O autismo é mais comum em homens do que em mulheres, mas essa é uma questão sexista/Foto: arquivo pessoal

“As pessoas me chamam de estranha e esquisita”, mulheres contam como é ser autista

Postado em 12/08/2020, 14:24

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Autismo ou Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição de saúde caracterizada por déficit na comunicação ou comportamento social, e por se tratar de um “espectro”, existem muitos subtipos de autismo que se caracterizam por vários tipos de comportamentos. Há pessoas que apresentam deficiência intelectual, epilepsia e aquelas que conseguem ser totalmente independentes. Por ser uma questão ampla e, muitas vezes, imperceptível, há um grande número de pessoas que não têm diagnóstico ou não se dão conta que fazem parte do TEA.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), estima-se que aproximadamente 1% da população mundial apresenta o espectro, porém, a maioria sem confirmação. No Brasil, é possível que mais de 2 milhões de pessoas sejam autistas.

Muitos ainda associam o TEA como espectro exclusivamente infantil e não é à toa, estima-se que 1 em cada 88 crianças tenha o diagnóstico, com prevalência maior em meninos, mas ele também atinge adultos e, por conta disso, muitos convivem com o autismo sem saber. Geralmente as suspeitas vêm acompanhadas da convivência e só então os profissionais especializados são procurados para confirmação do diagnóstico.

Mesmo sendo difícil identificar se há ou não o espectro, ainda assim, adultos do sexo masculino têm mais propensão ao diagnóstico do que mulheres, por exemplo. Isso acontece porque todos os estudos sobre este tema, bem como os testes foram elaborados para indivíduos do sexo masculino e outros transtornos como borderline, bipolaridade, ansiedade e depressão acabam sendo direcionado às mulheres.

Hans Asperger foi o responsável por nomear a Síndrome de Asperger, hoje chamada de Autismo leve, suas pesquisas sempre foram baseadas no sexo masculino. Acredita-se que é por este motivo a dificuldade de muitos profissionais em fazer esse diagnóstico.

 

O diagnóstico e o machismo

Desde cedo, por conta do machismo, as meninas são criadas de uma forma que procura inibir seu comportamento: “feche as pernas”, “não grite”, “isso não é coisa de menina”, “aja como uma mocinha”, faz com que mulheres mudem seus comportamentos de acordo com a sociedade e isso gera ainda mais dificuldade em se obter o diagnóstico.

Segundo a psicóloga especialista em saúde mental e autismo, estudiosa na área de gênero e deficiência, Adrianna Reis de Sá, “em 2016, a ONU elaborou uma campanha sobre autismo em mulheres que trouxe luz a um segmento bem invisibilizado. Depois apareceram a Susan Boyle cantora, filme protagonizado pela queridinha Dakota Fanning, tivemos no Brasil duas novelas e programa de adolescentes Viva a Diferença, onde moças autistas eram personagem de relevância. Mais recentemente a ativista ambiental Greta Thumberg. Todas essas protagonizaram as diversidades presentes na mulher autista. Muitas se identificaram e a procura tem aumentado”, referindo-se ao número de atendimentos e diagnósticos.

De acordo com a especialista, não existe diferença nas características entre mulheres e homens autistas a não ser a de gênero, que há muita discriminação em relação às mulheres neste quesito, justamente por conta do gênero e adequação social que elas passam durante toda a vida.

Muitas mulheres chegam a acreditar ter depressão ou borderline, como é o caso de Joyce, uma mulher negra, lésbica, residente da periferia de São Paulo, ela conta que recebeu seu diagnóstico, mas ficou surpresa com ele, afinal, as suspeitas eram outras. “Tive meu diagnóstico com 21 anos, estava em estado depressivo, minha mãe e eu fomos até a UBS do meu bairro para buscar ajuda”, conta. Desde os 7 anos, Joyce fazia suas consultas de rotina e por ter todo seu histórico documentado, o processo de diagnóstico se deu após a visita do médico em sua casa.

Joyce, uma mulher negra, lésbica e autista/ Foto: arquivo pessoal

“Fiquei surpresa com a visita do psiquiatra que levantou meu histórico desde quando eu nasci até o momento atual da minha vida e, depois de horas, conseguiu fechar um diagnóstico, nunca imaginei que fosse autista, as únicas informações sobre isso que eu tinha eram da mídia e de uma forma estereotipada”, afirma.

A especialista Adrianna explica que no autismo existem as chamadas crises sensoriais que podem ser vistas pelos neurotípicos (que não têm autismo) como uma forma de chamar atenção de outros para si e podem receber diagnóstico de Transtorno de Personalidade Histriônica. Se há dificuldade na comunicação, de borderline, e quando são mais rígidas de pensamento, ou que não seguem os padrões, logo são vistas como bipolares e nunca como autistas. A prevalência de gênero considerada hoje no autismo é de 4 homens para 1 mulher.

“Ser mulher é uma construção para além da biológica, é uma construção social e cultural. Então, as mulheres demonstram comportamentos apreendidos pela cultura e não natos”, afirma.

Além disso, ela diz que existem estudos que fazem a separação de gênero para explicar a diferença neurológica em homens e mulheres tomando como base uma sociedade sexista e machista. “Os esforços significativos para explicar essas diferenças se encontram no campo de estudos do neurosexismo que define como o uso da linguagem ou princípios da neurociência para explicar velhos estereótipos e papéis de gênero de uma maneira que não seja cientificamente apoiada outras validações, que só corroboravam com os primeiros estudos”, explica Adrianna.

Por outro lado, existem mulheres que são mães de crianças autistas e entre tratamentos e terapias, acabam enxergando em si algumas características e sentem que é necessário investigar, como é o caso da Suzana Almeida Silva, que tem um filho de 10 anos com o diagnóstico do TEA e, após ser mãe novamente, descobriu na filha, também traços do espectro.

Suzana e seus filhos também com autismo/ Foto: arquivo pessoal

“Fui diagnosticada aos 41 anos, depois do nascimento da minha filha mais nova. Conforme o tempo foi passando comecei a ver nela características do transtorno, depois do diagnóstico confirmado nela, comecei a entender alguns comportamentos que eu repetia desde nova, então, depois de testes com uma neuropsicóloga, recebi o diagnóstico de autismo leve”, relata.

 

Preconceito, relações sociais e afetivas

Por não ser tão conhecido em adultos, por falta de conhecimento necessário e estereótipo do que é ser autista, muitas pessoas acabam desacreditando do diagnóstico em mulheres adultas, isso de alguma forma gera preconceito, principalmente em ambientes familiares e até mesmo no trabalho, fazendo com que essas mulheres mascarem suas características para serem aceitas ou socializadas.

Como é o caso da Suzana que afirma muitas vezes ter sido chamada de “esquisita” e “antissocial”. “Infelizmente, quando tenho um evento familiar, tenho que disfarçar com sorrisos bobos porque tenho que tentar fazer igual aos outros para parecer menos esquisita. Detesto papo de cafezinho, jogar conversa fora, rir de piada dos outros. Não acho graça em muita coisa que as pessoas neurotípicas acham normal”, conta.

Além da dificuldade na comunicação social, muitos autistas adotam comportamentos repetitivos como tiques motores, e para “camuflarem” comportamentos buscam soluções de socialização como é o caso da Joyce que começou a fazer aulas de teatro. “Como eu tinha muitos comportamentos repetitivos, tiques, por serem bem visíveis as pessoas simplesmente falavam que eu era esquisita, estranha e que minhas atitudes não eram legais. Cheguei a fazer aulas de teatro e isso me auxiliou bastante principalmente nessa questão da camuflagem, ajudando a me comportar em relação às pessoas”, comenta Suzana.

Existe outra situação além da camuflagem que é a máscara social onde essas mulheres acabam tentando apagar suas características e até identidade em busca de pertencimento e isso faz com que desenvolvam outros transtornos que dificultam ainda mais a convivência.

“Existe um nível mais perigoso de esconder suas características que é o mascaramento social. A máscara sempre esconde algo real e que não pode ser visto. Diferente da camuflagem onde, a pessoa continua sendo ela mesma com uma roupagem diferente. No ‘mascarar’, pode-se perder a noção de si, da sua essência. Podem incorrer quadros depressivos e ansiosos devido ao esforço de ajustamento às necessidades que a interação social exige”, explica a especialista Adrianna.

Por ter dificuldade em fazer leituras de expressão facial e comunicação não direta, muitas mulheres autistas acabam tendo dificuldade de se relacionar. Aquela história de “joguinhos”, palavras subjetivas e sem contexto, que é muito comum nos relacionamentos, não funciona com elas, além disso, o isolamento e o “estar sozinha” é muito comum e faz parte das características autistas. Por conta disso, acabam escolhendo ficar sozinhas ou quando se relacionam podem ser alvos de relações de manipulação vindo do(a) parceiro(a).

“Já namorei, isso sempre foi uma coisa esquisita e difícil para mim. Hoje sou casada e depois de 4 anos juntos ainda não estamos em sintonia. Tenho muitas manias, prezo minha liberdade de não querer falar nada, por exemplo, e é chato conviver com outra pessoa que te tira da zona de conforto”, explica Suzana.

Já para Joyce que é uma mulher lésbica, as limitações e escolhas não são diferentes, “sempre tive dificuldades em me relacionar afetivamente, muitas vezes, por dificuldade de interação social. Para um relacionamento dar certo tem de haver troca, depende do que é dado para o outro e do que é recebido, e por não ser muito apegada nessa troca, e das expectativas do outro em relação a mim, nunca me senti confortável neste formato que para muitas pessoas é comum. Atualmente, estou em processo de conhecer outra mulher e respeitamos o espaço uma da outra, ela compreendendo minhas limitações e eu as dela”, conta.

Apesar de algumas particularidades serem ligadas ao espectro autista, muitas delas também têm relação com o modo que as mulheres, num contexto geral, são vistas socialmente sendo preteridas também quando o assunto é a sua saúde mental. Por isso, saber mais como se apresenta o autismo em mulheres e desmistificar a relação do espectro apenas a homens é importante, porque com diagnóstico, as mulheres podem buscar tratamento e conviver socialmente da melhor forma possível sendo aceitas e compreendidas.

*Jo Melo é mãe, comunicadora, especialista em marketing digital. Escreve sobre feminismo, maternidade, sociedade, mulheres e também é editora e criadora da Revista Mães que Escrevem. Instagram @a.jomelo.

 

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Jo Melo - Mãe, comunicadora, especialista em marketing digital. Escreve sobre feminismo, maternidade, sociedade, mulheres e também é editora e criadora da Revista Mães que Escrevem. Instagram @a.jomelo.
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