O_negro_no_imaginário_da_branquitude_e_a_manutenção_do_racismo_
Crédito: Eustáquio Neves.

Coluna da Cauane Maia

O negro no imaginário da branquitude e a manutenção do racismo

Postado em 02/02/2022, 11:20

A descrição que o Amadou Hampâté Bâ* fez do seu primeiro encontro com um colonizador francês, quando ainda era criança, cujo impulso inicial foi esconder-se daquele homem branco, chamado de toubab**, mas que em seguida lhe faz questionar sobre sua percepção e promessas de vingança por sua família.

De maneira resumida, tentarei ser breve na síntese desse encontro. Contrariando os ensinamentos de Amadou Hampâté Bâ, para quem as histórias não devem ser compactadas, mas sim descritas minuciosamente, tanto quanto a memória permitir. Contudo, sinto-me compulsoriamente inclinada a fazer esse preâmbulo de modo sucinto.

Quando criança, o pai de Amadou Hampâté Bâ, Tidjani Thiam, importante chefe de Luta da sua comunidade, posição de nobreza, foi vítima de uma conspiração, sendo encarcerado de acordo com as leis dos colonizadores franceses que ocupavam aquela região***. Naquela ocasião, informado pelos mais velhos que seu pai havia sido acorrentado pelos toubab, Hampâté Bâ prometeu odiar e vingar-se por sua família, quando tivesse a idade adequada.

Amadou Hampâté Bâ, já adulto, com a família | Imagem: Keystone Pictures USA – Zumapress – Maxppp.

Porém, o comandante francês De Courcelles havia atuado fortemente para que a injusta prisão do seu pai fosse desfeita e que o mesmo retornasse ao convívio familiar. Assim, De Courcelles tornou-se um grande amigo da família de Amadou Hampâté Bâ, sendo a primeiro toubab que ele teve contato ainda criança: 

“Estas foram as circunstâncias de meu primeiro encontro verdadeiro com um branco-branco pertencente a uma raça de homens de que até então não gostava por rancor, pelo que tinham feito a meu pai, Tidjani. Quando partiu, perguntei a minha mãe: ‘Dadda, o comandante de Courcelles não é um toubab?’ ‘Sim’, ela me disse, ‘mas é um bom toubab.’ Esta resposta me perturbou. Tinha decidido odiar todos os toubabs. Mas, como podia detestar  esse comandante tão gentil, sobre quem havia ouvido dizer que tinha feito de tudo para libertar meu pai? Aprendia, pela primeira vez, que as realidades deste mundo nunca são inteiramente boas nem inteiramente ruins”. (HAMPÂTÉ BÂ, 2003, p.133-134).

Pensando a diáspora negra, especialmente o Brasil, encontramos na obra Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX, e autoria da Celia Maria Marinho de Azevedo (1987), um mergulho nos periódicos paulistas para apurar os debates da elite local acerca da transição do sistema escravocrata para o trabalho livre. Na pesquisa, é possível constatar a estratégia dos políticos e fazendeiros em reforçar a retórica do negro violento, a pária social, a “onda negra” que precisa ser combatida e eliminada. E, para contribuir com essa mudança, promover o imigrantismo eurobranco e absorvê-los como mão de obra assalariada é uma solução conveniente. 

_O_negro_no_imaginário_da_branquitude_e_a_manutenção_do_racismo_

Crédito: leiamulheres.tumblr.com.

Assim, o negro, que até então figurava como mão de obra escravizada, não só não servia aos interesses da sociedade e trabalhador livre assalariado, como deveria ser controlada. Nesse momento, os periódicos são o principal veículo de propagação das denúncias dos casos de violência protagonizados pela população negra, reforçando no imaginário social a ideia de um perigo iminente que precisa ser contido.

Atualmente, a população negra segue em situação delicada na sociedade brasileira e figurando nos indicadores sociais em posições preocupantes. Um dos exemplos são os dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) através do Atlas da Violência 2021. Em 2019, os negros (soma dos pretos e pardos da classificação do IBGE) representaram 77% das vítimas de homicídios, com uma taxa de homicídios por 100 mil habitantes de 29,2. Comparativamente, entre os não negros (soma dos amarelos, brancos e indígenas) a taxa foi de 11,2 para cada 100 mil, o que significa que a chance de um negro ser assassinado é 2,6 vezes superior àquela de uma pessoa não negra. 

No relatório do Atlas da Violência, um dos pontos atenção é o aumento do uso da violência por policiais conjugada à ausência de mecanismos institucionais de controle quanto aos padrões institucionais do uso da força. A atuação da polícia em bairros periféricos, majoritariamente negros, da federação tem proporcionado episódios trágicos de execuções de civis, um dos exemplos citados na pesquisa é a Operação Exceptis realizada pela Polícia Civil no Jacarezinho, no Rio de Janeiro, em maio de 2021, que resultou na morte de 28 pessoas

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou o infográfico abaixo sobre a violência contra a população negra no país:

_O_negro_no_imaginário_da_branquitude_e_a_manutenção_do_racismo

Fontes: Atlas da Violência 2019; Anuário Brasileiro de Segurança Pública, ano 13, 2019; Pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, 2ª ed., 2019; Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência 2017; Ministério da Justiça e Segurança Pública: Pesquisa Perfil das Instituições de Segurança Pública 2017. (1) Sofreram alguma violência entre os seguintes tipos: ofensa verbal; ameaça de apanhar, empurrar ou chutar; amedrontamento ou perseguição; batida, empurrão ou chute; ofensa sexual; lesão provocada por algum objeto que lhe foi atirado; ameaça com faca ou arma de fogo; espancamento ou tentativa de estrangulamento; tiro; esfaqueamento. Ilustrações: Yasmin Ayumi. Diagramação: Eduardo Truglio.

É no recrudescimento da violência contra a população negra, desde o tráfico dos corpos arrancados do continente africanos da maneira mais bárbara, cruel e desumana até os dias de hoje, que a branquitude insiste em utilizar todos os meios possíveis para reforçar sistematicamente a retórica de que o negro é essencialmente violento. Projetando no povo preto as suas próprias intenções e criando no imaginário social um pseudo-revanchismo involucrado no seio dos movimentos negros.

Movimentos reivindicatórios, busca por igualdade e ascensão social, ações afirmativas, atuação de intelectuais negras e negros em pesquisas que pautam a população negra e a atuação mais contundente de instituições dos movimentos negros no país justificam o medo branco de uma onda negra na contemporaneidade.

Afinal, a branquitude não abrirá mão de seus privilégios, como já nos mostrou a história deste país.

Soma-se ao racismo, à fragilidade branca e aos privilégios da branquitude a ascensão do discurso supremacista branco estimulado pelo atual governo. Desse cenário, onde não há o menor compromisso ético ou moral com os fatos, dados e com a própria realidade, instaura-se o “vale-tudo discursivo”, cujo objetivo é apenas um: manter o status quo.

Nesse malabarismo retórico, (res)surgem os jornais como palanque principal para as vozes da branquitude que vociferam impropérios: “Lá vai o preto violento!” “O negro agressivo!”, “cuidado com o racismo reverso!”. Assim, segue-se tecendo a trama do medo branco da tal onda negra.

Assim como Amadou Hampâté Bâ descreveu em seu primeiro contato com o branco-branco, a história da população negra no Brasil aponta para seu caráter complexo, tendo que lidar com o racismo, a violência, o sistema de justiça questionável e desigualdade social estruturada no país. E, ainda que o povo negro não seja capaz de nutrir afetos por seus algozes e não aceite passivamente as condições vexatórias impostas pela branquitude, isso não significa necessariamente que o revanchismo seja o foco.

*Autor nasceu em 1900 em Bandiagara, região das savanas africanas da África do oeste, no atual Mali. 

**Toubab palavra em árabe que pode ser traduzida como “doutor” e que também era utilizada para designar os europeus.

***A colônia francesa do Alto-Senegal-e-Níger, compreendendo os atuais Mali e Burkina Fasso, foi estabelecida em 1904 no âmbito da África Ocidental Francesa. Em 1920, ocorreu a divisão que originou o Sudão Francês (atual Mali) e o Alto Volta (atual Burkina Fasso).

Referências:

  • AZEVEDO, Celia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
  • , Amadou Hampâté. Amkoullel, o menino fula. Tradução: Xina Smith de Vasconcellos. São Paulo: Palas Athena, 2003.
  • CERQUEIRA, Daniel et al. Atlas da violência 2021. São Paulo: FBSP, 2021.



Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestra em Antropologia Social pela mesma instituição, bacharel em administração e graduanda em ciências econômicas. Integrante do Cores de Aidê.
Veja a coluna da Cauane Maia