Maria Luiza Machado. Foto: Divulgação.

Chicas que escrevem: Maria Luiza Machado

Postado em 11/12/2020, 11:50

A chica que escreve da semana é a baiana Maria Luiza Machado, de 25 anos. Desde os 9 anos de idade, ela escreve e participa de concursos literários . Seu primeiro livro, “Algumas histórias sobre a falta”, foi publicado em 2018 e teve duas edições. Em fevereiro de 2019, a escritora organizou a antologia “Corpo que queima – Uma antologia de poetas baianas”, que conta com 41 poetas. Em setembro de 2019, lançou pela Editora Penalux “Todos os Nós”.

Neste ano, Maria Luiza Machado publicou seu terceiro livro, “Tantas que aqui passaram”. A coletânea de poemas sai pela Mormaço Editorial e tem edição da também poeta e cordelista pernambucana Jarid Arraes.

Vamos a entrevista! 😊

Como de costume, para começar você poderia contar um pouco de sua trajetória como escritora? Por que começou a escrever? E mais, por que continua escrevendo?
Minha primeira lembrança relacionada à minha escrita é de quando eu tinha uns 9 ou 10 anos de idade, na escola, escrevendo um poema. A professora pediu pra escolhêssemos algo que gostávamos muito para ser o tema do poema, e curiosamente escolhi sobre livros. Hoje consigo me lembrar que desde aquela época livros sempre estiveram presentes lá em casa, na minha vida e do meu irmão. Voltei a escrever novamente também na escola, alguns anos depois, nas aulas de redação. Na época, escrever e falar de livros era a única coisa que me dava prazer na escola. Então, acho que meu motivo de começar a escrever foi o prazer. E esse continua sendo o motivo de eu continuar escrevendo – não penso muito em escrever para desabafar, para ganhar algo (apesar de nessa altura da vida eu já achar que preciso, sim, ganhar dinheiro com o que eu escrevo), escrevo porque gosto.

Você poderia nos contar um pouco sobre as suas influências. Quais nomes da literatura te marcaram? Qual foi sua última leitura?
Eu adoro literatura portuguesa contemporânea e aquela melancolia que costumo perceber neles. Saramago me marcou muito, foi o primeiro livro “de adulto” que li – antes eu lia Crepúsculo e afins – e mudou completamente minha forma de enxergar a escrita, a literatura como um todo. Mas minhas influências atualmente são, definitivamente, poetas contemporâneos, sobretudo mulheres. Foi lendo poesia brasileira contemporânea que me senti pertencente à poesia, à literatura, achei meu canto. Minha última leitura foi Madame Leviatã, de Rita Isadora Pessoa.

Você publicou “Algumas histórias sobre a falta” onde aparece uma série de inquietações, cansaços e reflexões que me deixaram curiosa para ler. Poderia compartilhar um pouco sobre essa obra com os leitores?
Acho que essa é uma perfeita definição pro livro: cansaços. Escrevi os textos todos de uma vez só, sem pensar muito em métrica, pontuação, sem nada. Muito menos em publicar. Depois que passou esse período maluco de inspiração, eu parei e vi que tinha uma boa quantidade de textos. Mostrei a algumas pessoas próximas e elas gostaram. Comecei a observar o que tinha em comum em todos eles, que é justamente essa ideia de falta para a Psicanálise. Decidi publicar, num gesto bem impulsivo. Não estava feliz com a faculdade de Psicologia na época, queria ser outra coisa, ser estudante pra mim estava pouco. Queria ser escritora, finalmente (o que depois eu percebi que essa autodefinição não vem com um livro publicado, no meu caso veio muito depois).

Além desta obra, você publicou também em 2019 pela Editora Penalux o “Todos os nós”. Poderia falar um pouco do livro? Como surgiu a ideia?
Surgiu da vontade de escrever um livro com começo, meio e fim. Em pensar, projetar um livro. E principalmente publicar novamente, já que não me identificava tanto mais com o primeiro. A ideia dos nós e outros elementos da costura veio de aulas de macramê e crochê que eu fazia na época, e do livro que eu estava lendo, Entre as Mãos, de Juliana Leite. Ele veio também de uma vontade de escrever poemas brincado com personagens, poemas endereçados, poemas que se conectam de alguma forma.

Além de escritora você é psicóloga, correto? Como concilia as duas carreiras, e mais ainda, como vê a relação entre a psicologia e sua literatura?
Hoje acho possível não associar meus estudos com o que eu escrevo. Enxergo algumas coisinhas de Psicanálise no meio jeito de falar sobre as pessoas, por exemplo – e gosto muito de perceber esses detalhes quando estou revisando um texto. Sobre como conciliar: eu ainda não sei direito, ainda estou tentando. É difícil, sou recém-formada.

Como foram suas experiências de publicação? O que mais te marcou no processo?
Primeiramente publiquei de forma totalmente independe o primeiro livro, e depois, na segunda tiragem, ele foi publicado por uma editora daqui. O segundo foi um processo diferente, optei por enviar para alguma editora um pouco maior, escolhi algumas e no fim fechei com a Penalux. Foi e ainda tem sido uma ótima experiência. Eu queria passar pelo crivo, queria enviar meu livro para editoras e receber um sim ou não, como se isso fosse atestado para a qualidade dele. O que mais me marcou e marca desde sempre é a trabalheira que é produzir um livro. E como existem profissionais que não tão nem aí pra um trabalho tão valioso, quanto algo que foi escrito por tanto tempo. Desde então, tenho muito cuidado com quem escolho trabalhar. Existem pessoas maravilhosas na área, mas demorei a encontrá-las.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?
Para nos juntarmos o máximo possível. Para lermos o trabalho das outras, para pesquisar sobre mulheres escritoras, tanto contemporâneas quanto as mais clássicas. Construímos e estamos construindo um caminho bem tortuoso, mas muito bonito na literatura. É algo muito bonito de se assistir.

Além dessa entrevista a Maria Luiza fez a gentileza de enviar as seguintes dicas:

Livro: Redemoinho em Dia Quente – Jarid Arraes
Filme: Colette

Gostaria de agradecer imensamente a Maria Luiza Machado por ter aceitado meu convite para participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo online. Por hoje é só, por favor, lembre-se, leiam mais e leiam mulheres!

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Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert