira edição, sempre tentando pensar na composição entre texto e imagem de forma que conversem”, afirma Juliana Pereira, integrante da Abrasabarca.

A integrante Ana Araújo relata que as artistas e poetas convidadas já faziam parte da referência de mulheres que escrevem sobre o tema. “A gente recebeu diversos textos e imagens, e na reunião para edição do suplemento o principal desafio foi construir essas conversas para entender quais textos e imagens dialogavam. Construir essa conversa também entre essas artistas que não tiveram contato umas com as outras. Elas nos mandaram os textos, a gente recebeu e propôs a conversa entre textos de pessoas que a princípio não tinham lido umas às outras”, conta.

Elisa Tonon, também da Abrasabarca, destaca que o suplemento tem o papel de abrir um espaço de escuta sobre o tema entre artistas e público em geral. “Foi importante todo o processo de construção que começou com a chamada às artistas, no sentido de como colocar em palavras, esse tema tão difícil, e como abrir esse espaço para a conversa e escuta que é o que esse material concretiza”.

Poéticas da convivência

A parceria entre Abrasabarca e Portal Catarinas começou há quatro meses com a série “Poéticas da convivência” que integra poemas sobre a rotina e reflexões suscitadas pelo isolamento social. A ideia de elaborar um suplemento inicialmente sobre a violência doméstica por meio da linguagem poética foi motivada pelo aumento da vulnerabilidade das mulheres durante a quarentena.

“A nossa dinâmica de criação passa pela escuta, pergunta lançada, saraus públicos em comunidades. A coletiva tem essa caraterística de agregar, compartilhar, e o exercício da poesia, escrita, passa por isso, então tem muito a ver com o que acreditamos, esse é mais um espaço para escuta, assim como a série Poéticas da Convivência”, afirma Lu Tiscoski, também da coletiva.

O monitoramento nacional da violência doméstica feito colaborativamente entre o Portal Catarinas em parceria com quatro mídias independentes também contribuiu para expandir o tema à narrativa poética.

A Abarsabarca surgiu de reuniões informais para ler poesias entre colegas da pós-graduação em Literatura da UFSC. Desde 2015, essas mulheres se integram na coletiva, articulando saraus, produção de publicações, como o “Abrasabarca”, em 2018, e o “Revoluta”, em 2019, além da participação no programa Quinta Maldita que promove saraus e outras ações culturais. Leia as colunas dessas poetas no Catarinas.

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