Foto: Bianca Taranti

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (39)  – ou haverá um novo normal para as mulheres nesse mar de violências?  

Postado em 06/12/2020, 13:22

Domingo, seis de dezembro de dois mil e vinte. Mais uma viagem, e já é a sétima vez desde março que me desloco de Turvo para Florianópolis alternando meu lugar de estar.  A pandemia me fez seminômade. Se estou lá, me ocupo dos cuidados com minha mãe, sua casa e entorno. Cá, nos meus domínios, forno vontades do contato com meus guardados e escritos.  E outras vontades, aquelas que as lobas têm… Nos primeiros dois ou três dias em minha casa ainda me atrapalho: acordo à noite e não sei onde estou, preciso pensar em que lado é o banheiro, catar a porta. O psicológico se embrulha e parece que ouço o chamar da mãe, os gatos fazendo folias pela rua, o sabiá de manhã…

Neste retorno à minha casa, ao cruzar o Morro dos Cavalos, me deparei com a indicação da entrada à Enseda do Brito: por que não? Cheguei de surpresa na casa de Urda Alice Klueger e fui recebida com braços abertos, só que de longe. “Que lástima não poder dar-te um bom abraço!”, disse-me. Seguimos os protocolos: sentamos na varanda e nos sentimos felizes por olharmos de frente a uma distância que permitia despir nossas máscaras e felizes por olhar-nos de frente! Papeamos por hora e meia sobre livros, edições, literatura, crônicas, uvas, cuidados sanitários, vacina, cães, gatos, flores, mais sobre livros… Muito, mas muito bom rever a amiga e compartilhar projetos literários!

Urda e Marlene em Enseada do Brito/Foto: arquivo pessoal

Falamos da espera de uma vacina que detone esse maldito seboso invisível. Virá? Quando? Para quem? Quem terá prioridade? Notícias contam que sim, virá, mas tomemos tento: não será em breve. Por ora, ronda o perigo do contágio e fazem-se necessários os protocolos. Aprendemos sobre a intensidade e o mal que o medonho invisível pode causar e como driblar o vírus com consciência do perigo. Sabemos que o sistema imunológico defende o corpo do que entra e não deve se criar ali. Ou entra e logo é expulso. Ou nem entra na pele. Somos bombardeados o tempo todo para evitar a entrada do vírus, com alimentação saudável rica em proteínas e gorduras de boa qualidade, menos carboidratos e, de preferência, escolher os nobres, como aipim, batata doce. De todos os carboidratos, o trigo é o menos indicado. Antônio disse que “No conjunto das observações de minha vida sexagenária, compreendi que somos o resultado do quê e quanto se come – alimentação – do quanto a gente se mexe – esportes e exercícios corporais – e do quanto a gente dorme no descanso do corpo e da mente”. Não é?

Foto: arquivo pessoal

A imunidade requer corpo e mente sãos – “Orandum est ut sit mens sana in corpore sano”, na conhecida frase do poeta romano Décimo Juvenal lá pelo século I: “Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são”, disse o sátiro em resposta à questão sobre o que as pessoas deveriam desejar na vida. Pergunto: quem, neste país desordenado e desgovernado, tem condições de manter-se com imunidade? Quem pode seguir essa dieta rica em proteínas, gorduras boas e menos carboidratos?

O preço da carne, dos ovos, do óleo, dos grãos oleaginosos, do queijo, para citar alguns é inacessível para a maioria da população. Quem poderá equilibrar alimentação, descanso e academia? O trabalho exaustivo, os baixos salários, a desordem psicológica com tantas aflições e perdas, os medos, as saudades, os projetos desfeitos ou adiados, engolidos pela pandemia, o desemprego… e um governo que ainda debocha desta tragédia. Que miséria, que miséria.

E se essa clausura chegar ao fim, como vamos reagir?  Voltar ao passado? Não tem repetição ou retorno na História. Pode ter recomeços, reinvenções. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”, na canção de Lulu Santos. Será que a perspectiva de uma vacina e de um ‘novo normal’ nos devolverá as relações como eram dantes? Ou será este um vírus incontingente e, mesmo com imunizações, aparecerão focos de quando em vez a nos pôr em estado de alerta?

Não, não haverá mais normalidade como a conhecemos. Até porque poder-se-ia perguntar o que era o normal?

Neste tempo de pandemia o que mais desejamos é saúde. A nós e às pessoas das quais gostamos e temos empatia. Também às outras que nem conhecemos. Dia desses, eu preenchia cartões de natal para enviar a familiares e a primeira palavra de desejo no ano que vem é saúde. Sentimos as perdas afetivas e econômicas na pele: um festa que não houve, a avó que deixou a vida sem ver os netos, a mãe grávida e filho que sequer se conhecerem, os projetos inconclusos,  as pesquisas atrasadas, a viagem que não houve, o sexo que esfriou, o velório solitário, os abraços confiscados, o emprego perdido, o riso engolido, o sorriso escondido…

O vírus tem se reproduzido em série. O que parecia distante, quase miragem, avizinhou-se e entrou no meu bairro, na minha rua, no meu prédio e pode entrar na minha casa, grudado num mamão vindo da feira ou por um respirar desprotegido. Ficamos sabendo do vizinho, de uma amiga, da mãe da cunhada, do avô do primo, da pessoa conhecida, de um familiar… Não queremos que este inútil graxento nos infeste e nos dificulte a respiração. Até quando conseguiremos manter este infausto longe de nossas carnes?

O Brasil tem a triste estatística de 176 mil mortes. Em Santa Catarina são quase quatro mil. Mesmo se vier uma vacina, teremos que manter o distanciamento social, o uso de máscaras e higiene constante, além do álcool a fustigar nossa pele. A História mostra que, sozinhas, as vacinas não dão conta de conter a pandemia: foi assim em 1918 com a influenza pelo H1N1, que serve como admonitório de lições e advertências. Pode soar mórbido, eu sei: quem sobreviverá para outros natais? Outros aniversários? Este pode ser seu último Natal para muitas pessoas ou para mim… Todo cuidado é pouco.

A pandemia tem feito ainda mais desgraças: o isolamento social torna ainda mais vulneráveis os corpos de meninas e mulheres. Relatórios mostram que a violência sexual aumentou muito, e são dados subnotificados. Há poucos dias o judiciário de São Paulo tipificou um crime de molestar sexualmente uma menina de oito anos como “importunação sexual”, já que não houve “conjunção carnal”, o que implicaria uma pena mais severa. É um verdadeiro acinte, que abre um precedente perigoso para a segurança das crianças. Isto é o prenúncio de um dito novo normal? Estes miseráveis homens das leis que não se sensibilizam com as violências contra vulneráveis são canalhas.

Neste momento, está em plena ação a campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, mobilização anual iniciada em 1991 por ativistas no Instituto de Liderança Global das Mulheres. Essa campanha tem o engajamento da sociedade civil e dos poderes públicos, e conta hoje com a adesão de cerca de 160 países. No Brasil, a mobilização abrange o período de 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vai até 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Há esperanças. Surgem iniciativas que apontam para uma nova política da ética e dos afetos. Seis de dezembro é Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres, conforme Lei de junho de 2007. Sim, os homens também se mobilizaram e criaram a Rede de Homens pela Equidade de Gênero (RHEG), e que congrega um conjunto de organizações da sociedade civil que atuam na promoção dos direitos humanos, em busca de uma sociedade mais justa com equidade de direitos entre homens e mulheres. Essa data remonta a um crime horrendo: no Canadá, em 1989, um jovem armado invadiu uma sala de aula e assassinou várias colegas porque não admitia que mulheres frequentassem o curso de Engenharia, uma área tradicionalmente masculina. Uma barbárie. Pergunto: por que tanto repúdio a uma educação para o respeito e a equidade entre homens e mulheres?

Essa rede objetiva conscientizar e sensibilizar os homens para se engajarem com o fim da discriminação de gênero e das violências contra as mulheres. A campanha Laço Branco se alia a esses objetivos. Sim, homens têm tanta responsabilidade quanto as mulheres. Aliás, têm mais.

Outra iniciativa: mais de trinta organizações e redes de sociedade civil de diferentes tradições religiosas e culturas com atuação de destaque na promoção dos direitos humanos enviaram, nesta semana, um vídeo e uma carta em apoio às decisões do Supremo Tribunal Federal pela abordagem de gênero nas escolas e pela a inconstitucionalidade das leis inspiradas no movimento Escola Sem Partido. Nesta carta e vídeo solicitam que retome urgentemente o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5668).

Pasmem; a votação desta ADI deveria ter ocorrido dia 11 de novembro. Aconteceu que brutamontes fascistas e religiosos ultraconservadores de plantão invadiram as redes sociais com críticas ácidas ao Supremo, e o Presidente Ministro Luiz Fux a retirou da pauta. As organizações estão recorrendo à Corte pressionando pela retomada do julgamento. As disputas eleitorais interesseiras são um atraso às políticas de eliminação das violências de gênero e sexuais. Fico fula. Endiabrada. Até quando seremos reféns dessa maldição fundamentalista, fascista e atrasada?

As organizações que estão pressionando o Supremo pela votação da inconstitucionalidade lutam por uma Escola de qualidade que garanta o direito universal ao conhecimento libertador: sem preconceito, sem intolerância, sem ódio, pautado no respeito e no ensino laico. Defendem que abordar gênero e sexualidade nas Escolas é um dever do Estado brasileiro, pautado em princípios constitucionais: a liberdade de expressão, o combate às desigualdades, a garantia da proteção de crianças, jovens e adultos como previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, na Lei Maria da Penha e no Plano Nacional de Educação. São Leis que garantem e reconhecem ser dever das escolas, públicas ou particulares, prevenir e coibir discriminações por identidade de gênero e orientação sexual, bem como respeitar a identidade de crianças e adolescentes LGBT no ambiente escolar. Me digam: o que pode estar na contramão dos direitos humanos nessas defesas?

Volto sempre ao que me toca e me arde: as violências contra mulheres e crianças. Dos homens espera-se que reflitam sobre suas posturas éticas – sendo a ética a reflexão do que somos e o do que fazemos, ou que somos o que fazemos – na vida concreta, cotidiana, nas relações com os outros no lugar comum de partilhar a vida.

Por que tantas violências contra corpos ainda impúberes? E outros corpos? A ética prevê uma política da não violência a outrem. Que ética? Que política? Neste país em que seus mandatários aplaudem a falta de ética e fazem uso da violência política, o que esperar?

Urge uma frente unida que some esforços da sociedade civil e dos poderes públicos na eliminação das violências contra vulneráveis e mulheres e na promoção de políticas públicas capazes de conter essas violências. Urge a educação de gênero que somente virá com ações e investimentos como uma política de Estado.

Chegou dezembro. Estamos em Sagitário. Me apraz mais um ano na minha vida. Gostaria de reunir amigas e amigos e brindar à benesse de estar viva. Gesto meu presente: o livro de Crônicas da incontingência da clausura está quase finalizado! Logo teremos lançamento… virtual, por ora.

Sigamos. As lutas são árduas, e não esmoreçamos.

“O que você tem, todo mundo pode ter. Mas quem você é ninguém pode ser” – mesmo, Clarice Lispector.

Marlene de Fáveri, 06 de dezembro de 2020. Florianópolis.

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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